7.1.05

histórias da metrópole

ela caminha, cambaleando, em direção ao parapeito... os olhos estão vermelhos e lágrimas descem desordenadas pelo rosto pálido...

as mãos trêmulas tocam o metal frio, mas ela não sente... o olhar distante, contempla o horizonte do final da tarde e por um momento parece conter um brilho antigo, quando ela se lembra de quando eles vieram para a metrópole...

tantos sonhos... tantas promessas... tudo parece uma distante lembrança... um álbum de fotografias em sépia...

ela se lembra de quando ele foi embora... se lembra da falta, do aperto no peito e do vazio...

e ela se lembra do que teve de fazer para sobreviver na metrópole iluminada por letreiros de neon...

e se lembra da dor, da humilhação, mais vazio...

e ela grita... com todas as forças, ela grita... até o seu grito se tornar a voz da noite... até todos os sons da cidade se tornarem sussuros...

ela grita até se todo o ar se esvair de seus pulmões... mas a dor não vai embora... o vazio persiste...

e logo os sons da metrópole tomam o ar novamente... inexpugnáveis, invencíveis...

e nas ruas mais abaixo, letreiros de neon se acendem, projetando efeitos de luz e sombra nas ruas cheias de rostos vazios...

25.12.04

sweet innocence

"ela é sua."
aquelas palavras ecoaram distantes, em minha mente, enquanto eu olhava em direção ao centro do recinto.
iluminada por um círculo de velas, que davam a tudo aquilo um ar religioso, ela estava de pé.

nua...
pálida...
trêmula...
linda.

a luz fraca a tornava etérea, como um fantasma de luz... os cabelos loiros refletiam as chamas das velas em pequenos lampejos dourados.

ao sentir alguém tocando meu ombro, olhei para o chão, quase com vergonha do que meu corpo sentia. a voz disse, novamente, agora próximo ao meu ouvido:

"ela é sua. esta noite é em sua homenagem. tome-a para vc"

a voz era doce e baixa... quase um sussuro, mas assim mesmo, parecia quase uma ordem.

"ela é jovem demais..."

pensei em dizer isso como uma desculpa, mais para mim mesmo que para os outros. a mulher... não. a menina parecia não ter mais que dezessete anos... seu corpo tenro e firme tremia levemente, enquanto seus olhos pareciam pedir ajuda a mim. em vão...

"p- por favor... por favor, me deixem ir!"

não, ela não era jovem demais. e não, eu não a deixaria ir...
haviam outros ali... outros como eu e cassie... éramos 7, ao todo. alguns eram tão antigos que provavelmente conheceram o antigo mundo enquanto ainda era o único mundo conhecido. um círculo em volta de nosso altar de carne.
eu não conseguia mais afastar meu olhar do corpo dela. meus olhos percorriam cada centímetro da pele clara... seus seios pareciam quase hipnotizantes, chamando, implorando por mim... eu a desejava.
eu tinha fome.

"essa noite, christopher, vc é aceito entre nós. essa noite, vc se torna um integrante da sombra. e ela é seu prêmio. tome-a para si"

a voz era calma e antiga... parecia reverberar nas paredes, de maneira que não era possível saber exatamente de onde ela vinha... mas eu a conhecia. eu conhecia derek tempo o bastante para saber que, mais do que tudo, aquela frase havia sido um desafio.

"por favor... eu não conto sobre vcs... eu prometo... por favor, me soltem!!!"

eu caminhei na direção dela. o seu odor adocicado tomou meus pulmões, almentando meu desejo. eu acariciei o seu rosto, quase como seu amante e disse a ela, perto do seu ouvido:

"não irá demorar. eu prometo..."

eu a deitei... e a tomei, ali... no chão daquele lugar antigo e profano, aos olhos ávidos de meus companheiros... ela gemia ao sentir meu toque... e gritou quando me sentiu a invadindo... e ela pediu mais... e ela chorou...
naquele momento, eu a amei mais do que havia amado antes.
naquele momento, eu a entreguei às trevas da noite... eu a libertei do fardo da dor de viver e ela me pagou com o precioso líquido que há pouco corria em seu corpo...
depois de terminado, eu baixei vagarosamente a carcaça sem vida, deixando-a no chão. o sangue que havia escorrido no canto da minha boca ainda parecia fresco e trazia seu odor, ainda.

