29.3.06

ela está vestida de branco.

sorri para mim. eu toco em seu rosto, fazendo carinho de leve.

mas é tudo sonho.
na minha cidade pais entregam todo o dinheiro a uma igreja
enquanto seus filhos morrem de fome em casa.

na minha cidade duas meninas trocam juras de amor
enquanto o pai de uma delas espera com uma arma nas mãos.

na minha cidade uma criança trabalha por trocados em um sinal
enquanto um homem fecha os vidros de seu carro importado.

na minha cidade dois olhares se cruzam por um instante
enquanto grades trancam um detento.

na minha cidade...

na minha cidade há uma alma boa.

e isso já basta.
a lâmina corta em silêncio, abrindo caminho na carne...
o corte é profundo
mas não alcança a alma.

anti-social

é... sou eu, sim...

sou aquele que senta no banco do canto, no ônibus, coloco meus fones de ouvido, abro um livro e me desligo dos outros.

sento na mesa com pessoas que conheço... mas podia ser outra mesa, podiam ser outras pessoas.

não é que eu não goste de ninguém. eu gosto... eu amo... eu preciso de pessoas.

mas não o tempo todo.

e definitivamente, eu gostaria muito que vocês entendessem isso.
ele escreve um conto e mostra a ela.

ela o lê... pensa por alguns momentos e vira para ele:

- você sempre escreve coisas tão tristes. você sempre está tão triste. eu tento mudar isso, sempre, mas você parece não querer.

ela vai embora e ele fica sozinho, olhando a folha largada sobre a mesa.

ele não entende porque as pessoas sempre parecem querer salvá-lo.
no cume da montanha, ele estica os braços, para tocar os céus.

28.3.06

irish blood

o cabelo muito ruivo contrastava com a alvidez do rosto. ela pensou que ele parecia doente. mas o sorriso em seu rosto lhe dizia que ele estava se divertindo.

o forasteiro chamara a atenção de todos no pub, por ter chegado de forma ruidosa e pelo forte sotaque irlandês. havia algo de fanfarronice em seus modos, mas nenhum deles pensou em expulsá-lo. havia algo indescritível nele, algo irreal em sua aparência. ela poderia dizer que ele se parecia com um personagem de um conto mitológico daqueles que ouvira quando nova, no colégio.

todos compartilharam suas histórias e o irlandês se tornou em pouco tempo a única pessoa a falar ali. ele parecia ser novo, vinte e cinco anos, no máximo, mas os olhos traziam algo de antigo, neles. como se tivessem visto todo o mundo.

ele ofereceu uma bebida a ela... a voz baixa e rouca tocou em uma parte de seus ouvidos que agitou cada pedaço de seu ser.

conversaram horas e horas. a fanfarronice dele fora deixada de lado e ela percebeu que ele parecia compreender muito bem como ela se sentia. como se ele a conhecesse desde sempre.

tinha um odor de flores distante, mas persistente, que a deixava um pouco tonta, cada vez que ele se aproximava dela para dizer algo.

os olhos dele eram duas chamas que queimavam verdes em suas órbitas. não conseguia afastar olhar... esquecera de todos os outros que ali estavam.

e o cabelo, de um vermelho como nunca havia visto antes. quando a luz refletia neles, era como um halo de fogo...

mais tarde, pediu que ele a levasse em casa.

ela o levou junto para casa... para a cama.

ela era dele. não pensava em mais nada além de entregar-se àquele homem.

ela quis sentir cada centímetro do corpo dele. a pele era macia... o irlandês sussurrou coisas no ouvido dela que a fizeram queimar por dentro... ela gemia, entregue ao toque dos dedos dele. ele corria seus lábios pelo corpo trêmulo.

eles se amaram... ela perdeu nocão do mundo... sentia o toque dele em todo o seu corpo, os lábios, as estocadas dele invadindo o seu ventre, enquanto ela o puxava para dentro de si. queria ele. era toda dele.

a dor veio repentina, perto do seio direito. tentou se debater, mas seu corpo não respondia, entregue aos espasmos de prazer. tentou gritar e tudo o que ouviu foi um gemido de prazer com a sua própria voz. pensou em afastá-lo, mas seus braços o puxavam sobre si.

abriu os olhos uma vez mais... não sabia onde estava.

pensou ter visto um homem deitado ao seu lado. os cabelos dele eram vermelhos...

vermelhos como o sangue...
perdi um objeto, hoje.

não sei como aconteceu, porque eu sempre me preocupei bastante com esse objeto.

depois de um tempo triste com o sumiço, eu comecei a imaginar algo.

esse objeto era um símbolo de tanta coisa do passado. coisas legais, mas também coisas que me faziam mal.

talvez (eu nesse momento estou sendo meio egocêntrico), a perda tenha sido um sinal...

sinal de que os tempos mudam, sinal de que é necessário mudar.

27.3.06

eu tenho quase 30 anos...

e ainda olho para fora da janela e vejo um mundo do qual entendo tão pouco.
tudo bem...

eu faria MUITA coisa hoje por uma boa garrafa de vinho, uma música legal, um lugar aconchegante e uma boa conversa.

como ando sentindo falta de boas conversas...

a cumplicidade simples de se dividir pequenos segredos.

perdido de mim

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

um pedaço que entreguei para alguém cuidar,

um pedaço que foi perdido há tempos.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

ele tem a forma de um coração

e foi perdido em um lugar distante.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

um pedaço que quero encontrar.

sem ele eu sou sombra, sou vazio.

tem um pedaço de mim perdido no mundo.

e uma dor que ficou no seu lugar.

26.3.06

dry

i'd like to take you someplace where angels fear to tread
i always hate to love you
get out of my head it's easy just to say it
so hard to be kind
these thoughts are still within me
infecting my mind

pushing it's way out burning in my mouth
until it hurts

i'd like to violate you
i've done it before
i always love to hate you
you perfect whore
it's easy to imagine
i'm somebody else
so much has happened inside myself

pushing it's way out burning in my mouth
until it hurts

i'd like to push you down
i'd like to push you under
i'd like to push it in you
i'd like to push you push you...

i'd like to give you something
a piece of me
you always like to take it so easily
i never wanted us to end this way
but somethings changed in me
i'm not the same

pushing it's way out
burning in my mouth

and now I'm dry

tura satana - dry

25.3.06

eu quero escrever!!! (marcio olhando para os dedos com cara de ódio)

ok! hoje vcs venceram.
cansado!!!!!!!!!!!!!!!
ele escalou uma montanha distante, "o teto do mundo", diziam. demorou vários dias, sofreu com o frio e com o esforço. mas alcançou o objetivo.
e lá, no topo do mundo, sobre tudo e todos, ele se sentiu sozinho.
então ele resolveu descer. queria agora caminhar entre os outros homens.
e ele foi para sua cidade natal e caminhou com os outros. vivia a vida que eles viviam, fazia coisas com outras pessoas.
e lá, no meio da humanidade, junto a todos, ele se sentiu sozinho.

ele viajou por todo o mundo... conheceu pessoas e lugares, mas sempre se sentiu só.

uma noite de outono, ele encontrou um jardim. estátuas de pedra adornavam o lugar, que tinha uma beleza quase mágica. no centro havia um banco de pedra, cercado de flores brancas e de um azul pálido.
uma mulher estava sentada no banco. seus cabelos vermelhos estavam amarrados em uma trança única, que ia até abaixo da cintura. a pele clara refletia a luz, criando uma aura à sua volta.

ela olhou para ele, e através de gestos, ofereceu o lugar ao seu lado, para que ele sentasse.

ficaram em silêncio por instantes, até que ela sorriu, olhando a lua. e falou:

"não há um lugar no mundo, uma única pessoa, que faça com que a solidão que você sente passe. porque o vazio que você sente não existe para ser preenchido. ele lhe foi dado para que você tivesse fome de sempre mais. mas não deve deixar que ele o consuma. saiba que sempre existirão lugares desconhecidos e pessoas com quem compartilhar seu tempo. você não estará nunca sozinho, sempre terá a mim e a esse jardim, para sempre"

ela o beijou carinhosamente, levantou-se e caminhou em direção às sombras.

ele nunca mais a viu. mas a partir daquela noite, ele caminhou muitas vezes sozinho pelo mundo, e muitas vezes se sentou no meio de muitos, mas não falou com ninguém.

mas não se sentiu mais só.
os deuses gostam, e muito, de brincar comigo.

pena eles não terem bom humor.

separate lies

eu precisava escrever isso aqui, hoje. não sei se vai fazer sentido para alguém... mas eu espero realmente que faça.

