3.6.06

"eu posso te ligar amanhã?"

"claro! aí a gente combina melhor."

"tá bem. boa noite e se cuida!"

"beijos! vc também!"

"beijo."


e adivinha quem se esqueceu de pegar o telefone??? (sorriso)
dia desses eu confiei meu coração pra alguém que nem sabe disso.

tá, marcio... vc ficar apaixonado não é novidade nenhuma, né?


mas aí é que está. eu não estou apaixonado. não apaixonado por uma pessoa, pelo menos. estou amando uma idéia, um conceito.

é! eu amo um conceito, como só um sonhador pode... (típico de mim, né?)

tá bem! eu sou movido a esse tipo de impulso idiota e que nunca dá em nada. mas às vezes é legal pensar que se pode amar alguém ainda.
essa foi a pior semana que eu tenho em muuuuuuuuuito tempo.

não estou me sentindo eu mesmo...

não estou sentindo nada, agora.

só vontade de que tudo passe.
algumas noites eu queria encontrar alguém que me fizesse acreditar que ainda existem maravilhas, por aí...

lugares escondidos

o inverno está frio, no rio. mas mesmo assim, a calçada está repleta de meninas vendendo parte de sua vida por trocados manchados de sangue e suor. ele caminha, alheio a elas. as luzes amareladas iluminam a névoa no ar, deixando a paisagem irreal como um sonho.

ele chega à lapa, onde bares cheios de adolescentes tocam música alta, tentando atrair os olhares do mundo. ele olha por vários instantes, maravilhado com o movimento de pessoas, captando cada detalhe. em algum ponto dentro de si, alguma coisa se movimenta e protesta, desconfortável com a máscara que ele usa para o mundo.

sentado no meio fio, a uma distância segura das outras pessoas, ele cala o protesto dentro de si com uma garrafa de tequila. seus pensamentos vagam por épocas, lugares e pessoas diferentes, com uma certa melancolia que lhe é característica.

sem perceber, uma voz lhe chega aos ouvidos.

"posso tomar um pouco?"

uma menina que parece ser pelo menos 10 anos mais nova que ele está de pé ao seu lado. os cabelos roxos caem em volta dos olhos, a roupa negra cobre um corpo pequeno.

ele entrega a garrafa e ela senta-se ao lado e os dois começam a conversar. não teria feito isso, normalmente, mas algum detalhe obscuro no jeito dela o fez querer que ela estivesse ali.

eles conversam sobre a noite, falam sobre música e filmes... o humor negro dele a faz sorrir com olhos grandes e verdes de criança.

o homem não percebe quando as máscaras começam a cair e ele fala de si com uma sinceridade que pensava estar perdida para sempre.

ela fala algo bobo e de repente os dois se calam em um momento de silêncio cheio de significados. os olhares se cruzam de maneira diferente, as mãos se buscam enquanto os dois lábios se tocam, quase que incidentalmente.

eles dormem juntos, abraçados, fazendo carinhos um no outro.

ela diz que o ama.

na manhã seguinte, a cama está vazia. dois estranhos se afastam no nevoeiro que se dispersa em raios de sol que iluminam todos os lugares.

30.5.06

a menina brinca, mostrando seus atributos em movimentos quase desinteressados. ela carrega o fogo das descobertas no coração, a inquietude que queima na pele.

o homem a olha, à distância. ele acompanha os gestos dela com o olhar. seus modos são seguros e cada ato é calculado antes da execução. seus olhos trazem a profundidade do conhecimento do mundo, o corpo tem a impetuosidade marcada na pele.

os olhares se encontram. os sorrisos se seguem. os corpos se atraem.

as bocas trocam frases e beijos. os corpos se enroscam, conhecem um ao outro. trocam a experiência um do outro.

eles se despedem na manhã seguinte. há um ar de melancolia no ar. não sabem se encontram-se novamente.

mas os dois carregam dentro de si uma vontade de mais.

28.5.06

every you and every me

sucker love is heaven sent.
you pucker up, our passion's spent.
my hearts a tart, your body's rent.
my body's broken, yours is bent.

carve your name into my arm.
instead of stressed, i lie here charmed.
cuz there's nothing else to do,
every me and every you.

sucker love, a box i choose.
no other box i choose to use.
another love i would abuse,
no circumstances could excuse.

in the shape of things to come.
too much poison come undone.
cuz there's nothing else to do,
every me and every you.
every me and every you,
every me... he

sucker love is known to swing.
prone to cling and waste these things.
pucker up for heavens sake.
there's never been so much at stake.

i serve my head up on a plate.
it's only comfort, calling late.
cuz there's nothing else to do,
every me and every you.
every me and every you,
every me... he

every me and every you,
every me... he

like the naked leads the blind.
i know i'm selfish, i'm unkind.
sucker love i always find,
someone to bruise and leaves behind.

all alone in space and time.
there's nothing here but what here's mine.
something borrowed, something blue.
every me and every you.
every me and every you,
every me... he

every me and every you,
every me... he

placebo - every you and every me

23.5.06

eles se beijam.


um beijo com gosto de vinho, chocolate e sangue.
alguém tem um chalé no meio de uma floresta pra me emprestar por algum tempo?


vejamos....


pra sempre?
tem dias em que eu acho que vou colocar fogo nas coisas só olhando pra elas.

tem dias em que eu gostaria MUITO de colocar fogo nas coisas só olhando pra elas.

e tem dias em que só colocar fogo parece pouco.
"eu te amo."

ele mente para ela. sem razão. poderia amá-la. ela era boa para ele. ouvia-lhe, era sincera, gostava da companhia dele e ele gostava de estar com ela.

mas ela era simples.

não conseguia amar a simplicidade e ainda assim, tentava, ingênuo que era (ou teimoso, diriam alguns). queria amar as coisas simples que ela fazia, mas os olhos sempre pareciam vagar em direção ao nada.

queria algo que lhe fizesse sofrer um pouco... que lhe fizesse discordar e discutir.

gostava, principalmente, do sexo depois de uma briga. gostava de se sentir irracional, emoção pura, sem pensamentos, só vontade.

gostava da melancolia que lhe cortava o coração... mesmo que irreal, às vezes, gostava de pensar que era uma pessoa melancólica (achava que se enquadrava assim no hall de pessoas melancólicas que tanto admirara, quando garoto).

a simplicidade de uma flor o apaixonaria... por alguns instantes...

mas uma tempestade o faria chorar só pela beleza do caos.