"está terminado."

mas não havia mais ninguém ali... nem mesmo cassie... eu estava a sós com ela. por quanto tempo?
a noite estava terminando... a lua logo iria embora, levando com ela os últimos resquícios de minha vida anterior...
eu não era mais christopher...
eu era um vampiro, agora... um morto...
uma sombra.
sentado no escuro da sala, eu observo o céu noturno, através da janela.
o brilho da lua me faz lembrar de um tempo em que um menino, nesta mesma casa, subia o telhado nas noites claras de outono para se deitar, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para as estrelas.
o garoto, não mais velho do que 8 anos, ficava às vezes horas, ali. quando ele se deitava, de costas para o telhado, parecia que a terra desaparecia... e com ela, todos os medos e dúvidas que circundavam a jovem cabeça.
a lua parecia chamá-lo para viajar com ela... ele quase conseguia ouvir as vozes das estrelas, num cântico celeste... antigo e triste, mas extremamente bonito.
e naquele telhado, naquelas noites de outono, o menino se sentia realmente parte de algo muito maior que tudo o que ele conhecia...
e ele sorria...
hoje, olhando a noite pela janela, eu me pergunto para aonde aquele menino se foi...

11.12.04

olhando o teclado, procurando as palavras certas, mas elas parecem não vir...

29.11.04

tale of the dreaming

"esse é o seu sonho?"
"como?"

a menina olhava para o homem com um olhar de quem acabou de descobrir um grande segredo.

"esse lugar... é o seu sonho, né?"
"eu... eu não sei. como vim parar aqui"?
"ora, como todos os outros. ou vc é parte de um sonho, ou é um sonhador!"
"ah! acho que nunca fui um sonho."
"viu? eu sabia!!! estamos no seu sonho."
"hummm... e o que eu... huh... nós faremos agora?"
"não sei, o sonho é seu, ué!"

o homem olha a sua volta, tentando organizar seus pensamentos, mas a última coisa que se lembra é de ir para a cama. às 11h, como fizera todas as noites, nos últimos 27 anos. tudo aquilo era muito insólito, mas de alguma maneira, ele não sentia medo. só uma pequena confusão.
de qualquer maneira, a menina parecia estar perdendo a paciência.

"seus sonhos são sempre assim tão chatos?"
"o quê?"
"nada tá acontecendo. por que vc não sonha com princesas e dragões mágicos e cavaleiros de armadura?"
"cavaleiros? acho que realmente nunca sonhei com isso, menininha."
"humpf... que saco!"
"ei! calma."
"eu conheço um dragão! ele pode se juntar a nós, pode?"
"um dragão???"
"ééééééééé! dragão!!!! ei, dragão!!!! dragããããããããããããããããão!!!!"

o homem olha incrédulo para a menina por alguns instantes, até perceber uma sombra se formando atrás dele.

"o que vc quer?"

uma voz faz tremer o ar. o rapaz fecha os olhos, dizendo a si mesmo que aquilo devia ser uma brincadeira.

"oi, dragão! eu queria saber se vc pode ser parte do sonho desse moço aí, ó."
"hummmm... está bem... mas ele é meio franzino para um cavaleiro. e a princesa, onde está?"

o homem vira-se para trás. e a alguns passos, um enorme dragão vermelho está sentado sobre a cauda, com uma das patas sobre o joelho, apoiando o rosto.

"por deus!!!!!!"

o dragão olha assustado a sua volta:

"o que foi?"
"vc! vc é um dragão!!!"
"ah... vc é perspicaz. o que fez vc tirar essa conclusão, hein? imagino se foram as escamas vermelhas que recobrem meu corpo, ou talvez as asas... certamente não foi a minha singela cauda."
"que lugar é esse??? o que está acontecendo aqui????"

a menininha vai até os pés do dragão e olha para o homem com uma cara de quem está entediada.

"nossa, como vc é gritão."

o dragão sorri para ela. ele a pega com uma das mãos e a trás perto do seu focinho de dragão.