"no life is perfect, though it may seem to be. secrets and discontent lie hidden beneath the smoothest surface."

21.3.06

eu tenho uma espada.

visto uma armadura.

mas carrego em minha alma, em meus poemas e meus sonhos as melhores armas.
o momento de mais um ciclo completo se aproxima.

ele observa os céus, aguardando os sinais da mudança das estações e se sente ligado a todas as coisas que aconteceram no mundo, desde a sua criação.

sabe que seu tempo aqui não está terminado. sente que ainda há caminhos a seguir.

a lua ilumina os seus olhos cheios de curiosidade e admiração.

em seu ombro, espirais giram e giram, símbolos de eternas passagens.

ele segue os caminhos do vento, ouvindo uma antiga canção cantada pelas estrelas.

19.3.06

one happy family



bom... o arquivo original é meio grandinho, então eu postei essa versão menor... se alguém quiser, depois eu posso enviar.

17.3.06

sinfonia em carmim

eles estão abraçados, como duas estátuas eternamente juntas, prisioneiras dos sonhos de um escultor.

o torso desnudo expande e contrai no ritmo da respiração ofegante dos amantes.

a palidez dos corpos cintila os reflexos da luz da lua cheia.

eles se amam.

ele a toca, desvendando os caminhos de prazer do corpo delicado.

ela se entrega em corpo e alma para ele.

eles se abraçam.

eles se beijam.

e sob a luz da lua, o sangue escorre em carmim pela pele dela.

fly by night

ele sente o agitar das asas dentro de si.

garras e bicos cortando, dilacerando para se libertar da prisão de carne.

o grito que ecoa dentro de sua cabeça.

o animal de asas negras ganha a noite, deixando para trás a concha vazia do seu passado.

15.3.06

quero que alguém escreva um texto sobre mim.

sombra

eu já quis ser sombra... passar sem fazer barulho pelo mundo... só sendo percebido de tempos em tempos, quando alguém mais sensível olharia e perceberia meus contornos.

mas eu seguiria meu caminho e tudo passaria.

um dia eu deixei de ser sombra e desejei ser tudo de uma só vez. mas não consegui e me magoei e magoei outras pessoas.

já tentei ser quem eu não sou e não consegui.

já desejei ser mais do que eu sou e não soube.

hoje eu desejo muito, ainda... mas não sei o quê.

nessas brincadeiras todas que os deuses costumam fazer, eu estou me procurando novamente.

sombra, sol, corvo, menino, homem, noite, amante, super-herói, amigo, vivo...

tudo isso...

e mais.
meus humores andam mudando o tempo todo, o dia inteiro.

uma hora tenho vontade de matar um...

depois quero distância de todos...

depois, tudo o que eu queria era um abraço...

sem razões, vou navegando em um mar de emoções,

agitado, desconhecido...

e imprevisível.
ele sonha com uma floresta que não existe.

ele senta-se à beira de um lago imaginário.

o vento irreal de sua imaginação agita as folhas das árvores.

e mesmo sabendo que tudo é um sonho, ele está feliz ali.

e se sente em casa.

9.3.06

poesia?

hoje dormi com ela nos braços,

você estava lá, nas páginas de um livro de poesia.

intensa

sem limites

nua.

e eles nunca vão entender a comunhão que alcançamos

em cada linha em branco e preto.

nossas coxas,

nossos corpos,

nossos sexos.
o olhar de predador.

as coisas certas, ditas na hora certa.

o toque de leve na pele.

eu desejei você por muito tempo.

por todo o tempo.

ter você, tomar você, amar você.

cenas de nós dois nus invadem a minha mente, o tempo todo.

selvagens, sem pudores, entregues a um instinto antigo.

mas essa noite você é de outro.

alguns dias não são para o caçador, mesmo.
o seu cheiro.

os gemidos que você solta.

as coisas que você não diz, mas os seus olhos deixam escapar.

as curvas do seu corpo nu, deitado na cama.

coisas que me desatinam.
meu pai está velho.

um dia eu me peguei olhando para ele, procurando no olhar dele um brilho que eu sempre via, quando era pequeno.

o brilho não estava lá.

foi quando percebi que meu pai estava velho.

foi quando percebi que falta ele sempre fez, nos momentos em que estava distante.

ele foi um pai distante.

não.

eu fui um filho distante...

agora ele está velho e eu quero abraçá-lo.

mas não sei como.

quero encostar a cabeça dele no meu peito.

mas não sei como.

sei apenas que eu o amo.
eu me entrego a uma overdose de sentimentos, quase todo os dias...

me pego a vasculhar o meu passado, o tempo todo, em busca disso. e como os sentimentos que marcam mais são os que apertam a alma, acabo sempre voltando a lugares estranhos e tristes.

eu preciso disso? certamente não.

mas é vício...

como não se apaixonar por isso?

your face has faded away.
and now that you're gone
all the hate
rancour
and jealousy
and dispair have vanished.
no more pain, no more poison.
and what remains?
rememberances of sunday afternoons in bed
sex like a possession
laughing and sweetness
i'm trapped in tattered memories of joy.
mariza tavares - fio

jogos

brincamos como adolescentes, em todos os lugares, você me toca, eu aperto seu corpo de encontro ao meu.

você morde os lábios, pra não fazer barulho, porque eles estão no quarto ao lado.

eu invado seu corpo, você conquista meu desejo...

brincamos um jogo de poder sobre o outro.

desenho meu nome com meus dedos em seu corpo, marcando como ferro sua carne com meu desejo.

você me toma em suas mãos, acariciando, deixando a marca da sua boca na pele. me fazendo gozar...

e depois de tudo somos crianças de novo... falando besteiras e rindo de tudo.

e fingindo que os outros não nos ouviram no quarto ao lado...

8.3.06

encontros

ela me contava dos sonhos dela, enquanto eu viajava neles. marcamos de almoçar, mas mal conseguíamos tocar na comida. quando foi embora, você me abraçou. eu nunca tinha sido abraçado daquela maneira, antes.

você me acompanhou por todos os lugares, aquela semana.

nos encontramos de novo e de novo fiquei encantado com a sua alma. falei sobre muitas coisas, tentando te impressionar (como eu era bobo, naquela época)...

dormimos juntos aquela noite... ou não dormimos juntos... e foi incrível, pra mim.

mas o momento que eu vou guardar pra sempre foi quando olhou pra mim com a carinha mais linda do mundo e pediu, baixinho: "me abraça?"

você me ensinou tanto, me mostrou tanto...

eu não seria quem eu sou hoje sem as coisas que você me mostrou, minha lady... não escreveria essas palavras, agora... não desenharia os meus desenhos... não fotografaria o mundo que tem o meu jeito.

algumas vezes passamos por pessoas por aí e é como se nada tivesse acontecido...

algumas vezes um encontro muda tudo...
essa noite sonhei que tinha espirais por toda a pele...
ele se senta na areia, para olhar o mar.

o som do mar sempre trouxe calma ao seu coração... a visão das ondas sempre trouxeram desejo por mais.

ele gosta demais dessa mistura de sentimentos.

a lua traça um caminho de luz na água enquanto ele entrega o seu coração e sua alma ao mar.

a raven's dream

ele estende as asas, entregando-se ao ar aberto, indo na direção que o vento o carrega.

o corvo sobrevoa um campo de batalha, onde corpos estendem-se sem vidas, entregues ao esquecimento que a morte traz.

o pássaro costumava se antecipar às batalhas, sentindo-se compelido a voar na direção delas.

