22.5.07
21.5.07
esperava ouvir uma voz conhecida no silêncio de seu quarto. as paredes de pedra o observavam. frias, insondáveis.
lá fora a chuva bati na janela, escorrendo em pequenos cristais translúcidos.
ele gostava da chuva. gostava de olhar os pingos na janela. de alguma forma, ver as gotas escorrerem trazia uma sensação boa.
o papel e o lápis jaziam no chão. palavras desconexas escritas em uma letra trêmula.
nos cantos das folhas, pequenos desenhos que escaparam entre uma idéia e outra.
queria ser outra pessoa.
o ar do quarto parecia-lhe carregado. não conseguia respirar.
a luz do dia se esvai em uma fuga demorada.
ele senta no canto do quarto, esperando ouvir uma voz conhecida.
lá fora a chuva continua a cair.
o lápis continua no chão.
o silêncio continua.
lá fora a chuva bati na janela, escorrendo em pequenos cristais translúcidos.
ele gostava da chuva. gostava de olhar os pingos na janela. de alguma forma, ver as gotas escorrerem trazia uma sensação boa.
o papel e o lápis jaziam no chão. palavras desconexas escritas em uma letra trêmula.
nos cantos das folhas, pequenos desenhos que escaparam entre uma idéia e outra.
queria ser outra pessoa.
o ar do quarto parecia-lhe carregado. não conseguia respirar.
a luz do dia se esvai em uma fuga demorada.
ele senta no canto do quarto, esperando ouvir uma voz conhecida.
lá fora a chuva continua a cair.
o lápis continua no chão.
o silêncio continua.
17.5.07
chão do banheiro
a menina está sentada no chão do banheiro.
ela olha para a faca de cozinha a sua frente.
sonha não estar ali. sonha em caminhar no meio de todos sem sentir que tudo o que existe é uma mentira. uma ilusão.
ela abraça as próprias pernas, procurando proteção dentro de si. mas ela encontra um vazio grande demais.
a menina chora.
e aos poucos as paredes vão desaparecendo. a pia pára de pingar e some. a porta trancada parece se tornar etérea. o mundo some, pouco a pouco a sua frente.
o vazio que havia dentro dela pouco a pouco ocupa todo o mundo. não há sons. não há sensações. só um nada claustrofóbico.
ela tateia o vazio. ela sente o frio do cabo de metal.
a faca raspa forte no braço. cortando, dilacerando a carne.
com força a menina faz sulcos fundos na pele clara.
a dor traz a realidade de volta.
e a menina balança a cabeça, sentada no chão frio enquanto fios de um vermelho vivo colorem o mundo.
ela olha para a faca de cozinha a sua frente.
sonha não estar ali. sonha em caminhar no meio de todos sem sentir que tudo o que existe é uma mentira. uma ilusão.
ela abraça as próprias pernas, procurando proteção dentro de si. mas ela encontra um vazio grande demais.
a menina chora.
e aos poucos as paredes vão desaparecendo. a pia pára de pingar e some. a porta trancada parece se tornar etérea. o mundo some, pouco a pouco a sua frente.
o vazio que havia dentro dela pouco a pouco ocupa todo o mundo. não há sons. não há sensações. só um nada claustrofóbico.
ela tateia o vazio. ela sente o frio do cabo de metal.
a faca raspa forte no braço. cortando, dilacerando a carne.
com força a menina faz sulcos fundos na pele clara.
a dor traz a realidade de volta.
e a menina balança a cabeça, sentada no chão frio enquanto fios de um vermelho vivo colorem o mundo.
realidade dissonante
inquietação.
por que eu sempre vivi com essa inquietação? por que não consigo calar os pensamentos, para dormir em paz uma só noite.
por que eu preciso me deitar apenas quando o corpo não aguenta mais? por que eu quero absorver cada pedaço, cada fagulha de mundo que há? por que ao fazer isso eu sinto dor?
