6.8.06

a espiral toma conta do espaço vazio...

levantando a poeira, deixando marcas, remexendo o que havia sido jogado ao chão.

o tornado em tons de vinho aumenta de intensidade, sua força arrancando pedaços dos muros. quebrando barreiras antigas, ele atravessa os limites da minha alma.

e se intensifica ainda mais com o que encontra lá. ganhando nova força, o fenômeno se transforma em algo novo. tocando cada pedaço, cada parte, ele mistura suas cores às cores dali.

algo novo nasce.

de coisas egoístas

- sabe? eu acho o amor um sentimento egoísta.

- como assim? o amor não é entrega? não é confiança?

- é! é sim. na superfície.

- como assim?

- ah... assim: é claro que, quando você ama, você quer bem à pessoa. você quer ficar junto, fazer coisas para aquela pessoa.

- sim. isso não é se doar?

- é... mas qual a razão disso? não é só fazer o outro se sentir bem. o que acontece é que quando você ama, projeta no outro a sua própria felicidade. a outra pessoa fica sendo, de uma maneira ou de outra, a sua referência para você mesmo. e então, o que você faz e cuidar de você mesmo!

- ah! não. não acho isso. é possível se sentir bem por fazer bem aos outros.

- tá. VOCÊ se sente bem por fazer algo por outra pessoa. nós somos animais, sabe? mesmo lá no fundo, escondido por milênios de "sociedade", somos animais. você faz bem a alguém porque você também se sente bem com isso.

- ok! você quer acabar com todo o romantismo.

- não, não! eu só afirmo que por baixo de tudo o amor é um sentimento egoísta. eu adoro fazer coisas bobas e românticas, mesmo sabendo que muitas vezes as faço para que eu me sinta bem.

- tá. então o amor é fruto do egoísmo humano?

- é! e eu sou um dos maiores egoístas!!!

2.8.06

existe coisa mais certa do que fazer algo errado com vc?
a lâmina dança em seu caminho.

a luz fraca da cidade ilumina um quarto pequeno e sem cor.

a lâmina brilha por um segundo. e o homem se perde no brilho, imaginando outra vida, outro lugar.

os sons da cidade abafam o barulho fraco da respiração dele.

a lâmina dança, firme e cheia de si.

o homem se lembra de alguém com olhos verdes e cabelos cor de fogo.

algo escorre quente e viscoso por seu braço.

a lâmina dança, cortando.

o homem escreve um nome com a lâmina.
a raposa foge...

o homem a observa sumir por entre as árvores secas do inverno. por um segundo vê o brilho de olhos de raposa ao longe... e então ela some.

no chão, aos pés dele, no local onde a raposa estava há pouco ele vê um objeto.

ele apanha uma pequena chave.

ela abre as portas de um lugar que só a raposa conhece.

1.8.06

desconstrução

eu estou sistematicamente e deliberadamente descontruindo tudo o que sou eu. tudo o que representa marcio está em processo de revisão.

não sei o que vai acontecer no fim.

não sei o que vai sobrar, não sei o que vai ter que ir embora.

sei que está sendo, no mínimo, divertido.
você me preenche os sentidos.

provoca aromas, cria visões, afeta o tato, aguça os ouvidos, adoça a língua.

somos tudo o que é de errado.

somos tudo o que não pode dar certo.

e somos a única coisa que faz sentido nesse mundo.

poema de sentidos

eu sou abismo
você é vento
que dança por mim,
que assobia sussurros antigos em meus ouvidos,
me provocando.

eu sou corpo
você é lâmina
que corta o pulso
que me mata em seu fio
me libertando.

eu sou noite
você é estrela
todas as estrelas
que me cercam,
iluminam meus segredos.

eu sou calmaria
você é tempestade
que me transforma
que transtorna
limpando as sujeiras do mundo.

eu sou silêncio
você é som
o grito,
o gemido,
dançamos uma melodia de nós mesmos.

eu sou fogo,
e você é fogo
nos consumimos,
nos alimentamos um do outro
até não sobrar mais nada.

até sobrarmos nós dois.

26.7.06

porque hoje essa música me perseguiu...

aprendi a esperar, mas não tenho mais certeza
agora que estou bem, tão pouca coisa me interessa
contra minha própria vontade sou teimoso, sincero
e insisto em ter vontade própria
se a sorte foi um dia alheia ao meu sustento
não houve harmonia entre ação e pensamento
qual é teu nome, qual é teu signo?
teu corpo é gostoso, teu rosto é bonito
qual é o teu arcano, tua pedra preciosa
acho tocante acreditares nisso
já tentei muitas coisas, de heroína a jesus
tudo que já fiz foi por vaidade
jesus foi traído com um beijo
davi teve um grande amigo
não sei mais se é só questão de sorte
eu vi uma serpente entrando no jardim
vai ver que é de verdade dessa vez
meu tornozelo coça,
por causa de mosquito
estou com os cabelos molhados, me sinto limpo
não existe beleza na miséria
e não tem volta por aqui,
vamos tentar outro caminho
estamos em perigo, só que ainda não entendo
é que tudo faz sentido
não sei mais se é só questão de sorte
não sei mais, não sei mais, não sei mais