"ave de mau-agouro", diziam. quando na verdade a batalha fora provocada por eles mesmos.

mas agora ele busca a distância. agora ele está cansado das guerras dos homens.

guerra por poder, guerra por amor, guerras que eles travam entre si, o tempo todo.

ele viu através dos olhos de homens mortos e não viu esperança.

agora o corvo vai embora, em busca de outro lugar.

outros sonhos... outras vidas.

com as asas abertas, ele abraça o horizonte.

feliz aniversário, minha querida hel!

faz tempo que a gente não se vê, cheios de desencontros que somos, mas eu gosto muito de vc, tá? vc tem sido uma amiga muito legal pra mim.

eu sei muito bem que eu encho o seu saco, de vez em quando, sempre falando as mesmas coisas... mas eu só falo porque confio na senhorita! e por falar nisso, tô com saudade dos nossos papos!

quero que vc seja feliz de verdade, e que coisas muito, muito, muito legais aconteçam na sua vida, senhorita menina mariposa.

se cuida direitinho e supercalifragilisticexpialidocious pra vc!

:)
é batata...

sempre que eu preciso de alguém por perto, só pra eu encostar a cabeça no ombro, nada mais é sinal de que não vou encontrar ninguém.

ah...

whatever...

amanhã tem mais.

6.3.06

fé

o calor no quarto pequeno e sujo é esmagador, mas ele parece não sentir.

do lado de fora, barulhos da noite cortam o ar carregados de perversão.

o cortiço é um antro de prostitutas e párias, esquecido em bairro antigo de uma cidade que se diz maravilhosa, mas que por dentro está apodrecida, como uma fruta que ficou tempo demais exposta ao mundo.

ele está no centro do quarto.

ele segura um crucifixo que encontrou mais cedo, na cama de uma menina de 7 anos, que morreu sozinha, depois de ter tido seu corpo destruído pela pessoa que deveria protegê-la do mundo.

ele pegou o crucifixo quando a encontrou. a menina ainda o segurava por entre seus dedos.

ele está ajoelhado ali, segurando o crucifixo em uma das mãos e sussurando.

na outra mão, há uma faca.

ele a levanta solenemente, como num rito e começa a cortar.

o sangue desce das suas costas, enquanto ele arranca as asas...

4.3.06

o mais antigo jogo

fiz uma coisa nada bonita, hoje.

mas, sabe?

é muito bom sentir o poder, de vez em quando...

cena doméstica.

ele está abaixado, no canto da cozinha.

no chão, uma poça de um líquido vermelho e um pouco viscoso se espalha, silenciosa e vagarosamente.

ele tem uma faca nas mãos.

há um corpo, estendido no chão... as roupas absorvendo o vermelho do líquido espalhado.

ele chora. ele está com raiva e medo.

o corpo no chão lentamente pára de respirar.

ele só tem 10 anos.

pedaços de você

sinto o gosto doce e avermelhado de uma noite de verão. inundo os olhos com as luzes da cidade, imaginando um mar de estrelas, à distância.

tomo consciência do quão perdido eu estou em meu próprio mundo quando imagino frases ditas em um telefonema descompromissado:

- eu me apaixono direto por detalhes de várias pessoas, mas assim que chego perto e conheço melhor, tenho uma vontade enorme de me afastar.

os detalhes já não são tão importantes... ou talvez sejam tão poucos, que não importem, isoladamente.

ah! se eu pudesse montar a mulher perfeita, feita de todos os detalhes apaixonantes de todas as pessoas que encontrei por aí...

"a soma das partes é maior que o todo."

quem dera...

fecho os olhos e imagino, em meu constante sonhar acordado, um amálgama feminino, composto de olhares insinuantes, sorrisos descontraídos, voz doce (com um toque de atrevimento), cheiro de chuva, pele de mármore e sabor de morango...

todos esses detalhes dando forma a uma alma complexa (porque eu não consigo amar coisas e pessoas simples).

2.3.06

eu

eu, eu mesmo...
eu, cheio de todos os cansaços
quantos o mundo pode dar.
eu...
afinal tudo, porque tudo é eu,
e até as estrelas, ao que parece,
me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
que crianças não sei...
eu...
imperfeito? incógnito? divino?
não sei...
eu...
tive um passado? sem dúvida...
tenho um presente? sem dúvida...
terei um futuro? sem dúvida...
a vida que pare de aqui a pouco...
mas eu, eu...
eu sou eu,
eu fico eu,
eu...


álvaro de campos (ou fernando pessoa, para alguns)
ei você!

você mesma, que se imagina a criatura mais esperta do mundo...

você não sabe de nada. não consegue enxergar um palmo a frente do seu nariz.

antes de tentar tirar suas conclusões pelas aparências das coisas, deveria tentar perceber o que há realmente por dentro.

eu escrevo sobre o que eu quero, quando eu quero e como eu quero. não faço concessões sobre isso. sabe?

eu ouvi muitas e muitas vezes sobre alguém que queria escrever sobre o que quisesse.

bom... agora é a minha vez.

meus textos falam sobre o que eu quiser.

se você quiser conhecer a verdade sobre o que escrevo, venha perguntar a mim. é a mim que essa verdade pertence.
eu odeio demais quando alguém que eu imaginava me conhecer simplesmente me mostra o quanto eu não sou compreendido.

odeio muito isso.

e o pior é que isso tem acontecido tanto, nos últimos tempos...

autopsicografia

o poeta é um fingidor.
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

e os que lêem o que escreve,
na dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
mas só a que eles não têm.

e assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.

fernando pessoa

28.2.06

eles sorriem, sob o efeito do vinho. eles deixam a comida no prato, não sentem fome...

ele olha para ela e não consegue deixar de perceber os pequenos detalhes que o deixam maravilhado... ele comenta algo sobre isso, causalmente.

ela sorri de uma forma encantadora, um sorriso proporcionado pela inibição do vinho.

eles contam sobre as vidas deles, falando de todos os erros e acertos, falando sobre amores e corações partidos.

respondem sempre "eu sei, eu também sou assim!", sinceramente entendendo-se.

ele vai embora no dia seguinte... e queria tanto saber dizer a ela o quanto amou os momentos que passou ao seu lado.

eles sorriem, em silêncio, numa noite de carnaval.
me senti em vários momentos como o protagonista de "encontros e desencontros", nos últimos dias... mas, quer saber?

foram dias muito legais. de verdade.

saudade... (sorriso)

23.2.06

dead girls

i have been in this line of work for a long time
and i have never seen anything so strange and so peculiar
its all so deranged
see for yourself
ladies and gentelmen of the jury
step right up and see the freak
we caught him red handed down by the morgue
where he sleeps
and if you think that "that's disgusting"
wait til you hear this
i never can do it justice

dead girls like me
dead girls like me
can't you see?

i don't expect you to understand me
i'm not an ordinary man
and i have seen things with these eyes
you'd never comprehend
see for yourself now
take those living women
they have never shown me any kindness of any kind
its not my fault i look this way
i try to talk to them
they look at me and walk away
so really is it so strange that

dead girls like me
can't you see?
only dead girls like me
oh, dead girls like me
can't you see?
only dead girls don't walk away from me
sad as it seems

have you ever tasted love like this?
cool and smooth have you ever been accepted unconditionaly?
have you ever loved someone who didn't hurt you, didn't harm you?

there's no pain and there's no pressure
no humiliation
there's no fear and there's no shame
there's no pulse now is it so strange?

dead girls like me
can't you see?
only dead girls like me
oh, dead girls like me
can't you see?
only dead girls don't walk away from me
sad as it seems
voltaire - dead girls

tô assim, hoje.