"ele é o dono desse sonho? acho que encontramos um daqueles meio sem imaginação."
"acho que ele está sentindo a falta da princesa. precisamos de uma princesa para ele"
"ah! eu conheço uma..."

o dragão solta um rosnado enorme, e fogo salta de sua boca, em direção aos céus. o rapaz cai ao chão, tremendo.

"olá, dragão! desculpe a demora. a droga do vestido não queria entrar de jeito nenhum. onde está meu cavaleiro?"

a princesa olhava em volta, tendo a certeza de que seus cabelos iriam brilhar à luz do sol a cada movimento. ao olhar em direção ao rapaz, ela fica um pouco decepcionada.

"é ele? ele não é meio... magrinho para ser um cavaleiro?"

a menina olha para ela com cara de brava.

"não fala assim dele!!! ele é legal. só é meio parado."
"ah... tá bem... sonho é sonho, né? só não podemos demorar, tenho que refazer minhas unhas logo"
"oba!!!! tio, eu vou ali para aquela pedra, tá? pra ver vc lutar contra o dragão para salvar a princesa!"

o homem olha desesperado para a menina.

"lutar contra o... ei! eu não quero lut..."

a princesa corre para os braços dele, que nesse momento percebe que está vestindo um armadura prateada e traz uma espada em suas mãos. a armadura incomoda bastante na parte de baixo e ele mal consegue segurar a espada. a princesa grita perto dos seus ouvidos.

"salve-me, senhor!!! esse monstro horrível destruiu minha casa, matou minha família e agora me quer! se me salvar, prometo entregar-lhe a minha mão!"

o dragão levanta-se e apoia-se nas quatro patas, rugindo ameaçadoramente e soltando labaredas enquanto aproxima-se dos dois. o rapaz fica com medo e joga a espada de qualquer maneira, em direção ao dragão. a arma cai com a ponta em cima da cauda da criatura que faz uma cara de dor.

"ei!!! não é para ser assim!!!!! vc sabia que essa espada é afiada, seu maluco???"

o rapaz não aguenta mais e grita, desesperado, enquanto afasta a princesa de si.

"chega!!! chega disso tudo! eu quero sair dessa droga de lugar agora! menininha, vc é louca! todos vcs são loucos! eu quero ir agora!!!"

- pop -

uma pequena nuvem de fumaça é tudo o que sobrou, no local onde o homem estava. os três: a menina, o dragão e a princesa se entreolham, por alguns instantes. a menina faz uma cara de desolação.

"ah... droga... de novo ele foi embora antes do sonho acabar... como ele é chato!"

"não se preocupe, pequenina, ele voltará amanhã."

"lorde sonho!"

o dragão se abaixa, numa reverência e a princesa sorri, olhando sedutoramente para o senhor do sonhar.

"princesa... creio que vc tem que participar de alguns sonhos mais adultos, ainda essa noite, não?"
"sim, milorde. com licença."

o lorde moldador olha para a pequena criança com um olhar reprovador, da cor da noite.

"dragão, dragão... vc não deveria estar guardando a entrada do meu castelo?"
"sim, milorde... voltarei nesse momento. com a sua permissão..."
"e vc, pequenina? o que fará agora?"
"hummmmm... não sei. será que o tio fiddler's green deixa eu colher flores nele???"
"provavelmente. mas seja gentil com ele, está bem?"
"tá bem, lorde sonho! beijo para o senhor."
"mande minhas saudações a ele."
"tá!"

e o homem vestido de negro olha a menina correr e começar a desaparecer na distância e ele sorri um sorriso fulgaz... quase a sombra de um sorriso.

"ele voltará amanhã... todos eles voltam na noite seguinte..."
i once dreamt i was a fallen angel,
i once dreamt i was an answer for an important question,
i once dreamt i was a star on a cold winter night,
i once dreamt i was a knight on a quest,
i once dreamt i was a happy thought,
i once dreamt i was...

16.11.04

um bom conselho

não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes. sê lhano, mas evita abastardares-te. o amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos. foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre. a todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio. conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia. nisso, principalmente, são pichosas as pessoas de classe e prol na frança. não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia. mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso.