precisava do caos, no mundo de fora, porque era assim que ele via o seu mundo interior.

e principalmente...

sentir-se melancólico, estranho e atormentado, fazia com que ele sonhasse...

a dança

ele apreciava a dança. sabia olhar nos olhos da parceira, entendia na linguagem do corpo dela o próximo passo, o gesto que se seguiria.

imaginava-se acompanhando-a, sem tocá-la, a milímetros da pele dela.

a precisão era fundamental.

aprendera essa dança há pouco tempo. sempre achara que precisavam dançar juntos, um levando o outro, o tempo todo. mas entendeu que ele se fosse realmente preciso, ela não perceberia o que estava dançando até estar totalmente envolvida no ritmo.

ele precisava conhecê-la primeiro. dirigia-lhe um olhar ou outro... algo quase casual. aproximava-se de leve, despretensioso.

até que ele mudava o olhar (era especialista nisso). esse olhar era misterioso, profundo.

e principalmente, penetrante.

caminhava em direção a ela, ainda de forma despretensiosa, mas o olhar se mantinha fixo.

parava bruscamente, à frente dela. e esperava.

ela nunca sabia o que fazer, à princípio... não conseguia definir o olhar que recebia... seu rosto ficava quente, precisava fazer algo.

então, em algum lugar na mente dela, começava a ouvir um ritmo... algo que parecia antigo... tambores? não conseguia definir... mas não aguentava mais...

e então a dança começava.

ia em direção a ele, para tocá-lo, mas ele se afastava (era imprescindível, nesse momento, se manter a uma distância precisa).

os movimentos dela eram instintivos, agora. tentava se aproximar, os olhos não viam nada além do parceiro.

ele sorri, um sorriso fugidio... adorava cada passo.

o ritmo aumenta de volume e fica mais rápido.

os dois se movem, giram.

a música toma o ar.

ele então faz seu ato final. quando ela não pode mais se livrar, ele a toca, puxando o corpo frágil em direção ao seu, colando-a junto a si.

ele a beija.

outra dança tem início.

20.5.06

"menino marcio... vc é mais gótico por dentro do que por fora!"

é verdade, menina rebeca... pior é que é verdade... (sorriso)

16.5.06

hell de janeiro

são paulo está tomada. sitiada por bandidos.

na boa... pra mim isso é terrorismo pura e simplesmente.

fico receoso de que isso aconteça no rio. porque será igual ou pior do que em s. paulo.

e eu odeio de verdade quem fica falando que isso aqui é o melhor lugar pra se morar. quem fala algo assim ou é um hipócrita, ou tem uma memória MUITO seletiva...

melhor lugar do mundo... claro. sobe uma favela vestido de policial, à noite... vc vai ter a noite da sua vida.
a lua me olhou por entre as nuvens, hoje... ela parecia minha mãe, quando eu faço besteira:

"ai, ai... será que algum dia esse garoto vai aprender?"


ah! eu aprendo... o problema é que eu esqueço rapidinho!

call of cthulhu

ele encontrou o livro no sótão da casa do avô. estava dentro de um baú, lacrado com uma espécie de selo feito com cera.

a capa era recoberta com couro negro. havia um cheiro estranho no livro. um cheiro de algo muito antigo. finalmente tomou coragem para quebrar o lacre. pareceu ter ouvido um sussuro, mas o sótão estava vazio.

só ele e o livro.

ele olha as páginas amareladas e grossas. de alguma maneira, ele reconhece o que está escrito. começa a ler... e não percebe quando deixar de ler em silêncio e começa a falar mais e mais alto.

em algum lugar, nas trevas, algo se move.

o garoto fecha os olhos, entoando mais e mais alto... não precisa mais ler o livro. ele sabe todas as palavras.

ele se vê em outro lugar. em outra época. à sua volta, homens e mulheres dançam de maneira alucinada, as vozes num coro uníssono. clamando, chamando.

ele grita para os céus, chamando um nome antigo.

nuvens cobrem os céus...

chamas queimam as fronteiras do mundo.

as trevas chegam.

ele abre os olhos. o sótão está vazio. o livro está aberto à sua frente.

ele o fecha e coloca dentro do baú. tenta esquecer o que aconteceu.

mas as vozes em sua mente não o deixam.

"ele está vindo", elas dizem.

"ctulhu está vindo".

o corpo do garoto foi encontrado, alguns meses depois. ele atirou na própria cabeça.

ele tentou silenciar as vozes.

15.5.06

gutter

i once
dreamed of a world
without consequences
without reminders
of this
brutal
gutter
i am collapsed in
once i dreamed
but then
i
woke
up

otep - gutter

14.5.06

implacável

porque não há como não se apaixonar pelo céu

life

one last tear

hoje eu entrego todas as palavras ao som das guitarras.

todas as coisas são ditas

eu te amo
odeio você
casa comigo
um dia ele vai embora

em cada casa, em cada mente,
existem frases que nunca foram dita.
elas vivem nas sombras,
alimentadas pelo medo.

elas são feitas de dor e sangue
e segredos
e mentiras.

elas sobrevivem, mesmo enterradas
elas sorriem de nós à noite,
quando a realidade parece ter cedido espaço ao sonho.

todas as coisas não ditas,
todas as coisas malditas.

before darkness

fallen one

13.5.06

alguém por favor, feche o mundo por alguns dias...

israfel

gothic boy

12.5.06

olho para fora, tentando entender que angústia é essa que toma meu peito.

gosto amargo na boca...

vontade de gritar...

se ao menos ouvesse alguém para ouvir.
ele se beijam demoradamente...

com o coração apertado, ela vai embora. ele fica para trás, olhando.

ela some, em direção ao ônibus. ele fica parado por um longo tempo, ainda. as pernas não obedecem, ele não quer ir embora.

mas a realidade chega a ele, aos poucos. ele só pode viver de sonhos aos poucos. escolheu esse caminho.

ele vai embora, com uma cicatriz nova no coração e um pouco mais sábio.
sinto falta das manhãs com neblina...

quando era criança, adorava caminhar na neblina. era como andar em um outro mundo. parecido com o nosso, mas muito mais misterioso.

sinto falta disso.