é como estar em uma sala saturada de luz. abrir os olhos dói demais.
quero pousar a cabeça. quero pousar o coração.
quero sentir uma mão fazendo carinho em meus cabelos e só fechar os olhos e aproveitar.
preciso.
preciso me sentir em foco com o mundo.
por que eu sempre vivi com essa inquietação? por que não consigo calar os pensamentos, para dormir em paz uma só noite.
por que eu preciso me deitar apenas quando o corpo não aguenta mais? por que eu quero absorver cada pedaço, cada fagulha de mundo que há? por que ao fazer isso eu sinto dor?
é como estar em uma sala saturada de luz. abrir os olhos dói demais.
quero pousar a cabeça. quero pousar o coração.
quero sentir uma mão fazendo carinho em meus cabelos e só fechar os olhos e aproveitar.
preciso.
preciso me sentir em foco com o mundo.
16.5.07
mentiras
- o senhor tem um trocado pra me dar? eu tô precisando comprar comida pros meus filhos.
- não, amigo. desculpa, mas eu tô duro.
e o homem continua a caminhar, esquecendo quase totalmente da mulher que acabou de abordá-lo com um olhar perdido. e esquecendo dos 10 reais enterrados no bolso da calça social.
eu odeio mentiras. odeio as pequenas mentiras que contamos: "putz! eu esqueci. amanhã eu trago."
odeio as grandes mentiras: "claro que eu te amo. por que eu mentiria?"
odeio saber que muito do que eu sei é mentira. "mentir é inerente ao ser humano. é necessário para a vida em sociedade", ele diz. que patética é nossa sociedade, então. elevada sobre um pilar de falsidade.
odeio saber que existe mentira em tudo. odeio saber que mesmo sabendo disso, quando descubro uma mentira me sinto traído.
odeio saber que isso é inevitável.
odeio mais ainda saber que eu minto como todos os outros.
- não, amigo. desculpa, mas eu tô duro.
e o homem continua a caminhar, esquecendo quase totalmente da mulher que acabou de abordá-lo com um olhar perdido. e esquecendo dos 10 reais enterrados no bolso da calça social.
eu odeio mentiras. odeio as pequenas mentiras que contamos: "putz! eu esqueci. amanhã eu trago."
odeio as grandes mentiras: "claro que eu te amo. por que eu mentiria?"
odeio saber que muito do que eu sei é mentira. "mentir é inerente ao ser humano. é necessário para a vida em sociedade", ele diz. que patética é nossa sociedade, então. elevada sobre um pilar de falsidade.
odeio saber que existe mentira em tudo. odeio saber que mesmo sabendo disso, quando descubro uma mentira me sinto traído.
odeio saber que isso é inevitável.
odeio mais ainda saber que eu minto como todos os outros.
15.5.07
eu vejo luz em você.
quando você vê confusão, eu vejo possibilidades.
quando você se perde, eu quero estender a mão.
quando você chora, quero te abraçar.
quando você sorri, eu me sinto um pouco mais feliz.
gosto de ser o seu anjo. gosto de caminhar ao seu lado, olhando pra você do alto. gosto de passar minhas mãos por seu corpo, só pra ter certeza que você está lá.
sou seu amigo.
seu protetor.
seu amante.
você será sempre uma fada de cabelos coloridos e nariz arrebitado.
amo você.
quando você vê confusão, eu vejo possibilidades.
quando você se perde, eu quero estender a mão.
quando você chora, quero te abraçar.
quando você sorri, eu me sinto um pouco mais feliz.
gosto de ser o seu anjo. gosto de caminhar ao seu lado, olhando pra você do alto. gosto de passar minhas mãos por seu corpo, só pra ter certeza que você está lá.
sou seu amigo.
seu protetor.
seu amante.
você será sempre uma fada de cabelos coloridos e nariz arrebitado.
amo você.
ela tenta gritar. a mão em sua garganta aperta, forte. ela bate nele mas ele a segura.