William Shakespeare - Hamlet

uma janela para o interior

o escritor ajeita-se na cadeira, observando o cursor piscar sobre uma tela em branco. ele suspira, tentando imaginar por que alguns dias as idéias povoam sua mente, mas recusam-se terminantemente a se transformar em histórias.
ele digita algumas palavras, mas acaba apagando-as, enquanto balança a cabeça, desaprovando tudo o que havia escrito.
ele olha pela janela. seu único contato com o mundo exterior em dias como esse e se distrai pensando em como às vezes ele parece assistir ao que se passa ao seu redor como se fosse um filme. indaga-se em silêncio se é o único a ter essa sensação perante o mundo, mas acha que no fundo ele não é tão especial assim, para ter sensações e pensamentos tão originais.
enquanto uma senhora caminha despreocupada, lá fora, o escritor se imagina como uma sombra, passando pelo mundo incólume... sendo percebido somente por pessoas com mais atenção... mas sendo esquecido instantes depois.
ele pensa em seus textos... pensa se algum deles fez mesmo sentido para os poucos que os leram... se algo que escreveu mudou algo na maneira como eles viam o mundo, mas não tem certeza disso. afinal, textos são esquecidos... palavras se perdem...
ele sorri de uma maneira um pouco sarcástica, lembrando que a melancolia não perde a menor oportunidade de se mostrar.
ele pensa na solidão que sempre sentiu, por toda a vida, mesmo quando está cercado de pessoas, ele se sente só... e pensa em como são singulares os momentos em que se sente bem com alguém. um outro sorriso... "sempre as mesmas coisas, não?" ele fala para si... "sempre acabo pensando nas mesmas coisas".
o rapaz se indaga se deve voltar a se consultar com a psiquiatra, mas só de lembrar em ter que discutir coisas muito íntimas com alguém que só está ali para receber algum dinheiro, ele se desanima.
de repente, começa a digitar... e ao invés de escrever sobre lugares fantásticos ou coisas antigas, percebe que as palavras falam dele mesmo. de como ele se sente...




9.11.04

a smile is all i have

sentimento de inevitabilidade... tarde com um solzinho chato, que não trás nada de bom, pra mim... aquele gostinho de mais do mesmo, na minha boca... usando o computador e ouvindo músicas estranhas, que me levam pra longe daqui... pra longe do mundo...
o cursor na tela do computador me convida a viajar pelas letras do teclado, escrevendo coisas que são verdades até o momento em que as digito, mas que se transformam em palavras... e não podemos confiar nas palavras.
velhos sonhos me voltam a mente, vez ou outra... sonhos de outros lugares, de épocas distantes e felizes... acho que eu era feliz, quando era criança... meu mundinho era tudo o que me importava e naquela época o mundo lá de fora não forçava tanto para entrar... me sinto uma criatura tão distante daquele menino... tão cínico, triste e até um pouco patético, com suas eternas dúvidas (e agora não existem mais adultos que as respondam).
alguém já sentiu saudade de algo que não conhece? como se cura isso???

enquanto devaneio, o sol se esconde por trás de nuvens cinzentas... por um breve segundo, penso ter encontrado uma voz nos céus que me escuta... mas eu sei que os deuses tem coisas mais importantes para fazer...

no som um rapaz morto fala "vai ver é assim mesmo e vai ser assim pra sempre, vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente".

7.11.04

sinta o novo aroma no ar, garoto,
perceba as novas cores que se descortinam,
pois há um mundo inteiro lá.
novas possibilidades, novas sensações...

deixe a chuva escorrer por seus cabelos,
curando, purificando.
pois a sua mente é agora um livro em branco,
esperando por novas poesias.

30.10.04

the outlaw torn

hear me
and if i close my mind in fear
please pry it open
see me
and if my face becomes sincere
beware
hold me
and when i start to come undone
stich me together
save me
and when you see me strut
remind me of what left this outlaw torn

28.10.04

dias cinzas

quando ando por aí em dias cinzas, eu sinto uma paz enorme... parece que o vento me acalma, me traz uma sensação boa demais...

gosto de dias cinzas!