22.2.06

lilya 4-ever

ela dorme, sonhando com um país distante... ouvindo ao longe os sons tão familiares do seu bairro.

crianças bricam de esconder, enquanto velhas senhoras discursam sobre os seus problemas de saúde.

o cheiro do café da manhã impregna o ar da cozinha do antigo apartamento. sua mãe canta uma antiga canção, ocupada em seus afazeres.

ela dorme e sonha...

mas o sonho termina em um quarto sujo, sem janelas, em um país que ela não conhece. não há sons, além dos seus próprios soluços e dos passos se aproximando, no corredor.

lilya tem 16 anos.
ela sorri, vitoriosa, ao ir embora. usou as curvas de seu corpo para desenhar uma estratégia de conquista.

os olhares insinuantes, a jogada de cabelo, a cruzada de pernas... peças essenciais em um jogo de caça silencioso.

ela sorri, imaginando que ele passará a noite em claro, pensando nela, desejando o perfume da pele, o calor do beijo dela.

mas naquela noite, é ela quem passa a noite sonhando...
os ventos carregam coisas... pessoas fogem das rajadas poderosas, escondendo-se em bares e lojas.

os carros passam em alta velocidade, tentando chegar o mais rápido possível em seus destinos.

mas eu caminho de olhos fechados, sentindo a força em volta de mim...
conheço cada curva do seu corpo...

mas o que se esconde em seus pensamentos serão sempre um segredo para mim.

21.2.06

ela está sentada no quarto, lendo um livro antigo sobre sonhos de outra pessoa, quando ouve um barulho de batida, bastante baixo.

ela olha à sua volta, sem saber o que procura, até que seu olhar alcança a janela fechada.

uma mariposa de asas escuras está tentando sair do quarto, batendo em vão contra o vidro da janela.

a pequena criatura continua batendo e batendo, sem perceber a barreira invisível que a separa do mundo.

a menina vai até a janela, caminhando devagar, na ponta dos pés e abre a janela.

a mariposa observa a cena à distância, mas assi que o vidro é aberto, ela se põe a procurar a saída. ela sai pelo mundo, à procura de seu destino.

e a menina fica na janela, pensando na mariposa e no vidro...
ele olha o espelho quebrado. só assim ele aplacou o enjôo que sentiu da pessoa que olhava para ele através do reflexo.

ele encara o vidro partido, e imagina a sua própria vida.

o sangue escorre do ferimento no punho, gotejando nos cacos no chão do banheiro.

e cada gota encerra um sonho.

ele encara o reflexo partido do que ele já foi.

20.2.06

o sorriso dela corta o meu peito, expondo um coração indefesso à inocência calculada do seu olhar.

e a noite apenas começou...

17.2.06

no meu silêncio carrego todas as dores,

todos os desencontros de todos os amores não correspondidos.

no meu silêncio carrego todos os desejos,

todos os "eu te amo", todos os "eu te quero".

no meu silêncio carrego todas as forças

de continuar a cada dia, sem perspectiva de um destino.

no meu silêncio carrego todas as palavras que não disse,

mas elas teimam em escorrer para o papel, teimam em se materializar em forma de luzes numa tela em branco.

eu vivo de todos os silêncios.

mas morreria em paz ouvindo o som de sua voz

o sussuro de suas palavras ao meu ouvido.

alice de cabelos de fogo

ela sorri, um sorriso divertido, sem pretensões de nada, me mostrando seus desenhos.

e eu só consigo pensar por que ela me lembra tanto a alice do lewis carroll.

alice de cabelos de fogo.
eu me apaixonei por um livro de poesia.




e eu não gosto de poesia.



é... isso é típico de mim.

éter

encontro-me só.

meus amigos me olham à distância, com olhares cheios de perguntas. não sou o mesmo que conheceram, apesar de ter em minha essência todos os momentos que passei com eles.

não sou o mesmo.

meus amores se foram, perdidos em juras de amor eterno diluídas em um mar de ressentimentos e entendimentos errados. seus olhares não me comtemplam mais. mas carregam um pedaço de mim.

sempre carregarão.

eu flutuo livre de todo o sentimento...

não sinto dor.

não sinto medo.

não sinto.

ao meu lado, as estrelas brilham antigas e frias, em caminhos invisíveis. seus olhares me acolhem no éter do universo.

é aqui o lugar onde pertenço.

9.2.06

há um mundo por trás de tudo o que conhecemos.

para vê-lo, é preciso coragem.

e é preciso saber onde procurar...

olhe...

escute...

aprenda...

arrisque.

minuto de silêncio

em algum lugar do mundo, crianças se juntam, procurando o calor dos corpos uns dos outros em um apartamento parcialmente destruído em um bombardeio.
elas sonham com um lugar melhor, pedem em meio à lágrimas silenciosas para que tudo termine. rezam para encontrar os pais.

e no silêncio da cidade transformada em campo de batalha, por governantes estúpidos, não há nenhum deus para escutá-las.

5.2.06

em um cubículo escuro, em um bordel em uma rua antiga e esquecida do rio, uma prostituta se entrega sinceramente a um homem, apaixonada, amando e sonhando acordada com ele...

... por meia hora.
eu sou um pessimista assustadoramente sonhador...

amar

  (...)
este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
drummond - amar

porque viver vale a pena.

ele encosta no batente da porta entreaberta, olhando para dentro do quarto. um pequenino corpo se mexe, embaixo do edredon com desenhos de dinossauros.

o homem sorri, lembrando de momentos de sua própria vida em que acreditou que nada valia a pena. esteve desenganado do mundo muitas vezes. sentiu-se oprimido pelas pessoas, quis desistir de tudo. mas no fundo, acreditava que havia algo para ele, em algum lugar.

e ele descobriu um dia.

ele a ama com todas as forças... faria de tudo por ela... e agradece aos céus todos os dias que tem oportunidade de passar próximo a ela.

ele descobriu um dia que o mundo vale a pena... descobriu uma nova aventura, em viver.

e deve tudo à pequenina que dorme embaixo do edredon de dinossauros.

better man

ela olha novamente para o relógio, as luzes piscam 4:00. as lágrimas formam uma mancha no travesseiro.
ela repete baixinho, para si mesma, as palavras.
"não! eu não vou aguentar mais isso."
"eu vou embora."

lá fora, as luzes da pick-up iluminam momentaneamente o quarto, como um presságio da chegada dele. ela sera os punhos: "nunca mais!"

ele entra na casa, o barulho das botas se aproximando.

ela rola para o lado e finge estar dormindo. ele para aos pés da cama e olha para ela.

ela aperta os olhos.

ele vai em direção ao banheiro... volta para o quarto e deita ao seu lado, dormindo quase imediatamente.

ela sente o cheiro de cigarro, álcool e outras mulheres, nele. ela chora baixinho, mentindo para si mesmo que ainda o ama... que não conseguiria encontrar alguém melhor.

ela dorme, exausta, e sonha.

sonha com a menina forte e corajosa, que acreditava no futuro, aguardando para si o melhor do mundo. sonha com uma menina que encontrou o melhor homem do mundo. ele lhe dá flores e promete amá-la para sempre.

ele quis ir embora, um dia, após uma briga. ela não deixou. mesmo machucada na alma e no corpo, ela pediu para ele ficar.

