ela deita na cama quarto. já é de manhã...
o cabelo ainda cheira à shampoo de motel.
ela olha para o teto.
fecha os olhos.
não consegue dormir.
os pensamentos começam a desenrolar, sem freio. ela nunca se importou com o sexo. achava bom, mas não importava tanto fazer ou não. para os caras, sempre foi algo importante, então ela se deixava entregar. não sentia o bastante pra achar bom ou ruim. mas era o bastante pra saciar a vontade do corpo.
mas agora, tem algo diferente.
essa noite, o que ela teve foi muito pouco. desejou que fosse diferente. desejou que fosse com alguém diferente.
desejou sentir mais.
9.9.06
dancefloor
as luz pisca em um ritmo intenso, seguindo a batida dos amplificadores. corpos se entregam ao ritmo de luz e som.
sentado em um canto, ele observa ela dançar.
o corpo dela parece ter sido desenhado para a pista de dança. cada curva esculpida pelas batidas, cada movimento delineado pelos mixers...
ele olha as luzes desenharem a silhueta dela e seus olhos brilham.
ele percebe os outros olhares para ela. sabe que ela atrai a atenção de outros homens e mulheres.
mas ele gosta assim.
faz mais doce o gosto do beijo, quando ela vêm lhe procurar, mais tarde.
sentado em um canto, ele observa ela dançar.
o corpo dela parece ter sido desenhado para a pista de dança. cada curva esculpida pelas batidas, cada movimento delineado pelos mixers...
ele olha as luzes desenharem a silhueta dela e seus olhos brilham.
ele percebe os outros olhares para ela. sabe que ela atrai a atenção de outros homens e mulheres.
mas ele gosta assim.
faz mais doce o gosto do beijo, quando ela vêm lhe procurar, mais tarde.
8.9.06
profecia
o sangue do sacrifício é espalhado no solo.
o feiticeiro gira, em seu transe, em volta do fogo.
em seu sonho, ele toca as estrelas, e se encontra com os deuses.
as planícies e as montanhas são a pele do feiticeiro. os rios, o sangue que corre em suas veias... as florestas são seus cabelos...
o mundo e ele são um só.
e ele recebe a mensagem.
o feiticeiro gira, em seu transe, em volta do fogo.
em seu sonho, ele toca as estrelas, e se encontra com os deuses.
as planícies e as montanhas são a pele do feiticeiro. os rios, o sangue que corre em suas veias... as florestas são seus cabelos...
o mundo e ele são um só.
e ele recebe a mensagem.
em silêncio, a bailarina dança.
a luz do sol entra pelas amplas janelas da sala onde ela treina para a vida.
ela lembra de um soldado de chumbo que a observava.
a bailarina gira no ar.
e os pensamentos giram junto.
o mundo está mudando. maior e mais lotado de pessoas.
mas, no silêncio da sala de dança, ela se pega pensando no soldado.
a luz do sol entra pelas amplas janelas da sala onde ela treina para a vida.
ela lembra de um soldado de chumbo que a observava.
a bailarina gira no ar.
e os pensamentos giram junto.
o mundo está mudando. maior e mais lotado de pessoas.
mas, no silêncio da sala de dança, ela se pega pensando no soldado.
limites
eu evito falar com você.
só pra perceber que procuro você em todos os lugares que passo.
estranho? é. você causa essas coisas estranhas em mim.
trás novas cores, desejos que eu pensava ter enterrado bem fundo afloram, me vejo querendo mais e mais.
e não sinto haver limite.
não sinto ter limites com você.
ainda procuro sua boca, em sonho.
ainda vejo seus olhos em outros olhos.
seu cheiro me toma o pensamento.
e não parece haver limite.
só pra perceber que procuro você em todos os lugares que passo.
estranho? é. você causa essas coisas estranhas em mim.
trás novas cores, desejos que eu pensava ter enterrado bem fundo afloram, me vejo querendo mais e mais.
e não sinto haver limite.
não sinto ter limites com você.
ainda procuro sua boca, em sonho.
ainda vejo seus olhos em outros olhos.
seu cheiro me toma o pensamento.
e não parece haver limite.
1.9.06
não me importo tanto em sofrer por conta das coisas do coração. é assim que sou... é assim que sei ser.
e prefiro sofrer por ter tentado, por ter vivido algo do que nunca ter sentido nada.
mas é que às vezes parece que não tenho mais tanto fôlego pra isso.
cada vez é mais custoso, voltar a me imaginar livre para sentir algo novo novamente.
os anos e as decepções cobram seu preço.
a inocência morre cedo demais.
mas a vida segue, com um pouco menos de cor.
e prefiro sofrer por ter tentado, por ter vivido algo do que nunca ter sentido nada.
mas é que às vezes parece que não tenho mais tanto fôlego pra isso.
cada vez é mais custoso, voltar a me imaginar livre para sentir algo novo novamente.
os anos e as decepções cobram seu preço.
a inocência morre cedo demais.
mas a vida segue, com um pouco menos de cor.
novo dia...