11.5.06

o sangue escorre das mãos.

ele está ajoelhado, ao lado do corpo dela.

ele olha para ela... apaixona-se pela aparência quase irreal do corpo. os olhos abertos olham para a lua.

ele a beija.

ele a libertou desse mundo. com as suas mãos, tomou a alma dela para si.

nessa noite, o homem que ele era desapareceu.

e algo novo tomou seu lugar.
sonhei com corvos, essa noite...

eles voavam à minha volta.

eles eram parte de mim.
ele desenha espirais em sua pele com o sangue do animal morto.

ele voltará para casa com a pele do lobo e ela será o símbolo da passagem.

ele deixou de ser menino, naquela noite. os deuses o presentearam.

ele é um homem. o futuro líder.

9.5.06

fissura

o teclado é o meu traficante.

me entrega o que preciso.

mas nunca é o bastante...

moto perpétuo

o tráfego parece quase irreal, daquela altura.

o vento sopra forte. o homem está sentado no beiral do prédio, olhando para o abismo de concreto metal e vidro abaixo dele.

ele gosta da sensação do vento. fecha os olhos e sente a força das rajadas velozes, nos cabelos, no rosto.

ele pensa em como é silencioso, naquela altura. os sons das ruas são murmúrios distantes.

olha para os céus. imagina que se esticasse os braços, poderia alcançar as nuvens.

o sol do outono brilha, trazendo luz mas não calor. o homem sentado no beiral do prédio gosta da sensação.

liberdade. é isso que ele sente. a liberdade de escolher o que fazer.

ele se dobra para a frente, caindo no vazio.

um silvo nos ouvidos, a pulsação acelerada, o vento frio e cortante.

um sorriso no rosto.

ele fecha os olhos.

o homem acorda...

está sentado na frente do computador. o cursor pisca, pedindo as palavras.

ele escreve sobre um homem em um prédio.

8.5.06

raposa

era pequena, em comparação à uma menina de sua idade.

e tinha a pele muito branca e sempre com olheiras, porque ficava acordada até tarde da noite e não gostava de brincar no sol, com as outras crianças.

escondida de todo mundo, ela ia até a sala e ligava a televisão.

assistia aos filmes de terror, sozinha.


era uma menina normal, no geral.

mas se olhasse mais de perto, perceberia que tinha olhos de raposa.

piromania

se pudesse, hoje eu colaria fogo em tudo...

porque só assim sentiria que o mundo lá fora tá de acordo com o mundo aqui dentro...
a lâmina não pode cortar tão fundo a ponto de alcançar a alma.

e, sinceramente?

nem sempre isso é uma coisa boa.

7.5.06

film noir

a lâmpada pisca erraticamente, mal iluminando as paredes sujas da sala...

ele está sentado, olhando para a arma e o envelope, sobre a mesa. os olhos parecem desfocados, olhando para outro lugar, outra época.

um dos pés bate nervosamente no chão. ele não percebe o tique.

ele espera. lá fora, o elevador do prédio começa a trabalhar, fazendo um barulho monstruoso.

o homem aperta as mãos. ele está nervoso. em seu estômago, algo se revira.

o elevador pára no andar, logo à frente do apartamento. a porta corre... ele escuta passos. os olhos ganham um brilho. há sentimentos demais em seu olhar.

a porta se abre devagar. um jovem de cabelos loiros aparece. ele olha para o homem sentado na cadeira. seus olhos correm rapidamente para a arma sobre a mesa.

mas ele não parece surpreso.

o homem levanta-se. pega a arma sobre a mesa e aponta para o garoto.

o garoto tem os olhos vidrados. parece não ter certeza do que está acontecendo.

ele abre a boca, mas é o homem quem fala:

- eu sabia que você viria pra cá. tá com tanta droga no seu corpo que não consegue mais pensar. senta aí!

- cara... eu não tive culpa... ela...

- cala a boca! senta na porra da cadeira!

o garoto desaba sobre a cadeira velha. o homem olha pra ele. a arma pesa em sua mão. quer acabar com tudo. quer voltar no tempo. mas continua ali, naquela sala suja, com a arma na mão e a sensação no peito.

- ela confiou em você! queria tirar o irmãozinho do mundo das drogas. "queria dar uma chance a ele", ela dizia. e é assim que você paga!

- porra... eu não tive nada a ver com aquilo. ela foi lá porque quis... eu não... eu não... não queria que ela fosse me pegar. falei pra ela não ir...

- três! ela foi estuprada por três, seu merda! ela foi te buscar e é isso que sobrou dela!

o homem apanha o envelope e o joga na cara do rapaz, que chora.

- abre! olha as fotos!

coloca a arma na cabeça do garoto com força.

o garoto abre o envelope e olha as fotos, chorando como criança.

o homem acha a cena patética. sabe que o garoto não sente praticamente nada, por causa do barato. mas ele precisa ver.

- olha pra ela, desgraçado! olha pro que você fez com ela!

- cara! eu não tava lá... não vi os caras fazendo isso.

- o socorro demorou meia hora, até achar o beco onde ela estava. jogada no lixo! ela foi pro hospital... demorou 3 horas, até que morresse...

o homem começa a chorar, também. o estômago está embrulhado, com a lembrança do que aconteceu. ele quer vomitar. quer trazer ela de volta.

- por favor! eu não fiz nada! eu não fiz nada... ela não tinha que ir lá!

- ela chamou o seu nome, na minha frente, na cama do hospital. mal podia ver e ainda assim, chamou o seu nome, verme! ela morreu por sua causa... ela morreu... ela...

- eu não queria... ela não... eu não queria... eu não queria...

o tiro atravessa o crânio. a cadeira e o garoto caem em um estranho movimento entrecortado, por causa da iluminação da sala.

o cheiro de pólvora sobe. o homem está chorando.

chora pelo que perdeu, mais do que pelo que acabou de fazer. chora por uma menina que morreu em seus braços. chora por saber que o que acabou de fazer não trará ela de volta.

o jovem faz movimentos estranhos, no chão... o sangue se espalha rapidamente em um vermelho escuro. a respiração termina abruptamente.

as fotos estão espalhadas pelo chão. uma delas pousa à frente dos olhos do garoto. uma menina loira em uma mesa de autópsia olha para o irmão morto.

a luz se apaga, uma última vez.

passos no corredor e o barulho da porta do elevador.

está terminado.

shades of grey

algumas vezes eu esqueço
todos os meus erros
e todos os medos.

e abro meus olhos,
olho para o abismo
e sorrio

o sorriso daqueles que sobreviveram
a mais uma noite frente a seus próprios erros.

a inocência se foi
a fome de coisas novas aumentou

e ainda não consigo entender tudo
mas meu coração persevera
procurando, encontrando e esquecendo logo após.

e minha alma com o fogo da criação
o fogo da fome de mais e mais.
consumindo a si mesma e se recriando.
... e o homem procurou em todo o mundo por algo que ele descobriria que estivera ao seu lado, o tempo todo...