não conseguirua encontrar alguém melhor...

ela sonhou com um futuro juntos, mas tirou o filho dele quando disse a ele que estava grávida e tudo o que ouviu foi um palavrão.

mentiu para si mesmo, dizendo que ia acabar com tudo, mas ela não consegue ficar longe dele.

não quer ir embora assim...

no fundo ela ainda acredita nos dois.

e que ela não conseguiria encontrar alguém melhor...

my eyes seek reality, my fingers seek my veins

um filete de sangue sobe pela seringa, quando ele perfura a veia. uma pontada de dor que ele deixou de sentir há tempos.
o sangue desce novamente em direção ao braço, quando ele injeta o líquido. sente o calor projetando-se pelo corpo, uma serpente correndo por seus vasos sanguíneos, carregada de veneno e promessas de prazer.
ele desata o garrote e espera, encolhido, tremendo um pouco, olhando para a mesa desarrumada. entre seringas usadas e colheres queimadas para produzir uma dose, um porta-retrato onde uma mulher e uma criança olham sorrindo para um futuro que nunca existirá.

o homem olha para a chama da vela, queimando em câmera lenta, criando fachos de luz que voam pelo quarto. ele pega um desses facho e o prende com as palmas das mãos fechadas... vai até a janela e solta a pequena chama, mas nada voa de sua mão. mais abaixo, os carros desenham formas nas ruas, um rio de formas e cores corre para baixo do apartamento.
as estrelas caminham pelo céu em forma de anjos e demônios.

ele mergulha num mar de águas transparentes, feitas de diamantes extraídos de estômagos de dragões. sente a pele descolar e danças em seu corpo, seguindo um ritmo próprio.

tudo fica escuro no mundo, menos a vela, que ilumina um porta-retrato manchado e velho, onde olhos brilhantes olham de um passado distante.

o homem deita-se em uma cama de formas e cores mutantes, que o agarra e engole, levando-o para longe do mundo, para longe dele mesmo.

ele chora lágrimas de gelo, chama pelo nome das duas, mas só consegue ouvir o barulho da serpente que devora os seus sonhos, correndo em suas veias, cheia de raiva e de desejo...

2.2.06

procurando memórias

os móveis estavam todos no lugar de sempre. mesmo sem ter estado ali por mais de 10 anos, era capaz de sentir a presença do lugar.

"a casa parecia um pouco menor", ele pensou, "do que quando eu era criança. mas ainda assim, é um lugar enorme. e antigo."

os móveis estavam cobertos com panos, dando um aspecto frio ao lugar. o cheiro havia mudado e o silêncio era penetrante.

o acidente marcou para sempre a vida dele. depois que os pais morreram, teve que viver a vida sozinho. deveria morar ali, segundo seus tios. a casa era valiosa e ele deveria mantê-la intacta. mas ele não aguentou. não com a presença quase onipotente dos pais em cada canto.

caminhou pelo hall, até alcançar a escada. o tapete que cobria os degraus estava um pouco desbotado, mas ainda mantinha muito de sua riqueza de detalhes. ele subiu os degraus em silêncio.

"pai! tá chato lá fora."

o garoto olhou pelo vão da porta, procurando o pai, encontrou-o no final do hall a meio caminho do andar superior.

"posso ir com você? não tem nada pra fazer no carro!"

"está bem. vem pra cá que eu te mostro meu antigo quarto."

"oba! tem muitos brinquedos lá?"

o garoto atravessou todo o hall e foi correndo subindo a escada com o pai. lá fora, o sol escondia-se por trás das montanhas, pintando as janelas da casa de tons de vermelho.

os dois chegaram até um quarto com papel de parede azul e vários cartazes colados. o menino correu para procurar coisas interessantes, para brincar.

"sabe, filho... quando eu era criança, não tínhamos muitas coisas modernas para brincar. a imaginação era a coisa mais importante, no fim das contas. era com ela que críavamos os mundos onde brincávamos de todas as coisas possíveis."

"sem videogames?"

"sem videogames e computador e carros de controle remoto."

"nossa... que chato, né?"

"eu gostava..."

o homem sentou-se na cama, observou a criança remexendo tudo e sentiu uma nostalgia dos tempos antigos.

o menino foi atá a cama com alguns brinquedos na mão e começou a brincar sobre o colchão. o homem olhou de perto e viu a antiga coleção de bonecos de chumbo.

"nossa! eu não os via há tanto tempo! eu costumava guardá-los em uma caixa que seu bisavô me deu, mas depois encontrei uma utilidade melhor para ela."

"como assim, pai?"

"quando eu era criança, eu comecei a perceber que eu esquecia as coisas muito facilmente. então eu resolvi um dia que iria guardar todas as minhas memórias em uma caixa e sempre que eu precisasse, elas estariam lá."

"guardar numa caixa? nunca ouvi isso! como você fazia? escrevia elas e colocava lá dentro?"

"não. vem comigo, eu vou te mostrar!"

eles se levantaram e o homem foi até o meio do corredor, onde parou e abriu uma pequena porta que havia no teto, que se desdobrava para formar degraus que levavam para o sótão.

"eu deixei a caixa aqui, há muito tempo atrás, quando descobri que no fim sempre havia alguém para me lembrar do que eu havia esquecido. cuidado, porque aqui em cima é escuro, tá?"

eles sobem para o cômodo que está iluminado apenas por uma janela arredondada, tingida de vermelho. o homem acende uma luz que ilumina pouco o lugar. o bastante apenas para que eles pudessem revirar as coisas que estavam ali. nessa hora, ele ouve o barulho de algo se movendo, do lado esquerdo.

"ratos."

teria que lembrar de desratizar a casa, se quisesse voltar a morar ali.

eles começaram a procurar, até que o homem percebe a caixa perto dos pés do menino. ele a pega e mostra a ele.

"era aqui que eu guardava tudo o que eu aprendia e queria guardar para sempre."

"nossa... posso ver, pai?"

"tá bem... mas cuidado, tá?"

"tá!"

ele entrega a caixa ao garoto, que começa a examinar o exterior do objeto, com um interesse enorme. o pai sorria um pouco, encantado com aquilo tudo.

o menino destravou a caixa e começou a abri-la.

foi quando uma pequena criatura, completamente negra, do tamanho de um gato e com olhos brilhantes saiu de trás de um antigo baú e correu para pegar a caixa, arrancando-a da mão do garoto.

o menino caiu no chão, com o susto e a criatura olhou intrigado para os dois, segurando a caixa com as duas mãos. de repente, ela se vira e corre para o canto oposto do sótão.

o menino levanta-se, olha por um segundo para o pai e corre atrás do vulto negro.

"devolve a caixa!"

os dois, criatura e menino correm em direção a uma antiga armação que um dia abrigou um espelho de quarto e atravessaram a moldura.

e os dois desapareceram.

o homem ainda não havia se recobrado de tudo aquilo, não acreditando no que acabara de presenciar. que animal era aquele? de onde veio? para onde ele e o seu filho foram???

correu para o canto do sótão. naquele momento a noite já havia baixado sobre o mundo e tudo parecia muito escuro, lá fora. o homem chamou por seu filho, revirando cada canto, cada caixa de papelão do sótão, sem encontrar sinal de seu filho. ele devia ter saído do sótão, enquanto ele estava distraído com tudo o que acontecera.

o homem desceu as escadas e procurou por toda a casa. não havia sinal do menino.

então ele teve uma idéia absurda. mas era a única que ele poderia ter, naquele momento.

subiu novamente a escada para o sótão. foi até o canto do cômodo.

olhou demoradamente a antiga armação do espelho. e então ele passou por ela.

e encontrou o outro lugar.

chuvas

anda chovendo demais, por aqui.

não que eu ache de todo ruim, gosto de tempestades, gosto de sentir a chuva no rosto...

mas o rio de janeiro fica um caos, quando chove tanto.

segunda feira eu estava no trabalho quando começou a chover muito. daquelas chuvas que deixam a visibilidade extremamente baixa.

fui até a janela pra apreciar o espetáculo. olhei para a rua e vi uma coisa engraçada: um velhinho com a família juntando uns bichos e colocando-os em um barco bem grande. cocei a cabeça e pensei:

"isso não vai terminar bem..."