escrevo em linhas tortas que só eu entendo.
mas é um livro solitário e triste.
lá fora o dia avança, cinza e silencioso
imagino um mundo sem ninguém
e quase me sinto feliz por isso.
em seu quarto escuro
a menina dorme um sono sem sonhos,
em uma vida sem sonhos,
em um mundo sem sonhos.
eu quis mostrar possibilidades,
tecer sonhos,
criar novos mundos.
mas a realidade é um muro de pedra
e eu estava correndo rápido demais.
minha poesia é confusa,
minha mente está confusa
e agora, essa é toda a clareza de que sou capaz.
mas é um livro solitário e triste.
lá fora o dia avança, cinza e silencioso
imagino um mundo sem ninguém
e quase me sinto feliz por isso.
em seu quarto escuro
a menina dorme um sono sem sonhos,
em uma vida sem sonhos,
em um mundo sem sonhos.
eu quis mostrar possibilidades,
tecer sonhos,
criar novos mundos.
mas a realidade é um muro de pedra
e eu estava correndo rápido demais.
minha poesia é confusa,
minha mente está confusa
e agora, essa é toda a clareza de que sou capaz.
que sentido há em passar pelo mundo fazendo de tudo para sentir nada por ninguém?
encontrando alívio em pequenas cápsulas de felicidade industrializada e sexo casual...
tá... pra você, ouvir música até tarde, comendo chocolate e falando besteiras deve ser mais interessante que sexo.
um dia, menina, te mostro umas coisas...
aí vamos ver se vc ainda vai ficar por aí sem sentir nada.
encontrando alívio em pequenas cápsulas de felicidade industrializada e sexo casual...
tá... pra você, ouvir música até tarde, comendo chocolate e falando besteiras deve ser mais interessante que sexo.
um dia, menina, te mostro umas coisas...
aí vamos ver se vc ainda vai ficar por aí sem sentir nada.
momento sarcástico da semana
encontrei o amor da minha vida.
agora só preciso fazê-la sentir o mesmo...
agora só preciso fazê-la sentir o mesmo...
31.8.06
lirismo do beco
"michel ama carla!"
as letras feitas com spray pareciam velhas demais naquele muro. ele se perguntava se elas teriam durado mais do que o sentimento que elas proclamam...
o ar estava um pouco frio e os carros passavam por ele com seus faróis acusadores. ele gostava de se sentir anônimo enquanto caminhava, à noite. a luz dos veículos trazia ele à realidade da vida rápido demais.
sentia o resto do gosto da bebida. estava se tornando um hábito, nos últimos meses. "que ótimo... arrumando novos vícios aos trinta anos. perfeito!"
ele mesmo achava estranho, mas ele gostava de andar pelas ruas antigas e sujas do rio. ele dizia que combinavam com a maneira com a qual ele via a sua própria alma.
"há uma beleza poética na tristeza. uma beleza que vem das coisas que poderiam ter sido, mas se desfizeram. uma beleza que vem dos desgostos, da perda e da dor. a dor é bela, se você se afasta o bastante para apreciar. há beleza em cada coisa da vida. basta ter os olhos certos."
em cada poste de iluminação pública enferrujado, em cada esquina transformada em casa por um mendigo, em cada muro pixado, ele via um pedaço de suas próprias experiências.
"o lirismo do beco é construído de sujeira e sonhos destruídos. mulheres abandonadas e prostitutas baratas. a falta de perspectiva cria uma realidade própria, contundente e cheia de detalhes que sobrecarregam os sentidos. a certeza de não ter futuro algum liberta a alma."
ele caminha, ouvindo sambas antigos em sua cabeça, em direção ao amanhecer.
as letras feitas com spray pareciam velhas demais naquele muro. ele se perguntava se elas teriam durado mais do que o sentimento que elas proclamam...
o ar estava um pouco frio e os carros passavam por ele com seus faróis acusadores. ele gostava de se sentir anônimo enquanto caminhava, à noite. a luz dos veículos trazia ele à realidade da vida rápido demais.
sentia o resto do gosto da bebida. estava se tornando um hábito, nos últimos meses. "que ótimo... arrumando novos vícios aos trinta anos. perfeito!"
ele mesmo achava estranho, mas ele gostava de andar pelas ruas antigas e sujas do rio. ele dizia que combinavam com a maneira com a qual ele via a sua própria alma.
"há uma beleza poética na tristeza. uma beleza que vem das coisas que poderiam ter sido, mas se desfizeram. uma beleza que vem dos desgostos, da perda e da dor. a dor é bela, se você se afasta o bastante para apreciar. há beleza em cada coisa da vida. basta ter os olhos certos."
em cada poste de iluminação pública enferrujado, em cada esquina transformada em casa por um mendigo, em cada muro pixado, ele via um pedaço de suas próprias experiências.
"o lirismo do beco é construído de sujeira e sonhos destruídos. mulheres abandonadas e prostitutas baratas. a falta de perspectiva cria uma realidade própria, contundente e cheia de detalhes que sobrecarregam os sentidos. a certeza de não ter futuro algum liberta a alma."
ele caminha, ouvindo sambas antigos em sua cabeça, em direção ao amanhecer.