5.5.06

por que eu só consigo pensar em fogo, sempre que vou escrever???

estranho.

quarto de hotel

tocou a superfície da água, fazendo com que seu reflexo se tornasse fluído, amorfo. a temperatura estava perfeita.

despiu-se do roupão, jogando-o no chão.

entrou na banheira, sentindo o calor da água aquecendo seu corpo, as pernas, as coxas, o quadril, os seios.

adorava banhos de banheira. gostava de mergulhar a cabeça dentro da água, sentindo-se completamente submersa. o mundo parecia silenciar por alguns momentos. tudo parecia calmo, quente e agradável.

a espuma se espalhava, tocando-lhe a pele delicadamente, feito uma nuvem.

ela começou a se banhar.

o corpo continuava firme, mesmo nessa idade. gostava de correr a esponja de banho pelas pernas, sentindo-lhe a maciez, a textura.

os braços eram longos, fortes, mas não musculosos demais.

a barriga exibia uma cicatriz de uma cesariana, mas não era uma marca especialmente grande e de alguma forma ficara-lhe bonita, pois assumiu a forma de uma lua crescente.

jogava água displicentemente pelas costas.

era perfeita. já ouvira essa expressão antes. era perfeita e sentia-se perfeita.

havia-se desgarrado de todas as preocupações da juventude. havia cumprido seu papel ante as outras pessoas.

agora era o momento dela se dedicar a si mesma.

fechou os olhos e ficou vários minutos em silêncio, sentindo o calor em seu corpo, a suavidade da espuma relaxando os músculos.

sorria.

esquecera do mundo por algum tempo, até que sentiu-se outra pessoa.

levantou-se, de forma preguiçosa.

começou a se secar.

olhava-se em um grande espelho que ornamentava o banheiro. olhava cada detalhe com um prazer narcisístico, só seu.

pensou em pintar o cabelo de outra cor, enquanto os pintava.

ruivo.

colocou o perfume e a maquiagem. apenas um pouco sobre o rosto, para dar um tom diferente à pele.

vestiu a lingerie, com rendas azul-marinho.

cetim azul.

o vestido ajustou-se perfeitamente ao corpo.

calça o sapato.

ela dá uma última olhada para o quarto.

na cama, o corpo do homem encontra-se emaranhado com os lencóis, ainda sujos de sêmen e sangue.

os olhos dela brilham, com uma satisfação negra.

ela fecha a porta e vai pelo corredor. o som dos saltos diminuem com a distância.

4.5.06

guardião da luz

a chama da vela faz com que as sombras tomem vida própria, movendo-se de maneira errática.

ele observa a vela queimar. lembra-se de quando era criança e a luz acabava, nas noites de verão. ele e o irmão ficavam brincando no quarto, à luz de vela.

faziam animas de sombra... contavam histórias de terror... conversavam sobre o mundo.

lembra-se de que ficava hipnotizado com o tremeluzir da chama.

imaginava que, se a vela queimasse até o fim e o fogo se apagasse, não existiria nada no mundo.

a vela era tudo o que mantinha as coisas ainda existindo. sem ela, só escuridão e esquecimento.

ele guardava a chama, mas os olhos ficavam sempre muito pesados, o dançar do fogo era quase hipnótico, era difícil ficar acordado...

ele abria os olhos novamente e lá fora o sol já brilhava no céu. um monte de cera derretida jazia, onde antes estava a vela. o fogo havia se apagado.

mas o sol trouxera novamente a luz ao mundo.

haveria mais um dia, enfim...
sim.


eu voltei.


porque não consigo largar certos vícios.

poema de carne

a lâmina brilha,

o corpo tensiona,

a alma grita,

a vida devora.
alguma coisa me olha, na escuridão da noite.

olhos antigos, tão antigos quanto o mundo, esperam.


alguma coisa espreita, nas trevas.

esperando até que o mundo silencie.

esperando até que eu durma.


posso sentir seu ódio.

posso sentir seu mal.

é algo palpável e antigo.


alguma coisa me olha, na escuridão da noite.

eu fecho os olhos e sinto.


eu sou aquele que observa nas trevas.
ficou observando a fogueira.

pequenos insetos vinham da escuridão da noite mais além, atraídos pelo fogo. hipnotizados pela luz, até que o calor queimava-lhes as asas e eles caiam em direção à morte.


sentia-se fogo, essa noite.

eternal days

abaixa-se, delicadamente deitando o corpo da mulher no chão. olha para os olhos, semi abertos. um brilho apaga-se aos poucos, no olhar distante.

as marcas da mordida jazem avermelhadas, obscenas, no pescoço. o peito nu esforça-se por mais uma respiração. prende-se a vida que esvaiu-se.

a vida dela agora corre no corpo dele. aos poucos se transformando.

ele vive às custas dela. sempre foi assim. sempre será. sentia-se superior a eles, mas mesmo assim sabia ser dependente das vidas deles.

ele continua a olhar em silêncio quando ela pára de respirar. um pequeno suspiro e a alma se esvai no ar.

depois de anos, fazia sempre a si mesmo a pergunta de como seria aquela sensação. claro, não estava mais vivo. mas tampouco estava morto. era uma sombra, uma abominação. a morte e a vida haviam-lhe sido negadas. admirava as estátuas, porque se reconhecia nelas, de alguma maneira.

abaixou-se mais. tocou levemente os lábios da morta com seus próprios. sentia ainda o calor que emanava do corpo dela. mas aos seus olhos aguçados de caçador, o corpo adquirira uma coloração pálida, acinzentada.

quase como o seu próprio.

levantou-se de súbito. fora do quarto abandonado, o sol já fazia correr seus primeiros raios pelo mundo. era preciso sair dali.

dentro de si, sentia a vida dela percorrer-lhe as veias. parecia quase poder reviver em sua memória acontecimentos da vida dela. a sensação era indescritível. viciante. saciar a fome é a maior recompensa de sua existência.

claro, existia o sexo, mas não havia comparação. a sensação do gozo, explosiva, libertadora era ínfima, perto de poder sentir a vida invadindo-lhe o peito, o corpo novamente. e todas as sensações! o mundo parecia adquirir outras cores. cores que ele nunca vira em vida. e novos cheiros e novos sons!