31.1.06

rorscharch

as gotas caem... o vermelho tinge o papel espalhado, formando padrões aleatórios.

ele está ajoelhado, com os olhos perdidos. o barulho do gotejar é tudo o que se houve no quarto desprovido de qualquer sinal reconhecível de que alguém vivia ali.

as paredes brancas, o chão branco, as roupas brancas espelhavam a feição impassível do garoto.

imagens invadem a cabeça dele... um quarto escuro... solidão... medo... um gigante envolto em sombra... dor... sempre a dor... não conseguia dormir... não conseguia nada... só sentir a dor...

eles o levaram para o quarto branco... deram remédios para ele, que faziam o mundo ficar distante... mas a dor continua lá...

mas ele encontrou um alívio.

ele observa as paredes brancas, com os olhos que não mostram nada.

em seu braço, rasgos na pele formam trilhas de vermelho que escorrem, gotejando no chão.

o sangue forma padrões nas folhas brancas no formato de um menino deitado em um quarto escuro.

29.1.06

no horizonte

ele olha o horizonte pela janela da casa...

nuvens cor de chumbo começam a se avolumar, à distância. por vários minutos, o mundo parece aguardar algo... tudo parece ficar mais claro... não há ventos... tudo parece mais quieto... esperando.

as nuvens continuam seu balé silencioso, tocando-se, uma engloba outra, numa orgia celestial. o azul vai pouco a pouco se tornando tênue, o sol perde seu brilho frente ao espetáculo que acontece abaixo.

uma brisa fria começa a soprar e o mundo começa a ganhar vida novamente... as árvores juntam-se ao bailar, curvando-se frente à harmonia dada pelo vento.

o céu escurece... o vento sopra mais forte a cada segundo, levando as folhas secas em direção ao céu... um tributo desse mundo aos senhores das nuvens...

ele ouve o primeiro trovão, carregado de energia, correndo pelo ar acima dele.

logo o primeiro relâmpago irrompe claro no horizonte. sua forma irregular e efêmera corta o ar... um portador do poder dos deuses.

os primeiros pingos caem do céu, tímidos... vacilantes...

e então mais e mais se juntam a eles... lavando a terra... expurgando a sujeira do mundo.

ele está na janela, de olhos fechados, sentindo o vento soprando frio, sentindo a chuva escorrer pela pele, levando tudo embora.

alma gêmea quântica

em algum lugar do universo existe uma partícula... digamos, um múon! ela está lá, viajando por uma singularidade gravitacional, feliz da vida.

bom... a milhões de anos-luz dali, uma outra párticula do mesmo tipo está cuidando de sua vida (que é bem curta, diga-se de passagem).

só que... por uma questão cósmica, não importa o que uma das partículas faça, a outra se comporta de igual maneira.

no mesmo tempo!

são como almas gêmeas quânticas...

pin-ups II

ok, eu não ia escrever isso não, mas já que comecei com o assunto das pin-ups...

eu acho que vou começar uma série fotográfica, com poses no estilo pin-up.

tá, primeiro preciso encontrar alguém que se digne a posar como pin-up...

pin-ups

ok... momento confessional... sabe aquelas fotos e desenhos de meninas fazendo altas poses, com carinhas de anjo e vestindo lingerie que eram modas nos anos 40, 50 e 60, as pin-ups???

eu sempre gostei MUITO de pin-ups... desde que era moleque, eu ficava boquiaberto com elas... nem sei direito por quê, já que eu não sou contemporâneo dessas coisas... mas aquele visual me deixava realmente fascinado.

e eu descobri que estão fazendo um filme com a mais conhecida pin-up! a bettie page...

ok. esse eu tenho que assistir! (sorriso)

27.1.06

definição sobre mim na linguagem matemática

eu sei que sou igual a todo mundo... mas ainda assim, sei que sou deslocado.

devo ser o resultado de uma matriz de transformação aplicada sobre um humano normal.
como pode um encontro de algumas horas marcar dias da vida de uma pessoa?

ok. homens são animais visuais... eu vi a casca e achei interessante, de verdade... mas foram os poucos vislumbres do que havia por dentro que me deixaram intrigado.

sonhei com olhos que me eram os portais de um reino feito de carne e sangue... pulsando de desejos escondidos...
acho que abri e fechei a página do blogger 3 vezes, hoje...

não sei se é o calor... não sei se são todas as coisas que estão passando em minha cabeça, agora... mas nesse momento, as coisas parecem um tanto quanto nebulosas...

não num sentido ruim... só que é mais ou menos uma daquelas horas em que vc precisa escolher um caminho. e sendo eu quem eu sou, é claro que esse caminho de alguma maneira envolve o meu coração.

é difícil, saber até quando uma impressão é só uma impressão. é difícil lembrar os caminhos tomados no passado, as coisas que eles ensinaram a não fazer...

mas é importante utilizar as coisas que os caminhos trilhados ensinam que são certas para nós...

mas eu continuo olhando para os vários caminhos que se apresentam, sem imaginar qual tomar... ia ser legal se eu pudesse ver no que eles vão dar.

alguém empresta uma delorean?

não rola, né?

ok...

fecho os olhos e sigo na direção que os meus outros sentidos me levarem...

onde eles me levarem... bom, é lá que vou estar.

24.1.06

não sei dizer exatamente o que é...

acha que me encantei pelas fagulhas que parecem sair dos olhos dela.
a fumaça preenchia o ar com cheiro de pólvora, enquanto os ouvidos dele ecoavam o barulho da revólver enferrujado.

no chão, um corpo parece estranhamente desprovido de humanidade, pela maneira como as pernas estavam dispostas. o sangue espesso e escuro formava uma poça, que refletia as luzes amarelas da iluminação de rua.

o homem com a arma não sentia nada. como o corpo estendido à sua frente, ele estava desprovido de alma.

ela lhe foi tomada aos poucos, diluída em copos cheios de bebida barata, em bares sujos onde ele se escondia da frustração de não conseguir mais trabalho.

ainda reside dentro dele uma lembrança que parece distante, sem foco, como um filme antigo: uma mulher (sua esposa?) reclamando de não ter comida em casa ela carregava uma criança nos braços e outra dentro de seu corpo (seus filhos? não se lembrava). eles discutiram. ele bateu nela.
ela revida com a faca...

o corpo dela e das crianças foi encontrado pelo vizinho, dias depois. o homem nunca voltou lá.

vivera na rua, desde então.

tornou-se viciado.

roubava para comprar mais pedras, pra queimar todas as dores do mundo na fumaça de um cachimbo improvisado de restos de lixo.

abaixou-se para pegar a carteira do homem. vasculhou-a, à procura de dinheiro. havia pouco. em um dos bolsos, uma foto de uma mulher e uma criança.

jogou-a fora.

levantou, dando uma última olhada para baixo. queria ter tido mais sorte... aquela grana ia dar para pouco crack.

colocou a arma por dentro da calça e se afastou.

não sente pena do homem.

ele também sabe o que é estar morto.

uma pequena história...

o olhar dela parece procurar por sinais de que ele é mesmo o garoto que ela conhecera, no passado. os cabelos dele estavam curtos, os fios prateados brilhavam e lhe davam aparência de pessoa mais velho ao mesmo tempo em que contrastavam com o olhar curioso e carregado de significado de uma criança.