á vem os jovens gigantes de mámore,
trazendo anzóis na palma da mão,
não é belo todo e qualquer mistério,
o maior segredo é não haver mistério algum.

legião urbana - l'âge d'or



23.7.06

deserto de palavras

a aridez do vocabulário cria rachaduras na pele.
não consigo encontrar as palavras,
explicações.

não há nada aqui que defina o que meu coração sente
não é dor
tampouco amor.

o sol do deserto me causa alucinações
por um momento avisto um oásis de definições
mas quando chego perto percebo que é apenas
uma poça de lama,
repleta de justificativas falsas.

talvez eu deva parar por aqui.
deixar o calor e a areia fazerem seu trabalho.

deixar o corpo falecer,
mumificar na falta de sentimentos úmidos.

que sirva de aviso a outros escritores que por esse deserto tentarem caminhar.

"fuja!
fuja enquanto ainda podes manter
seus sentimentos intactos.
guarde-os no cantil, preserve-os."

há!

o delírio me faz escrever coisas engraçadas.
silêncio estranho...


tá me fazendo pensar demais...


não tô gostando.

freaking out

i was so much an outcast
no one ever liked me
'cause i wasn't wanted
i was so different from
the rest of them all
"fucked up on the drugs
from all the speed
and i never got no sleep
'cause i kept on trippin' over
what they said
and everything that
my mom said made me mad
and everything that
my dad said made me sad
why am i even trying?
i'm crying out
i'm crying out
i cannot seem to keep
from freaking out
spinny round, spinny round
i've fallen down
i cannot seem to keep
from freaking out"
trecho de freaking out - adema
sem palavras, hoje...

só olhares...

pensamentos...

21.7.06

pegue a chama que queima em mim, menina.

usa ela pra queimar o mundo.

que algo novo renasça das cinzas de tudo o que se foi.

algo sórdido e belo, intenso e delicado, violento e sentimental.

pegue a chama.

pegue-a.
eu abri uma ferida nova no meu peito, hoje, só pra ver se ainda era capaz de sentir.

minha cama tá desarrumada, sinal de uma insônia que se instalou por aqui e não quer me deixar. bebidas e remédios dividem a mesa com o computador.

esse sim, sempre aceitou tudo o que eu contei a ele, sem dúvidas, sem apreensões.

"sinto falta de intensidade", ouvi um dia. não... você não sente falta de intensidade. acho que sente falta de se sentir no controle da situação.

well... não tem muito controle na terra da qual eu venho. mas há intensidade. intensidade de palavras, de atos e principalmente, intensidade de emoções.

eu vou esperar novamente. mas não existe espera eterna.

e minha alma, querida, anseia por intensidade.
"eu tenho que ir."

ela olha pra ele, por um segundo. não esperava que essa frase viesse dele. ela sempre foi quem no fim ia embora, desligando a luz e fechando a porta de um capítulo na vida de outras pessoas.

"por quê?"

"porque eu amo você. porque eu amo de verdade."

ele olha pra ela de forma solene. ela pensa em como ele parece sério, muitas vezes, quando fala dos sentimentos dele, como se fossem tudo o que importasse para ele.

"então fica mais um pouco."

"não posso. porque eu não sou o que vc precisa. ou você não é o que eu preciso. não agora."

ele para por um instante e retorna a falar:

"não. esta tudo errado. eu sou tudo o que vc precisa. e você é tudo o que eu sempre procurei, minha vida inteira. mas acho que somos burros demais pra perceber a preciosidade disso."

"mas tem sido tão legal. os nossos momentos."

"pois é... mas são momentos. sem continuidade. eu fico no telefone, esperando uma ligação sua. ou eu prometo ligar e não ligo. temos medo de ser mais do que somos. temos medo de ser tudo o que podemos ser juntos. e eu não quero, me recuso a ser só em parte."

"eu... eu entendo. mas eu não sei ser diferente."

"eu também não! eu sinto sempre essa urgência de sentir o tudo, sempre. e com você é diferente. mas ao invés de aprendermos um com o outro, ficamos aqui, ligados nas coisas que são comuns aos dois."

"..."

"eu não estou te cobrando, ok? eu estou me cobrando. me cobrando ser mais que alguns momentos bons pra vc. eu quero ser tudo de bom. quero ser tudo o que você pode sentir por alguém. toda a intensidade. boa ou má. me ame até a morte, ou me odeie pra toda a eternidade... mas que seja tudo o que você pode sentir."

ela fica momentos em silêncio. a noite parece fria demais, de repente. o vazio que ela sempre sentiu dentro de si parece estar mais profundo.