saiu da casa abandonada. a rua começava a ficar cheia novamente.

o fluxo eterno de pessoas nas artérias da cidade.

caminhava entre eles, incógnito.

era como um animal predador com a camuflagem perfeita. podia chegar perto o suficiente e eles nunca perceberiam o ataque até que fosse tarde demais.

mas precisava ter pressa. tinha um compromisso.

caminhou até o parque. novas mães brincavam com suas crianças. casais caminhavam juntos, após uma noite de carícias escondidas.

e lá, perto do lago, estavam eles.

ela e o garoto, já beirando 10 anos, davam comida aos patos. alheios à presença dele.

escondeu-se nas sombras (era especialista nisso) e observou-os, até que eles foram embora, caminhando para a entrada norte.

e monstro foi embora, na direção contrária, em direção a mais um dia num suceder de dias e noites iguais. mas naquela manhã, se alguém pudesse chegar perto, perceberia uma pequena lágrima escorrendo de seus olhos.

on the road again

caminho...

a poeira se eleva amarela aos céus...

a estrada estende-se a minha frente...

e eu sigo à sua margem.

29.4.06

1984

ele fecha o livro. idéias navegam em mares revoltos, em sua mente.

ele observa as grades na janela.

e as câmeras de segurança mais além.

e as pessoas se trancam em seus carros, nas ruas.

ele pensa em liberdade. e pensa onde todos erraram.

2004

fechara o livro e ficara olhando para ele, durante quase uma hora.

na parede à sua esquerda, a teletela mostrava os resultados da última conquista da guerra contra a eurásia. não prestara atenção ao que estava sendo dito, mas imagens de uma grande fortaleza marítima em chamas vinham acompanhadas do hino da oceania. a guerra logo terminaria com a vitória da oceania.
vivas para o partido. vivas para o grande irmão.

a imagem de um homem com olhos penetrantes e um bigode que escondia a expressão do rosto apareceu. do outro lado do aparelho, alguém escutava e via todos os atos dele. ou não. era impossível saber quando a polícia do pensamento estava de olho.

não mudara a expressão do rosto. não se permitia demonstrar as emoções que estava sentindo.

não entendia como o livro fora aparecer em sua mesa, abaixo de uma pilha de outros documentos que ele tinha que alterar, lá estava. um livro fino, de um tipo de papel que ele nunca vira na vida. as páginas estavam escritas com uma letra feia, cheia de garranchos. mas o que ali estava escrito.

dois nomes apareciam, no meio dos escritos: winston e julia.

e a data: 1984.

eram as únicas referências que ele tinha sobre o dono dos escritos. a letra parecia masculina, então incoscientemente a associara a winston.

por fim, o medo o dominou (mas não mudara a expressão do rosto, não se permitiria isso) e ele jogou o livro no incinerador. nada mais existiria, além da lembrança do que havia sido escrito.

ele terminou o trabalho, olhando de tempos em tempos para a teletela. aguardando que os homens da polícia do pensamento chegassem.

mas nada aconteceu.

terminara seu turno sem encontrar mais ninguém. modificou vários exemplares de jornais e sites da internet, acertando informações. não entendia como poderiam produzir tantos documentos com informações erradas, mas em nome do partido, era necessário corrigir os erros anteriores.

voltara para casa, caminhando pelas ruas cinzentas. o agasalho não o protegia contra o frio, mas era tudo o que pôde arranjar. os soldados da linha de frente precisariam muito mais dos recursos do que ele. ficara feliz em poder contribuir com a guerra, com qualquer dinheiro que sobrasse. a oceania precisaria de toda ajuda possível, contra os monstros da eurásia.

caminhou por um bairro de proles. em um beco escuro, uma mulher oferecia seu corpo por uma barra de chocolate. crianças famintas olhavam para ele, quietas. ele não vira nada.

o apartamento está frio. os aquecedores foram desligados mais cedo, hoje. a teletela domina o cômodo, mostrando a imagem de uma mulher discursando sobre a importância do casamento para a reprodução e a manutenção dos números demográficos.

não era possível desligar o aparelho.

ele se deitou, cobrindo-se com um cobertor velho, mas que ainda o mantinha quente. precisaria recorrer a outro em breve. esperava ter dinheiro.

fechara os olhos. tudo o que via a sua frente eram as letras de um livro velho, mal escritas, palavras infantis, mas que não saiam de sua mente.

naquela noite, ele dormiu e sonhou ser winston... sonhou com ele escrevendo o livro (como faria para se esconder da teletela e dos microfones?).

sonhou com o grande irmão, ditando a sociedade, o único mantenedor de tudo em que acreditavam. uma grande estátua falava a todos os da oceania. mas por alguma razão, a estátua estava quebrada, deformada. e ninguém parecia perceber.

sonhou com uma bota militar esmagando o crânio de uma criança.

sonhou com julia.

no dia seguinte, ele acordou. o frio tornava o ato de levantar-se bastante doloroso. fora ao banheiro.

olhou-se no espelho (haveria ali alguma câmera?).

era o mesmo de antes. mas algo havia mudado.

se olhassem de perto, mesmo assim não veriam. mas havia um brilho nos olhos dele.

ele não sabia o que era aquilo. mas se ele pudesse dar um nome ao brilho, seria...

esperança.

27.4.06

em algum lugar, ela dorme...

e eu aqui, sonho acordado.

26.4.06

noite de outono

eles se abraçam, deitados na cama... as sensações do gozo do sexo ainda a correr por seus corpos, como eletricidade.

o barulho da chuva batendo na janela é a trilha sonora dos dois...

ele a beija e faz carinho nos cabelos desarrumados dela, que insistem em cair sobre os olhos. ela sorri para ele, tentando descobrir o que se passa por trás do seu olhar.

ela se sente protegida...

ela que sempre disse que amor e sexo são coisas separadas. ela que acreditara que amor era coisa de filmes, de poemas piegas feitos para adolescentes, agora procurava nos mesmos poemas as palavras pra descrever o que sentia.

ele que acreditava que não ia amar nunca mais. ele que disse a si mesmo que o amor era algo distante, que não podia mais ser sentido, se encontrava entregue.

eles trocam palavras, promessas e sorrisos. as pernas enrroscadas, como o destino que os dois acreditavam não haver.

ele diz a ela:

"boa noite, amor"

ela responde com um sorriso de menina, se aninhando mais nos braços dele.

a chuva bate na janela... nas sombras, dois amantes dormem e sonham juntos.