ela escuta o próprio coração bater alto rápido demais.
o medo escorre por seu corpo, tomando tudo.
respirar. ela precisa respirar.
a mão continua apertando. os olhos dela estão arregalados. ela vê o rosto dele. não há emoção.
ajuda.
alguém ajude.
os olhos dele são negros. o cabelo também. a mão aperta forte.
algo quente escorre pelas pernas dela.
a mão no pescoço vai ficando fria. tudo vai ficando frio.
ela grita, sem som algum. dentro de sua garganta, algo estala e se quebra.
ela olha para ele.
ela vê um brilho na outra mão.
e sente seu corpo se abrir.
frio.
tão frio.
vermelho.
os olhos.
negros.
ela escuta o próprio coração bater alto rápido demais.
o medo escorre por seu corpo, tomando tudo.
respirar. ela precisa respirar.
a mão continua apertando. os olhos dela estão arregalados. ela vê o rosto dele. não há emoção.
ajuda.
alguém ajude.
os olhos dele são negros. o cabelo também. a mão aperta forte.
algo quente escorre pelas pernas dela.
a mão no pescoço vai ficando fria. tudo vai ficando frio.
ela grita, sem som algum. dentro de sua garganta, algo estala e se quebra.
ela olha para ele.
ela vê um brilho na outra mão.
e sente seu corpo se abrir.
frio.
tão frio.
vermelho.
os olhos.
negros.
13.5.07
eu não estou acostumado com isso.
ao mesmo tempo em que minha cabeça clama por solidão, por silêncio e lugares vazios, meu coração pede para estar com você.
eu não sei lidar com o amor direito.
parece que ele vai sobrepujar tudo em mim.
dá um pouco de medo, pensar que eu não controlo tudo em mim.
mas ainda assim, eu quero você. e quero estar com você.
ao mesmo tempo em que minha cabeça clama por solidão, por silêncio e lugares vazios, meu coração pede para estar com você.
eu não sei lidar com o amor direito.
parece que ele vai sobrepujar tudo em mim.
dá um pouco de medo, pensar que eu não controlo tudo em mim.
mas ainda assim, eu quero você. e quero estar com você.
1.5.07
dissonantes
olharam um para o outro por muito tempo. conheciam cada marca, cada expressão do rosto um do outro. não havia nada de novo. não havia mistérios, não havia segredos. compartilharam tudo por um tempo que pareceu uma eternidade para os dois. estavam cansados
estavam entediados.
uma manhã ela desperta e ele não está lá. surpresa por um segundo, ela logo sente um alívio por não ter que contemplar aquele rosto novamente tão cedo.
ela resolve caminhar. os raios de sol iluminam as pedras no caminho, as árvores parecem resplandecer com uma vitalidade renovada.
ela chega a uma praça e senta, observando tudo a sua volta. de repente, uma voz diferente chega-lhe aos ouvidos.
ela se vira e percebe um jovem. um rosto novo, desconhecido.
uma pontada de preocupação lhe toma o coração, mas logo ela é derrotada por uma excitação grande. ela ouve as palavras do rapaz e elas são todas novas.
ele parece trazer um ar de frescor um mistério no olhar que a deixa curiosa por mais.
na casa dela o outro homem, aquele que ela conhece até demais chega e encontra a cama vazia. um olhar de espanto é trocado rapidamente por um certo alívio. ele senta na cama e observa as flores que trazia. ele sente uma liberdade nova tomar o seu coração, mas as flores o lembram de algo precioso.
a mulher sorri, encantada. o rapaz a leva a lugares novos. ela conhece novos rostos, descobre uma nova vida. sente-se renovada por dentro e por fora.
mas ela observa os olhos felinos do rapaz e sente algo diferente.
ele ainda parece o mesmo, mas de repente o brilho que parecia vir dele se torna muito tênue. e, inevitavelmente ela começa a se lembrar do olhar do homem que conheceu há tempos. e começou a comparar o olhar dos dois.