ele corria o olhar pelo mundo, sempre procurando, investigando e questionando as coisas que aconteciam a sua volta.

ela pensava algumas vezes que nada seria grande o bastante para ele, porque ele tinha uma alma que não saciava com nada.

ele imaginou no passado que havia algo que fosse preencher o buraco em sua alma... mas sabia agora que não havia uma só resposta. precisava encontrar respostas todos os dias...

a noite de verão estava amena. os cabelos dela balançavam ao sabor da brisa que vinha do mar... eles caminhavam lado a lado, quase sem dizer nada.

eles pararam por alguns momentos e ele mostrou a ela um banco. eles se sentaram.

o barulho das ondas quebrando de encontro à mureta era o tudo o que se podia ouvir.

ela pegou a mão dele, acariciando de leve os dedos, sentindo a pele... ele sempre ficava sem jeito com as manifestações de carinho gratuitas dela... sorriu um pouco sem jeito e voltou a olhar o oceano.

começaram a conversar... como não conversavam a tempos... sem pressa... sem hora para terminar... pela primeira vez os dois sentiram que estavam falando tudo e estavam sendo escutados.

a lua correu pelos céus, olhando pelos dois... parecia querer participar da conversa, da forma em que parecia mandar seus raios prateados na direção da praia.

ela chorou... por tudo o que acontecera antes... por tudo o que acontecera desde então... por tudo, enfim... ele a abraçou, forte, tomando-a toda em seus braços. ele a deitou e colocou a cabeça dela em seu colo, fazendo carinho em seus cabelos. ela adormeceu ali, nos braços dele.

e as ondas dançavam mais abaixo, iluminadas por uma lua de verão.

22.1.06

hell de janeiro

marcio olha para a tela em branco, à sua frente. o cursor pisca, impaciente, esperando por alguma idéia.

- droga! acho que meu cérebro derreteu...
imagine um conto aqui.
eu gostaria muito, muito, muito que um dia vc percebesse que o que eu te digo é porque eu me preocupo com vc...

mesmo que pareça tosco, pra vc... que seja muito contra os seus princípios...

eu tenho vontade de cuidar... me preocupo de verdade... é por isso que falo algumas coisas que vc não gosta.

mas vc não gosta de pensar que eu estou certo... então eu me sinto frustrado, porque eu sei que as coisas poderiam ser mais fáceis pra vc...

mas, olha... tenta só não se meter em encrencas, ok?

e se cuida. de verdade!

21.1.06

raven's land

raven's land upon her hair
clouds adrift on her skin
a smile that tugs upon my soul
and whispers gently in my ear.
eyes of honey look me down
lips like roses line her mouth
steely arrows in the air
are wilted flowers at her toes
and if you ask me how i know
what she looks like, i will tell you,
"she left yesterday."
eyes are east and lips are west
pulls my head against her breast.
logic, north and lust is south,
pulls my fingers to her mouth
legs are firm as canyon walls
from leaping high above the moon.
when she drifts down on the air,
the ground can't wait to kiss her toes
voltaire - raven's land

18.1.06

the edge

o vento sopra por sobre o abismo. o homem caminha em direção à beira, observando o horizonte, à distância.

ele sente o abraço dos ventos em seu corpo, sussuros de antigos sonhos chegam-lhe aos ouvidos... segredos revelados a poucos.

ele olha para o abismo, abaixo. o vento parece chamá-lo. uma doce voz feminina o encoraja, enquanto toca-lhe o rosto, em forma de brisa doce.

o homem abre os braços e se entrega aos ventos e ao abismo...

então, ele sente a mudança.

ele bate os braços, agora em forma de asas negras, e se eleva, brincando nas correntes de ar... ele está livre.

e um corvo parte em busca de novos caminhos, voando alto, com um brilho novo no olhar...

bonfire

ele prepara o boneco de palha com carinho... em seu íntimo, deposita ali todos os sonhos que não puderam ser realizados... pequenas lembranças de dias felizes que nunca aconteceram... uma parte de sua alma habita agora o pequeno receptáculo em forma de um pequeno ser humano.

ele observa o fogo, o transformador. vida e morte em forma de energia pura.

e ele reza para o fogo... pede a ele que consuma a culpa e as dores... pede que a sua luz indique um caminho seguro à pequena alma do boneco.

as chamas dançam, e ele pensa em todos os fogos que foram acesos no passado.

o boneco é entregue ao fogo...

ele observa a palha se consumindo... "transformação", ele pensa. "porque tudo precisa mudar, precisa passar, para que o mundo e a vida continue."

a fumaça branca se eleva, rumo ao céu... carregando em seus braços etéreos promessas de novos dias.
algumas vezes, precisamos ir longe para descobrir que o que desejávamos está ao nosso lado.

death from the sky

16.1.06

é... eu gosto muito de dragões sim... e daí???

15.1.06

feathery wings

you, there on the bridge
where have you been, whats your name?
and you, there you on the wall
where will you go to once you fall?
you, lost at sea
do you need me, do you need directions?
hey, put down the gun
what are you thinking?
you were someone's son

the taste of tears
the sting of pain
the smell of fear
the sounds of crying

a long, long time ago i fell to this place
from another dimension
and thrust amongst the beasts
and they way they behave borders on dementia
now through all these years
i can barely take it
i don't think i can make it
take me away from here
i want to go home

i'm so sick and tired of the
the taste of tears
the sting of pain
the smell of fear
the sounds of crying
as you standing at the edge of your life
what do you remember?
was it all you wanted?

i'm trying to earn a set of feathery wings
i wish i could protect you here
oh, please don't cry
now smile as you're standing
at the edge of your life
your troubles are over
mine are just beginning
i'm trying to earn a set of feathery wings
to take me away from here
its me you leave behind

if only i could have been there
i'd be a hand for the sinking
if only i could have been there
i'd be a prayer for the dying
see the pain etched in my face

i'm so sick and tired of
the taste of tears
the sting of pain
the smell of fear
the sounds of crying
as you're standing at the edge of your life
what do you remember was it all you wanted

i'm trying to earn a set of feathery wings
i wish i could protect you here
oh, please don't cry
now smile as you're standing
at the edge of your life
your troubles are over
mine are just beginning

i'm trying to earn a set of feathery wings
to take me away from here
its me you leave
you're gone from here
don't leave from here
don't leave me here
i hate it here
you're gone from here
don't leave me here
i need you here
i need to see you smile

voltaire - feathery wings



essa música é linda... linda.

14.1.06

eu estava em uma drogaria, procurando remédio para gripe, há umas semanas atrás (por falar nisso, eu não sei qual a diferença entre naldecon dia e naldecon noite. os dois tiveram o mesmo efeito em mim!) e aí vi uma velhinha caminhando por entre as prateleiras. resolvi ficar observando-a.

escondi-me por trás de alguns pacotes de fraldas e eu tenho que dizer que fiquei intrigado com o comportamento da dita senhora: ela parecia estar se divertindo, entre as milhares de embalagens de medicamentos. escolhendo entre o melhor remédio para pressão, vendo os lançamentos da área de antiinflamatórios, conversando com o balconista sobre qual o melhor expectorante levar para o marido com problema de tosse, em casa.

é um pouco engraçado, não sei se já perceberam, quando um grupo de velhinhos se encontra e começam a conversar... passam-se alguns minutos e um deles fala das dores na coluna, enquanto outra reclama de dificuldade de urinar. pra quem chega desavisado, parece que estão disputando qual deles tem maiores problemas de saúde.

acho que é um pouco uma briga por atenção. devem se sentir abandonados e quando encontram alguém disposto a conversar, acabam falando dos problemas.

uma bizarra maneira de chamar a atenção.

o fato é que a velhinha da farmácia parecia estar se deliciando com as explicações do balconista (certamente formado em farmácia, afinal, estava dando dicas a ela do que tomar).