22.4.06

que vontade de andar sob o frio do inverno.

o mundo faz muito mais sentido pra mim, no inverno...
eu não sei como ser uma pessoa.

é fato.

comprovado.

alguém ainda virá um dia, recolher a peça defeituosa.
ele toca uma flor que então queima com uma chama de coloração azul.

ele sente o calor e seus olhos lacrimejam, mas ele não consegue afastar o olhar.

urca

eles bebem os últimos goles do cabernet... conheceram-se poucos dias atrás, mas ele sente que ela já estava de alguma maneira na vida dele há tempos.
a noite de outono estava amena, mas um vento mais frio começava a soprar, fazendo as ondas chegarem mais perto deles.

eles riem, contando histórias sobre suas vidas. ela fala dos problemas com namorados. ele fala da falta de perspectiva dele com relacionamentos.

a lua brilha, criando sombras sob uma luz pálida.

eles terminam o vinho e decidem caminhar na areia. ele conta para ela sobre o fascínio dele sobre o mar. ela sorri, porque lembra que gosta muito da urca, do anoitecer ali e da visão do mar e da montanha.

ela se senta na areia e olha para ele com olhos de criança. ele sorri e senta ao lado dela, meio tonto com o álcool.

não sabem direito como foram parar ali... não se lembram de como chegaram, de como se conheceram. lembram-se só que estão sentados na areia, ouvindo o som de ondas e sentindo o vento balançar os cabelos.

ela encosta-se no ombro dele em silêncio. ele toca-lhe os cabelos. ela brinca, falando que gosta do carinho. ele olha para os olhos dela, cheios de uma vida que pulsa intensa e clara, aos brilhos da lua.

ela adormece, com a cabeça encostada no ombro dele.

ele olha o mar, não desejando nada mais no mundo.

18.4.06

gasoline

i am gasoline and matches
i turn everything to ashes

i am gasoline and matches
i turn everything to ashes
i'm burning, i'm learning
i'm learning, yes, i'm learning

i give kerosene divorces
i light angel wings with torches

i give kerosene divorces
i light angel wings with torches

i'm burning, i'm learning
i'm learning, yes, i'm learning

life is good because i'm breathing
hell is just a stage of grieving
you're an evil human being
sorry if that hurt your feelings

i'm burning, but i'm learning
i am gasoline, i am history
i am gasoline, i am gone

kicking harold - gasoline

16.4.06

dream a dream of me.


pra vc, que entende todas as cores que o céu tem...

be different

luzes na estrada

quando começaram a construir as rodovias interestaduais nos estados unidos, as pessoas descobriram um fato curioso:

muitos animais acabam atravessando as rodovias, em busca de alimento ou água. é um fato comum. a lebre americana é um desses animais.
bom... descobriram que as lebres ficavam hipnotizadas pelas luzes dos faróis dos carros que atravessavam as rodovias, à noite. e muitas eram atropeladas, porque viam o perigo, mas não conseguiam fugir.

hoje eu me sinto como um desses animais... tem uma gigantesca luz na minha frente piscando "perigo", mas eu não consigo olhar para outra direção.

12.4.06

ele escuta morrissey, no computador, enquanto digita uma história que não é a sua.

os personagens sofrem dores que ele não sente.

amam com uma intensidade que ele não conhece.

sorriem e são felizes com coisas que ele nunca viveu.

mas ele está lá. em cada um deles, ele está lá.

11.4.06

em uma terra distante, ao norte daqui existe um jardim.

ele não pode ser encontrado. não por quem o procura com a intenção de encontrar um jardim.

ele é um presente dos deuses... um lugar de paz.

um alívio para o mundo.

e no centro desse jardim existe um banco, cercado por flores que não existem em nenhum outro jardim.

e neste banco de pedra, nas noites de lua cheia, uma pequena inscrição pode ser encontrada por aqueles cuja essência pertence mais ao jardim do que ao mundo:

corpore, anima et somnium...

9.4.06

eles se olham por um instante... nenhuma palavra é dita. somente um sorriso é trocado.

mas eles não precisam de mais nada.

something

ela o acha incrível.

sorri com as coisas que ele diz.

quando estão na cama, ele é sempre carinhoso e o sexo é sempre bom.

ele participa das coisas dela. quer cuidar dela.

mas no fim da noite, ela ainda se vê olhando para o nada e sentindo a falta de algo que não está mais lá.
temo as coisas que não podem ser ditas em voz alta.
se eu pudesse faria chover hoje
para apagar o fogo que queima em mim
que queima tudo o que toco.

se eu pudesse, faria o mundo adormecer
e sonhar com outro mundo
e sonhar outro mundo.


se eu pudesse, arrancaria as máscaras
e seria o verdadeiro eu
e me mostraria para você.

se eu pudesse, eu destruiria
e recriaria tudo o que foi feito
só que dessa vez, acertaria.

se eu pudesse, eu pediria desculpas
e seria sincero
e seria verdadeiro.

se eu pudesse...

se eu pudesse, eu jogaria fora
a lâmina que corta os pulsos
e viveria novamente.

se eu pudesse, eu veria o sol nascer
e olharia para a luz
e sorriria.
argh!

damn it!!!! quero escrever!!!!!!!!!!
deus é luz.

sempre lhe disseram isso. ouvia o tempo todo que somente deus era a verdadeira luz.

ele finalmente entendera isso.

uma luz intensa invadiu todo o mundo, como ele nunca havia visto ou sentido antes. por um instante, tudo parecia congelar e silenciar...

logo após o click que detonou os explosivos que ele trazia amarrados ao corpo.
a revolution without dancing is a revolution not worth having.

remember, remember...

people should not be affraid of their governments.
remember, remember the fifth of november...

7.4.06

"até confundiria a doce e bela com a boneca, á bailarina, pois os olhos eram os mesmos brilhantes, somente diferenciados pela dor de um pequeno soldadinho de chumbo deixado do outro lado, onde ela, bela, não pode nem enxergar. que bom que a noite está quente ao menos acalenta o coração seu, que há resquícios do corpo dele e pode esfriar até não senti-lo mais pulsar."

uma pequena borboleta de cores brilhantes e misteriosas deixou isso pra mim...