27.10.04

scars

eu sei que essa letra é feita por uma menina... e é um tema feminino... mas é MUITO, MUITO legal:

i have scars on my body
from using myself
abusing myself
in sickness and in health
i have bruises on my body
which go away with time but remain in my mind forever
as a constant reminder of the last man i loved
loathed
left
i have the word 'truth' on my arm
because there is no room for honesty when you're a liar
i have a tattoo on the back of my neck which i cannot see
but i can feel
but i can feel
but i can
i have a tattoo on my stomach which in italian means 'the sweet life'
i have the word 'love' in flames surrounded by stars on my right wrist
because these five fingers go straight into the soul of man
i have the word 'hate' on my left wrist because the left hand is the hand of hate
and it was with this hand that cain knifed his brother
i'm right handed
maybe that's my problem
my ruin

24.10.04

sunday at night

odeio domingo à noite...

porque eu sinto esse vazio chato, todo domingo à noite?

odeio...

playing with fire

fire'll never lose a fight

it can be smothered but it will always come back

to burn men's contempt and show its force

to revenge the offense to this earth

wherever i go

all i see are fools

playing with the fire

wherever i hide

someone by my side

plays with the fire

noone'll never subjugate its force

the sweet dance of flames is rebel to our wills

it can purify the dirt of souls

it will help those who'll know its laws

some are too pretentious to respect

but fate'll remember all their deeds

as the cycles start they end one day

the fire will be there to laugh and play !

21.10.04

death of a king [conclusion]

quando o gigante veio em minha direção para terminar com minha vida, lembrei do rei, que estava sob ataque do traidor e um impulso de raiva fez-me desviar do primeiro golpe e acertar a cabeça dele com um elmo que estava a meu lado. quando ele perdeu o equilíbrio, ajoelhei e joguei todo o meu peso num empurrão que fez com que aquele traidor caísse no meio de uma poça de lama e sangue.
completamente perdido, olhei em volta, cansado e ferido, procurando pelos cavaleiros e vi que nossos homens estavam perdendo para os inimigos, pois haviam sido cercados longe dos lanceiros com escudos.
não achei a minha espada, então peguei a primeira arma que encontrei, ainda enfiada no corpo caído e corri, tentando me manter incólume no meio da batalha.
a chuva atrapalhava a corrida, havia lama demais, corpos demais jogados. meu braço latejava enquanto uma crosta de sangue ia se formando, no ombro e era difícil me manter concentrado. tudo o que eu conseguia pensar é que não poderíamos perder ele. não hoje, não nessa batalha e não aqui, às portas do centro do reino.
enquanto corria e tentava me manter lúcido, imagens de outros tempos passaram por mim. lembro da bretanha da minha infância, os ataques saxões, os senhores romanos que queriam manter a ordem pela força de um império que morria. pensei em minha doce esposa, em meus filhos. lembro da ordem que trouxemos às tribos. a paz mantida pela espada dos deuses.
aquilo não iria terminar. não hoje.
os traidores haviam cercado nossos cavaleiros. o rei estava à frente, como sempre. há alguns metros, o usurpador sorria, um sorriso em um rosto sem emoção.
uma pontada de medo surgiu em meu coração, quando percebi que o rei não iria mais recuar. eles estavam em menor número.
o homem que havia sido quase um irmão para mim estava com um olhar sereno. ele desceu do cavalo, caminhou alguns passos e gritou que aquilo terminaria ali, naquele dia.
de repente, o campo de batalha foi se tornando um lugar silencioso. todos pareciam ter ouvido a afirmação. alguns anos depois ouvi algumas mulheres dizendo que naquele dia, o rei havia tomado a voz do próprio bran para si.
eu estava lá e às vezes me pego pensando o mesmo. todos haviam se calado. a própria colina onde estávamos parecia ter adquirido um ar quase etéreo... como se tivéssemos atravessado a ponte que liga os mundos e nesse momento estivéssemos no reino dos antigos.
um dos traidores tentou acertar o rei, mas recebeu um golpe de espada nas costas que veio do próprio usurpador e caiu no chão, já sem vida.
o bastardo desceu do cavalo e passou o sangue que escorria da espada em seu rosto, mantendo o sorriso mortal por todo o tempo. ele parou por um momento, como se para fazer reverência ao rei e tentou golpeá-lo por entre as costelas. o rei desviou e eles iniciaram a luta.
golpe após golpe, eles se equiparavam, golpeando, desviando e golpeando novamente.
eu estava paralisado. tudo parecia ter parado. era um duelo entre gigantes e nenhum dos dois parecia vacilar um só segundo.
mas o usurpador era ardiloso. percebendo que não conseguiria vantagem sobre seu adversário, utilizou seus jogos sujos. depois de dar um golpe de cima para baixo, o guerreiro negro girou sobre seu próprio corpo e golpeou novamente, à maneira dos romanos e fez com que o rei usasse de toda a força para bloquear os dois golpes. nesse momento, o bastardo puxou uma faca fina que estava em seu cinto e a enterrou por baixo do braço do rei, que deu dois passos para trás, tentando entender o que acontecera.
depois de alguns segundos os passos do rei se tornaram vacilantes, quase como se ele houvesse ficado bêbado. só podia significar uma coisa. havia veneno na lâmina da faca. ele havia sido envenenado.
naquele momento, eu senti um calafrio percorrer meu corpo, pois o usurpador estava tentando gravar a espada na cabeça do rei. ele aguentou a força do golpe, mas caiu de joelhos. o traidor da bretanha se aproximou, mas o rei se levantou, com os olhos injetados de ódio e golpeou o inimigo três vezes seguidas, com tanta força que o traidor caiu de costas. o rei levantou novamente a espada sagrada e a empurrou com toda a força no peito do príncipe negro. a batalha havia acabado.
mas...
o rei não se movia.
o traidor havia levantado a sua espada no último momento e ela havia penetrado a armadura do rei, atravessando seu peito e saído nas costas.
os dois haviam se chocado por uma última vez. a guerra acabara. não haveria vencedores nesse dia.
e ali, por sobre aquela colina, eu chorei pela última vez...
ali nós perdemos a esperança... a bretanha perdeu seu rei...
e eu perdi um amigo.