27.8.06
24.8.06
vingança
ele guarda a arma dentro do coldre escondido por baixo do paletó cinza. uma última lágrima escorre por seu rosto e ele jura a si próprio que será a última.
o corredor escuro tem cheiro de vômito. baratas e outros vermes se arrastam pelo chão enquanto ele se afasta. o disparo da arma ainda parece ecoar, distante.
ele não se preocupa, naquele lugar, ninguém seria testemunha. não existem almas boas no inferno.
o elevador soa como se um animal morrendo antes de começar a se mover em direção ao térreo. dentro, a luz pisca erraticamente.
ele fecha os olhos. ele quer não sentir nada.
quer sentir somente a paz daqueles que estão prontos para morrer.
mas a lembrança do corpo dela na mesa do necrotério ainda está quente demais.
o sangue ainda está fresco demais.
o homem grita de ódio, de dor. soca a parede do elevador, que urra como um dinossauro de metal.
a luz se apaga.
a porta se abre.
e de dentro do elevador, algo sai. não é o homem que entrou há pouco. nem ao menos se parece um homem, agora.
mas ele quer vingança. e a arma junto ao seu peito está carregada...
o corredor escuro tem cheiro de vômito. baratas e outros vermes se arrastam pelo chão enquanto ele se afasta. o disparo da arma ainda parece ecoar, distante.
ele não se preocupa, naquele lugar, ninguém seria testemunha. não existem almas boas no inferno.
o elevador soa como se um animal morrendo antes de começar a se mover em direção ao térreo. dentro, a luz pisca erraticamente.
ele fecha os olhos. ele quer não sentir nada.
quer sentir somente a paz daqueles que estão prontos para morrer.
mas a lembrança do corpo dela na mesa do necrotério ainda está quente demais.
o sangue ainda está fresco demais.
o homem grita de ódio, de dor. soca a parede do elevador, que urra como um dinossauro de metal.
a luz se apaga.
a porta se abre.
e de dentro do elevador, algo sai. não é o homem que entrou há pouco. nem ao menos se parece um homem, agora.
mas ele quer vingança. e a arma junto ao seu peito está carregada...
21.8.06
não
não posso ser contido
em uma definição
em uma explicação
em um mundo
em uma situação
digo o que quero
mesmo que seja o contrário
do que prometi que nunca faria
ou diria
porque eu não sou apenas eu
eu sou cada palavra que já disse
e todas as que ainda não nasceram
eu sou o que você ama
eu sou o que você teme
sou apenas eu
e isso é pouco
e ainda assim verdadeiro
sou anormalmente normal
sou humano
animal
racional?
não me defino em palavras
não conseguiria
ainda assim estou aqui
escrevendo
o que sou.
em uma definição
em uma explicação
em um mundo
em uma situação
digo o que quero
mesmo que seja o contrário
do que prometi que nunca faria
ou diria
porque eu não sou apenas eu
eu sou cada palavra que já disse
e todas as que ainda não nasceram
eu sou o que você ama
eu sou o que você teme
sou apenas eu
e isso é pouco
e ainda assim verdadeiro
sou anormalmente normal
sou humano
animal
racional?
não me defino em palavras
não conseguiria
ainda assim estou aqui
escrevendo
o que sou.
ladeira
não preciso de você
nem de suas palavras vazias
mas não consigo viver sem elas
e não consigo viver sem você
uma noite eu disse que você seria minha ruína
aquela noite eu construí um epitáfio para mim
sim. você será minha ruína,
me entrego em sacrifício por você
pois assim eu me liberto
da minha prisão,
dos meus conceitos,
e reencarno
novo
limpo
você ama o momento
eu insisto em querer me tornar cada momento seu
quero sentir que há algo que brilha em você
por trás da fumaça do cigarro.
balas verdes em paralelepípedos
eu jogo
eu desisto
volto novamente, novo, inspirado
me torno algo novo a cada dia
pois a cada dia você me mata um pouco.
não. não quero um pouco de atenção
quero ser apocalipse, quero ser a atração principal
destrua-me
desata-me
decifra-me
pois eu devoro.
nem de suas palavras vazias
mas não consigo viver sem elas
e não consigo viver sem você
uma noite eu disse que você seria minha ruína
aquela noite eu construí um epitáfio para mim
sim. você será minha ruína,
me entrego em sacrifício por você
pois assim eu me liberto
da minha prisão,
dos meus conceitos,
e reencarno
novo
limpo
você ama o momento
eu insisto em querer me tornar cada momento seu
quero sentir que há algo que brilha em você
por trás da fumaça do cigarro.
balas verdes em paralelepípedos
eu jogo
eu desisto
volto novamente, novo, inspirado
me torno algo novo a cada dia
pois a cada dia você me mata um pouco.
não. não quero um pouco de atenção
quero ser apocalipse, quero ser a atração principal
destrua-me
desata-me
decifra-me
pois eu devoro.
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