6.4.06

ele abre as pesadas cortinas que cobrem a janela do estúdio.

uma luz branca invade o ambiente, limpa e intensa. o homem fecha os olhos, sentindo a luz tocando a pele acostumada à escuridão.

os móveis estão cobertos em panos empoeirados.

ele caminha até o centro, onde retira os panos de cima de um antigo piano de cauda.

sentado no banquinho, ele observa as teclas. os dedos encostam produzindo um som alto e claro.

ele começa a tocar, ainda vacilando, errando um pouco o compasso. mas os dedos vão se recordando aos poucos.

e a melodia toma o ar, e o estúdio vibra com luz e som, há muito esquecidos por ali.

ele sorri...
eu já machuquei pessoas com o que escrevo.

já machuquei a mim mesmo com o que escrevo.

é um poder estranho, esse. palavras que não existem no mundo concreto. pulsos elétricos combinados em códigos numéricos, impressos em luz, na tela de um monitor.

e mesmo assim carregadas de uma força quase sobrenatural.

5.4.06

os olhos dela brilham, mesmo por detrás dos óculos.

e ele acha aquilo lindo, distraído em seus próprios pensamentos.

1.4.06

presente

um presente que ganhei de aniversário, da paty...

brigado, menina... adorei o texto! (meu lado megalomaníaco falando)

Era uma vez um menino que lia livros de adultos.

Que se envolvia em um mundo que não lhe era permitido

Que sonhava com cavaleiros medievais, princesas em perigo, donzelas distantes.

E não se contentava com uma existência medíocre

Era uma vez um menino

Que tinha um irmão e se sentia sozinho

Que tinha uma nódoa de tristeza na alma

E parecia carregar todas as mágoas do mundo

Era uma vez um rapaz

Que amava as mulheres mas não se fazia entender

Que amava os quadrinhos, música e literatura

E tinha o dom da poesia no sangue

Era uma vez um rapaz

Que se sentia sempre sozinho

Que gostava de passar desapercebido

E tinha uma carência constante

Era uma vez um homem

Que gostava de facas

Que apreciava o sexo

E tinha ânsia de saber sobre tudo

Era uma vez um homem

Que ainda não se compreende

Que escreve para aplacar turbulências

E reclama de tudo na vida

Era uma vez um homem

Que evoluiu do rapaz

Que surgiu do menino

Mas que não deixa de ter

A criança e o jovem em si

Em eterno conflito

31.3.06

para uma nova mãe...

ela olha para fora do quarto, em direção ao bosque nos fundos da casa... o vento do outono eleva as folhas vermelhas das árvores, criando um balé silencioso no final da tarde.

ela se sente feliz, sem motivo algum... só por estar viva. só por estar ali.

ao seu lado, um caderno de desenho repousa, mostrando a todos a última criação de sua dona, um desenho simbólico da terra mãe, pulsando de vida.

ela ouve um pequeno gemido e se vira para o lado, em direção a um berço que repousa junto à parede.

um corpinho pequeno e rosado se mexe, fazendo barulhos de bebê...

ela o pega nos braços e começa a balançar, cantando uma canção antiga que aprendeu há muito, muito tempo atrás.

a criança se aconchega nos braços dela, sentindo o calor do corpo materno e se acalmando aos poucos.

ela se pega às vezes tentando acreditar ainda que tudo isto aconteceu em tão pouco tempo... sente o toque de dedos pequeninos em seus ombros e uma alegria imensa invade seu corpo, aquecendo a alma.

ela que percorreu tantos caminhos antes, agora inicia uma nova jornada...

ela observa as folhas lá fora, no fim de tarde outonal e pensa no futuro...

e ela sonha.

29.3.06

ela está vestida de branco.

sorri para mim. eu toco em seu rosto, fazendo carinho de leve.

mas é tudo sonho.
na minha cidade pais entregam todo o dinheiro a uma igreja
enquanto seus filhos morrem de fome em casa.

na minha cidade duas meninas trocam juras de amor
enquanto o pai de uma delas espera com uma arma nas mãos.

na minha cidade uma criança trabalha por trocados em um sinal
enquanto um homem fecha os vidros de seu carro importado.

na minha cidade dois olhares se cruzam por um instante
enquanto grades trancam um detento.

na minha cidade...

na minha cidade há uma alma boa.

e isso já basta.
a lâmina corta em silêncio, abrindo caminho na carne...
o corte é profundo
mas não alcança a alma.

anti-social

é... sou eu, sim...

sou aquele que senta no banco do canto, no ônibus, coloco meus fones de ouvido, abro um livro e me desligo dos outros.

sento na mesa com pessoas que conheço... mas podia ser outra mesa, podiam ser outras pessoas.

não é que eu não goste de ninguém. eu gosto... eu amo... eu preciso de pessoas.

mas não o tempo todo.

e definitivamente, eu gostaria muito que vocês entendessem isso.
ele escreve um conto e mostra a ela.

ela o lê... pensa por alguns momentos e vira para ele:

- você sempre escreve coisas tão tristes. você sempre está tão triste. eu tento mudar isso, sempre, mas você parece não querer.

ela vai embora e ele fica sozinho, olhando a folha largada sobre a mesa.

ele não entende porque as pessoas sempre parecem querer salvá-lo.
no cume da montanha, ele estica os braços, para tocar os céus.

28.3.06

irish blood

o cabelo muito ruivo contrastava com a alvidez do rosto. ela pensou que ele parecia doente. mas o sorriso em seu rosto lhe dizia que ele estava se divertindo.

o forasteiro chamara a atenção de todos no pub, por ter chegado de forma ruidosa e pelo forte sotaque irlandês. havia algo de fanfarronice em seus modos, mas nenhum deles pensou em expulsá-lo. havia algo indescritível nele, algo irreal em sua aparência. ela poderia dizer que ele se parecia com um personagem de um conto mitológico daqueles que ouvira quando nova, no colégio.

todos compartilharam suas histórias e o irlandês se tornou em pouco tempo a única pessoa a falar ali. ele parecia ser novo, vinte e cinco anos, no máximo, mas os olhos traziam algo de antigo, neles. como se tivessem visto todo o mundo.

ele ofereceu uma bebida a ela... a voz baixa e rouca tocou em uma parte de seus ouvidos que agitou cada pedaço de seu ser.

conversaram horas e horas. a fanfarronice dele fora deixada de lado e ela percebeu que ele parecia compreender muito bem como ela se sentia. como se ele a conhecesse desde sempre.

tinha um odor de flores distante, mas persistente, que a deixava um pouco tonta, cada vez que ele se aproximava dela para dizer algo.