20.10.04

orage

sinto as primeiras gotas de chuva em meu rosto,
mornas e doces, como lembranças de amores antigos.

ouço o sussuro do vento, dizendo que você vem.

aos poucos a luz do sol se empalidece,
perdendo terreno para sua presença.

as nuvens mostram sua grandiosidade,
cobrindo o mundo, cercando-me...
abraçando-me.

os relâmpagos caem ao meu redor,
revelando suas vontades
em forma de som e fúria.

me sinto uma criança que vê o mundo pela primeira vez,
com medo, curiosidade e desejo.

ouço nos uivos dos ventos seus gemidos...

sinto as gotas de chuva escorrendo em meu rosto,
mornas e doces, como o gosto de seu corpo...

19.10.04

dream of icarus

eu sonho que estou voando,
liberto das amarras terrenas que oprimem meu corpo,
flutuo sem peso pelos céus.
alcanço os frutos nos topos das árvores,
acompanho o vôo das aves, que me olham curiosas,
sou seu novo irmão...
ícaro.

vejo barcos percorrerem as águas abaixo,
olho para as montanhas... cada vez menos imponentes,
olho para o sol, senhor da luz,
quero alcança-lo, quero tocá-lo...
mais e mais alto, eu desejo ser o senhor da luz...

eu sonho que estou caindo,
porque ousei sonhar, porque ousei demais,
o solo cada vez mais próximo, não há mais sol,
não há mais montanhas, ou pássaros,
somente eu e a queda,
somente eu
e meu sonho...

17.10.04

dark horizons

eu estou inquieto... ansioso... de verdade... sei lá, tá parecendo que alguma coisa importante vai acontecer, mas eu não vejo nada...

vc já se sentou em um lugar alto e olhou para o horizonte, enquanto o vento traz as nuvens de chuva em sua direção e vc sente que há algo no ar... uma expectativa...

é isso que estou sentindo, hoje...