- não. esse aqui a senhora toma 3 vezes ao dia, logo após uma refeição.

- hummm... e é pra que mesmo?

- pra coluna. é um antiinflamatório novo.

- ah! que bom. o que eu tomava já não tá fazendo efeito... precisava de uma coisa mais forte.

- bem... se a senhora quiser, tenho esse outro aqui, ó...

o rapaz puxou a velhinha para um canto e mostrou a ela uma caixa, olhando para os lados, preocupado.

- ó... tem esse outro aqui... coisa novíssima... direto do laboratório nos estados unidos. ainda estão testando em cobaias.

os olhos da velhinha brilharam de emoção.

- eu vou querer 2 caixas!

e foi, toda serelepe, para o caixa...

ouvi dizer que tem uma senhora em s. paulo que tá cultivando os seus próprios vírus e bactérias, tentando achar uma cepa totalmente nova, resistente aos antibióticos mais poderosos.

é praticamente uma guerra biológica...

12.1.06

pecados dos pais

eles tocam as pontas das espadas, num segundo quase eterno, enquanto os olhos esquadrinham cada movimento do corpo do adversário.

ao redor dos dois, o som de metal e gritos humanos impera sob os céus escuros de nuvens do início do inverno. fumaça negra toma o ar, tornando a visão dos homens se digladiando quase como o cenário de um pesadelo.

o jovem vestindo a armadura da cor das nuvens de tempestade não ouve os sons da batalha à sua volta... não sente o cheiro de sangue e fumaça no ar... nada mais existe à sua volta, além de seu adversário, de tudo o que o homem à sua frente representa de todos os anos de ódio, abandono e rancor. ele viveu a vida inteira por esse momento.

e não será derrotado.

o grande rei avalia o inimigo que tem metade da sua idade. os olhos negros do rapaz estão vidrados, olhando algo que parece estar além. ele sabe que aqueles olhos só são capazes de enxergar a vingança que foi planejada por anos e que agora espera o momento final, como uma serpente espera o momento do bote, com os dentes repletos de veneno mortal. o grande rei sabe o que aquela batalha entre os dois representa.

e ele não pode ser derrotado.

os homens batem as espadas, golpe após golpe.
faíscas voam para o ar quando as duas lâminas se tocam. as histórias que narraram esses eventos falarão que os próprios deuses desceram dos céus para assistir ao imbate.

metal contra metal. força contra força. e nenhum dos dois afasta-se.

o jovem ataca sempre, procurando uma brecha entre as defesas do homem à sua frente. por instantes ele reconhece semblante do inimigo traços que ele mesmo carrega consigo. por trás das cicatrizes, está um rosto que ele reconhece como seu. e isso só aumenta o ódio e a força nos golpes.

o grande rei defende-se, tentando afastar os golpes do jovem. por dentro ele se culpa por nunca ter procurado aquela criança. o jovem só conheceu o esquecimento em sua vida. naquele momento, o grande rei quis terminar com a batalha. não havia sentido naquilo. mas ele se lembra dos caminhos que ele percorreu e de todos os erros que cometeu, em nome de um sonho que, ele agora sabe, nunca poderá ser realizado.

corvos sobrevoam o ar, esperando pelo fim de tudo, para levar embora a alma dos homens mortos e se alimentarem de seus corpos vazios.

o grande rei sente o fio da lâmina sobre o ombro esquerdo, seguido de um jorro quente que desce pelo braço. o corte não foi profundo demais, mas o braço agora está imobilizado. a dor o faz esquecer de quem ele está combatendo e ele se transforma no guerreiro de outrora, selvagem, quase inumano, tomado por um frenesi assassino, ele deseja o sangue do garoto em sua espada.
ele avança sobre o rapaz, golpe após golpe, gritando como um dos monstros das antigas lendas. naquele momento, o grande rei dos homens não havia mais. ali estava o rei urso, mortal... sedento de sangue.

a chuva começa a cair novamente, fazendo com que os dois homens percam o equilíbrio, dando a vantagem ao outro, por alguns instantes. mas nenhum dos dois esmorece. naquele local não havia espaço para a derrota.

o garoto levanta-se e avança em direçao ao homem, com a espada erguida, ele sente o seu golpe atravessar a cota de malha do inimigo. o sangue molha-lhe as mãos.

tudo fica escuro.

o jovem de cabelos e olhos negros sente o gosto do próprio sangue na boca. com os olhos arregalados, ele percebe a lâmina da espada real em seu peito.

os dois homens... os dois maiores guerreiros de todos os tempos se entreolham. dois corpos, unidos uma única vez em toda a vida, pelas lâminas de suas espadas, atravessadas em seus corpos.

o jovem olha para o grande rei e percebe, pela primeira vez na vida, que o ódio não foi o bastante. nunca seria o bastante.

o grande rei ajoelha-se enquanto ele olha para o jovem e um lágrima escorre-lhe os rosto, misturada com a chuva e o sangue.

os dois se abraçam, pela primeira vez.

pela primeira vez eles são pai e filho.

e pela última vez, o silêncio se fez no mundo.
cellar door...

9.1.06

e em algum lugar do passado, um menino tímido e calado senta-se no canto do sofá, para ler a enciclopédia do irmão mais velho.

ele devora os tópicos como só uma criança poderia fazer.

e ele deseja saber mais, conhecer mais, porque dentro dele queima um fogo que pede mais e mais combustível.

os pais não o entendem... o irmão mais velho o observa, tentando aceitar o comportamento do menino.

e o garoto tímido e calado observa a todos, criando mundinhos dentro de sua cabeça, com cada pedaço de informação que recebe do mundo...

e a fome nunca acabou...

como areia por entre os dedos

é engraçado como quando eu preciso dizer algo importante demais sobre o que sinto para alguém, eu fico sem palavras.

maldita timidez!
eu observo a mariposa voando ao redor do fogo, até que o calor da chama toca as asas e ela cai em direção ao brilho mortal.

entregar-se às paixões pode ser algo perigoso, penso...

mas voar por aí no escuro, o resto da noite pode ser mortal também, quando tudo o que existe em você pede urgência.

8.1.06

a vida no limiar

é... eu vivo no limiar.


por quê? porque eu não sei viver de outro jeito. só isso... :)
os dedos acompanham o formato da lâmina, enquanto ele sente o toque tentador e frio do aço. ela encontra-se deitada, os olhos vendados, o corpo, coberto apenas por uma lingerie cor de vinho tinto, se expõe na cama. o brilho do luar ilumina a pele alva.

ele se aproxima, calmamente, tentando aproveitar cada segundo da experiência, ouve a respiração dela ficar um pouco mais rápida, quando ela sente a sua presença ao lado da cama.

ele segura a lâmina com destreza e a aproxima da pele dela lentamente.

ela sente o toque do metal e solta um gemido... a respiração fica um pouco mais ofegante...

a lâmina desliza sobre os seios dela, correndo por sobre a seda do sutiã... até que, com um movimento rápido, ele corta o tecido, fazendo com que a jovem sinta um espasmo involuntário de prazer.

ele sussura no ouvido dela...

ela morde os lábios, concordando com a cabeça...

a lâmina desliza por sobre o abdômen iluminado pelo luar... desce até a calcinha...

ela fala o nome dele, mas ele fica em silêncio.

o corte expõe a virilha dela, ele aproxima os lábios da pele e a beija, enquanto faz carinhos com a lâmina no corpo retesado de prazer, dela.

ele fica sobre ela e corta a venda que cobriam os olhos...

ele olha para ela com um olhar faminto... de predador... de amante.

eles se beijam... e ela se torna dele, naquela noite.