os olhos dele eram duas chamas que queimavam verdes em suas órbitas. não conseguia afastar olhar... esquecera de todos os outros que ali estavam.

e o cabelo, de um vermelho como nunca havia visto antes. quando a luz refletia neles, era como um halo de fogo...

mais tarde, pediu que ele a levasse em casa.

ela o levou junto para casa... para a cama.

ela era dele. não pensava em mais nada além de entregar-se àquele homem.

ela quis sentir cada centímetro do corpo dele. a pele era macia... o irlandês sussurrou coisas no ouvido dela que a fizeram queimar por dentro... ela gemia, entregue ao toque dos dedos dele. ele corria seus lábios pelo corpo trêmulo.

eles se amaram... ela perdeu nocão do mundo... sentia o toque dele em todo o seu corpo, os lábios, as estocadas dele invadindo o seu ventre, enquanto ela o puxava para dentro de si. queria ele. era toda dele.

a dor veio repentina, perto do seio direito. tentou se debater, mas seu corpo não respondia, entregue aos espasmos de prazer. tentou gritar e tudo o que ouviu foi um gemido de prazer com a sua própria voz. pensou em afastá-lo, mas seus braços o puxavam sobre si.

abriu os olhos uma vez mais... não sabia onde estava.

pensou ter visto um homem deitado ao seu lado. os cabelos dele eram vermelhos...

vermelhos como o sangue...
perdi um objeto, hoje.

não sei como aconteceu, porque eu sempre me preocupei bastante com esse objeto.

depois de um tempo triste com o sumiço, eu comecei a imaginar algo.

esse objeto era um símbolo de tanta coisa do passado. coisas legais, mas também coisas que me faziam mal.

talvez (eu nesse momento estou sendo meio egocêntrico), a perda tenha sido um sinal...

sinal de que os tempos mudam, sinal de que é necessário mudar.

27.3.06

eu tenho quase 30 anos...

e ainda olho para fora da janela e vejo um mundo do qual entendo tão pouco.
tudo bem...

eu faria MUITA coisa hoje por uma boa garrafa de vinho, uma música legal, um lugar aconchegante e uma boa conversa.

como ando sentindo falta de boas conversas...

a cumplicidade simples de se dividir pequenos segredos.

perdido de mim

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

um pedaço que entreguei para alguém cuidar,

um pedaço que foi perdido há tempos.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

ele tem a forma de um coração

e foi perdido em um lugar distante.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

um pedaço que quero encontrar.

sem ele eu sou sombra, sou vazio.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

e uma dor que ficou no seu lugar.

26.3.06

dry

i'd like to take you someplace where angels fear to tread
i always hate to love you
get out of my head it's easy just to say it
so hard to be kind
these thoughts are still within me
infecting my mind

pushing it's way out burning in my mouth
until it hurts

i'd like to violate you
i've done it before
i always love to hate you
you perfect whore
it's easy to imagine
i'm somebody else
so much has happened inside myself

pushing it's way out burning in my mouth
until it hurts

i'd like to push you down
i'd like to push you under
i'd like to push it in you
i'd like to push you push you...

i'd like to give you something
a piece of me
you always like to take it so easily
i never wanted us to end this way
but somethings changed in me
i'm not the same

pushing it's way out
burning in my mouth

and now I'm dry

tura satana - dry

25.3.06

eu quero escrever!!! (marcio olhando para os dedos com cara de ódio)

ok! hoje vcs venceram.
cansado!!!!!!!!!!!!!!!
ele escalou uma montanha distante, "o teto do mundo", diziam. demorou vários dias, sofreu com o frio e com o esforço. mas alcançou o objetivo.
e lá, no topo do mundo, sobre tudo e todos, ele se sentiu sozinho.
então ele resolveu descer. queria agora caminhar entre os outros homens.
e ele foi para sua cidade natal e caminhou com os outros. vivia a vida que eles viviam, fazia coisas com outras pessoas.
e lá, no meio da humanidade, junto a todos, ele se sentiu sozinho.

ele viajou por todo o mundo... conheceu pessoas e lugares, mas sempre se sentiu só.

uma noite de outono, ele encontrou um jardim. estátuas de pedra adornavam o lugar, que tinha uma beleza quase mágica. no centro havia um banco de pedra, cercado de flores brancas e de um azul pálido.
uma mulher estava sentada no banco. seus cabelos vermelhos estavam amarrados em uma trança única, que ia até abaixo da cintura. a pele clara refletia a luz, criando uma aura à sua volta.

ela olhou para ele, e através de gestos, ofereceu o lugar ao seu lado, para que ele sentasse.

ficaram em silêncio por instantes, até que ela sorriu, olhando a lua. e falou:

"não há um lugar no mundo, uma única pessoa, que faça com que a solidão que você sente passe. porque o vazio que você sente não existe para ser preenchido. ele lhe foi dado para que você tivesse fome de sempre mais. mas não deve deixar que ele o consuma. saiba que sempre existirão lugares desconhecidos e pessoas com quem compartilhar seu tempo. você não estará nunca sozinho, sempre terá a mim e a esse jardim, para sempre"

ela o beijou carinhosamente, levantou-se e caminhou em direção às sombras.

ele nunca mais a viu. mas a partir daquela noite, ele caminhou muitas vezes sozinho pelo mundo, e muitas vezes se sentou no meio de muitos, mas não falou com ninguém.

mas não se sentiu mais só.
os deuses gostam, e muito, de brincar comigo.

pena eles não terem bom humor.

separate lies

eu precisava escrever isso aqui, hoje. não sei se vai fazer sentido para alguém... mas eu espero realmente que faça.

"no life is perfect, though it may seem to be. secrets and discontent lie hidden beneath the smoothest surface."

21.3.06

eu tenho uma espada.

visto uma armadura.

mas carrego em minha alma, em meus poemas e meus sonhos as melhores armas.
o momento de mais um ciclo completo se aproxima.

ele observa os céus, aguardando os sinais da mudança das estações e se sente ligado a todas as coisas que aconteceram no mundo, desde a sua criação.

sabe que seu tempo aqui não está terminado. sente que ainda há caminhos a seguir.

a lua ilumina os seus olhos cheios de curiosidade e admiração.

em seu ombro, espirais giram e giram, símbolos de eternas passagens.

ele segue os caminhos do vento, ouvindo uma antiga canção cantada pelas estrelas.

19.3.06

one happy family



bom... o arquivo original é meio grandinho, então eu postei essa versão menor... se alguém quiser, depois eu posso enviar.