"eu não quero ir. não quero mesmo. mas acho que preciso. pra não ser ruim."

"me abraça... ?"

ele a abraça, sentindo o corpo dela frágil, perto do seu. e, pela primeira vez em muito tempo, o coração dos dois bate juntos.

19.7.06

let's spend the night together

well, don't you worry 'bout what's been on my mind
i'm in no hurry
i can take my time
i'm going red
and my tongue's getting tired
out of my head and my mouth's getting dry
i'm h-h-h-high

let's spend the night together
now i need you more than ever
let's spend the night together now

i feel so strong
that i can't disguise, oh my
well, i just can't apologise, no
don't hang me up but don't let me down
we could have fun just by fooling around, and around
and around

let's spend the night together
now i need you more than ever
let's spend the night together now

oh, you know i'm smiling baby
you need some guiding baby
i'm just deciding baby

let's spend the night together
now i need you more than ever
let's spend the night together now

this doesn't happen to me every day
no excuses i've got anyway, heh
i'll satisfy your every need
and i'll know you'll satisfy me, oh my-my-my my-my

let's spend the night together
now i need you more than ever

let's spend the night together
they said we were too young
our kind of love
was no fun
but our love
comes from above
do it!

let's make love
hoo!

let's spend the night together
now i need you more than ever
let's spend the night together now

david bowie - let's spend the night together

17.7.06

buenos aires

ele entra no salão. o ar espesso de fumaça de cigarro cria penumbras por entre a luz das lâmpadas vermelhas.

num dos cantos, uma banda toca alguma coisa que ele reconhece como um arranjo original, mas sem espírito, de um gardel. ele tira o chapéu cuidadosamente. cada movimento seu é sempre cuidadosamente planejado. principalmente ali.

sempre fora um boêmio. conhecia praticamente todos os bordéis de buenos aires, mas sempre voltava para lá.

passou pelas mesas de sinuca, cumprimentando os homens que entregavam o salário semanal para o jogo e as "damas".

o barman entregou-lhe o vinho, antes que pedisse. sempre tomava o mesmo vinho tinto e forte da casa. não era gostoso. mas mesmo assim, era um vício. como ela.

as mãos de outro homem apertavam-lhe o quadril, enquanto dançavam no meio do salão. era uma mistura de deusa e demônio.

na meia 3/4 um maço de notas indicava que a noite havia sido boa para ela.

ele se sentia atraído pela sensualidade do corpo de prostituta dela desde a primeira vez que a viu. ela foi dele, naquela noite. por três vezes.

e em todas as noites em que ele estivera ali.

ele sentia o corpo queimando, só em ver as curvas das pernas dela se emaranhando às do outro homem, ao som da música.

ela nunca dançou com ele. recusara-se desde a primeira vez. perguntara a ela muitas vezes, enquanto fumavam um cigarro que consumava o gozo dos dois. ela apenas se calava.

eles se amaram e gozaram e trocaram juras muitas e muitas vezes. mas ele sabia que ela sempre desceria as escadas novamente, para se entregar ao tango com outros.

puxou o canivete rapidamente, por baixo do terno de seda importado da frança. a lâmina brilho no ar por um instante, antes de encontrar a carne do homem que dançava com ela. cortou-lhe rapidamente o rosto e cravou o metal contra o peito dele, com uma força animal. o sanque sujou-lhe a mão, escorrendo pelo braço. o homem caiu.

a música continuou.

ele a pegou nos braços, enroscando-se em seu corpo. puxou-lhe para si. ela se entregou completamente, como uma virgem, como uma prostituta, como seu amor.

e eles dançaram um tango com cor de sangue.

o vinho em seu copo era vermelho como o sangue e aos poucos o barulho no salão o fez voltar ao bordel, onde ela dançava nos braços de outro e nunca seria dele.

10.7.06

o felino espreita escondido nas sombras,

a luz fraca deixa transparecer músculos retesados, à espera.

ele caminha, de um lado para outro,

olhos fixos em um ponto adiante.

lá, uma menina brinca com pequenos potes de vidros,

ela parece alheia ao animal.

mas dentro de sua alma, algo espera ansiosamente pelo ataque.
você deseja o torpor do amor esquecido,
a falsa paz dos que nada sentem.
você me pede intensidade, mas a encara com medo de se perder.

eu quero a entrega dos apaixonados,
a força do seu coração batendo em mim
eu quero o gozo e o choro e o riso insano da sua alma.

me dê a mão, por hoje.
deixe-me te guiar pelos caminhos de pedras vermelhas
dos corpos se tornando um corpo.

não, não olhe para o outro lado, criança
não fuja da dor, do prazer,
não tape os ouvidos para o grito da mulher que há em você

entregue-se
entregue-me
você.