e a cada dia, toda aquela nova vida parecia-lhe fútil, sem razão.
na casa antiga, o homem se deita cedo e olha o teto. na mesa de cabeceira um ramo de flores começa a murchar, enquanto ele tenta se lembrar do sorriso conhecido dela. ele sonha em reencontrar o rosto dela na multidão de desconhecidos, lá fora.
e, sozinho, ele chora.
a mulher está deitada ao lado do rapaz. na escuridão da madrugada, ela toma uma decisão.
no dia seguinte ela volta à casa que abrigou-a durante anos. ela entra no quarto e o encontra dormindo. ela senta ao seu lado e chama o nome, surpresa com a sensação boa que isso desperta.
ele acorda e a vê. saltando da cama, ele a abraça.
ela sente o calor bom do abraço dele.
mas agora, quando ele a olha, vê algo diferente. é o mesmo rosto, a mesma mulher, mas ele percebe alguma coisa por baixo de tudo.
e ela ainda gosta de olhar para ele. mesmo tendo que esconder a vergonha que sente de si mesmo.
eles se beijam, os mesmos, mas ainda assim, diferentes.
estavam entediados.
uma manhã ela desperta e ele não está lá. surpresa por um segundo, ela logo sente um alívio por não ter que contemplar aquele rosto novamente tão cedo.
ela resolve caminhar. os raios de sol iluminam as pedras no caminho, as árvores parecem resplandecer com uma vitalidade renovada.
ela chega a uma praça e senta, observando tudo a sua volta. de repente, uma voz diferente chega-lhe aos ouvidos.
ela se vira e percebe um jovem. um rosto novo, desconhecido.
uma pontada de preocupação lhe toma o coração, mas logo ela é derrotada por uma excitação grande. ela ouve as palavras do rapaz e elas são todas novas.
ele parece trazer um ar de frescor um mistério no olhar que a deixa curiosa por mais.
na casa dela o outro homem, aquele que ela conhece até demais chega e encontra a cama vazia. um olhar de espanto é trocado rapidamente por um certo alívio. ele senta na cama e observa as flores que trazia. ele sente uma liberdade nova tomar o seu coração, mas as flores o lembram de algo precioso.
a mulher sorri, encantada. o rapaz a leva a lugares novos. ela conhece novos rostos, descobre uma nova vida. sente-se renovada por dentro e por fora.
mas ela observa os olhos felinos do rapaz e sente algo diferente.
ele ainda parece o mesmo, mas de repente o brilho que parecia vir dele se torna muito tênue. e, inevitavelmente ela começa a se lembrar do olhar do homem que conheceu há tempos. e começou a comparar o olhar dos dois.
e a cada dia, toda aquela nova vida parecia-lhe fútil, sem razão.
na casa antiga, o homem se deita cedo e olha o teto. na mesa de cabeceira um ramo de flores começa a murchar, enquanto ele tenta se lembrar do sorriso conhecido dela. ele sonha em reencontrar o rosto dela na multidão de desconhecidos, lá fora.
e, sozinho, ele chora.
a mulher está deitada ao lado do rapaz. na escuridão da madrugada, ela toma uma decisão.
no dia seguinte ela volta à casa que abrigou-a durante anos. ela entra no quarto e o encontra dormindo. ela senta ao seu lado e chama o nome, surpresa com a sensação boa que isso desperta.
ele acorda e a vê. saltando da cama, ele a abraça.
ela sente o calor bom do abraço dele.
mas agora, quando ele a olha, vê algo diferente. é o mesmo rosto, a mesma mulher, mas ele percebe alguma coisa por baixo de tudo.
e ela ainda gosta de olhar para ele. mesmo tendo que esconder a vergonha que sente de si mesmo.
eles se beijam, os mesmos, mas ainda assim, diferentes.
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