7.5.06

shades of grey

algumas vezes eu esqueço
todos os meus erros
e todos os medos.

e abro meus olhos,
olho para o abismo
e sorrio

o sorriso daqueles que sobreviveram
a mais uma noite frente a seus próprios erros.

a inocência se foi
a fome de coisas novas aumentou

e ainda não consigo entender tudo
mas meu coração persevera
procurando, encontrando e esquecendo logo após.

e minha alma com o fogo da criação
o fogo da fome de mais e mais.
consumindo a si mesma e se recriando.
... e o homem procurou em todo o mundo por algo que ele descobriria que estivera ao seu lado, o tempo todo...

5.5.06

por que eu só consigo pensar em fogo, sempre que vou escrever???

estranho.

quarto de hotel

tocou a superfície da água, fazendo com que seu reflexo se tornasse fluído, amorfo. a temperatura estava perfeita.

despiu-se do roupão, jogando-o no chão.

entrou na banheira, sentindo o calor da água aquecendo seu corpo, as pernas, as coxas, o quadril, os seios.

adorava banhos de banheira. gostava de mergulhar a cabeça dentro da água, sentindo-se completamente submersa. o mundo parecia silenciar por alguns momentos. tudo parecia calmo, quente e agradável.

a espuma se espalhava, tocando-lhe a pele delicadamente, feito uma nuvem.

ela começou a se banhar.

o corpo continuava firme, mesmo nessa idade. gostava de correr a esponja de banho pelas pernas, sentindo-lhe a maciez, a textura.

os braços eram longos, fortes, mas não musculosos demais.

a barriga exibia uma cicatriz de uma cesariana, mas não era uma marca especialmente grande e de alguma forma ficara-lhe bonita, pois assumiu a forma de uma lua crescente.

jogava água displicentemente pelas costas.

era perfeita. já ouvira essa expressão antes. era perfeita e sentia-se perfeita.

havia-se desgarrado de todas as preocupações da juventude. havia cumprido seu papel ante as outras pessoas.

agora era o momento dela se dedicar a si mesma.

fechou os olhos e ficou vários minutos em silêncio, sentindo o calor em seu corpo, a suavidade da espuma relaxando os músculos.

sorria.

esquecera do mundo por algum tempo, até que sentiu-se outra pessoa.

levantou-se, de forma preguiçosa.

começou a se secar.

olhava-se em um grande espelho que ornamentava o banheiro. olhava cada detalhe com um prazer narcisístico, só seu.

pensou em pintar o cabelo de outra cor, enquanto os pintava.

ruivo.

colocou o perfume e a maquiagem. apenas um pouco sobre o rosto, para dar um tom diferente à pele.

vestiu a lingerie, com rendas azul-marinho.

cetim azul.

o vestido ajustou-se perfeitamente ao corpo.

calça o sapato.

ela dá uma última olhada para o quarto.

na cama, o corpo do homem encontra-se emaranhado com os lencóis, ainda sujos de sêmen e sangue.

os olhos dela brilham, com uma satisfação negra.

ela fecha a porta e vai pelo corredor. o som dos saltos diminuem com a distância.

4.5.06

guardião da luz

a chama da vela faz com que as sombras tomem vida própria, movendo-se de maneira errática.

ele observa a vela queimar. lembra-se de quando era criança e a luz acabava, nas noites de verão. ele e o irmão ficavam brincando no quarto, à luz de vela.

faziam animas de sombra... contavam histórias de terror... conversavam sobre o mundo.

lembra-se de que ficava hipnotizado com o tremeluzir da chama.

imaginava que, se a vela queimasse até o fim e o fogo se apagasse, não existiria nada no mundo.

a vela era tudo o que mantinha as coisas ainda existindo. sem ela, só escuridão e esquecimento.

ele guardava a chama, mas os olhos ficavam sempre muito pesados, o dançar do fogo era quase hipnótico, era difícil ficar acordado...

ele abria os olhos novamente e lá fora o sol já brilhava no céu. um monte de cera derretida jazia, onde antes estava a vela. o fogo havia se apagado.

mas o sol trouxera novamente a luz ao mundo.

haveria mais um dia, enfim...
sim.


eu voltei.


porque não consigo largar certos vícios.

poema de carne

a lâmina brilha,

o corpo tensiona,

a alma grita,

a vida devora.
alguma coisa me olha, na escuridão da noite.

olhos antigos, tão antigos quanto o mundo, esperam.


alguma coisa espreita, nas trevas.

esperando até que o mundo silencie.

esperando até que eu durma.


posso sentir seu ódio.

posso sentir seu mal.

é algo palpável e antigo.


alguma coisa me olha, na escuridão da noite.

eu fecho os olhos e sinto.


eu sou aquele que observa nas trevas.
ficou observando a fogueira.

pequenos insetos vinham da escuridão da noite mais além, atraídos pelo fogo. hipnotizados pela luz, até que o calor queimava-lhes as asas e eles caiam em direção à morte.


sentia-se fogo, essa noite.

eternal days

abaixa-se, delicadamente deitando o corpo da mulher no chão. olha para os olhos, semi abertos. um brilho apaga-se aos poucos, no olhar distante.

as marcas da mordida jazem avermelhadas, obscenas, no pescoço. o peito nu esforça-se por mais uma respiração. prende-se a vida que esvaiu-se.

a vida dela agora corre no corpo dele. aos poucos se transformando.

ele vive às custas dela. sempre foi assim. sempre será. sentia-se superior a eles, mas mesmo assim sabia ser dependente das vidas deles.

ele continua a olhar em silêncio quando ela pára de respirar. um pequeno suspiro e a alma se esvai no ar.

depois de anos, fazia sempre a si mesmo a pergunta de como seria aquela sensação. claro, não estava mais vivo. mas tampouco estava morto. era uma sombra, uma abominação. a morte e a vida haviam-lhe sido negadas. admirava as estátuas, porque se reconhecia nelas, de alguma maneira.

abaixou-se mais. tocou levemente os lábios da morta com seus próprios. sentia ainda o calor que emanava do corpo dela. mas aos seus olhos aguçados de caçador, o corpo adquirira uma coloração pálida, acinzentada.

quase como o seu próprio.

levantou-se de súbito. fora do quarto abandonado, o sol já fazia correr seus primeiros raios pelo mundo. era preciso sair dali.

dentro de si, sentia a vida dela percorrer-lhe as veias. parecia quase poder reviver em sua memória acontecimentos da vida dela. a sensação era indescritível. viciante. saciar a fome é a maior recompensa de sua existência.

claro, existia o sexo, mas não havia comparação. a sensação do gozo, explosiva, libertadora era ínfima, perto de poder sentir a vida invadindo-lhe o peito, o corpo novamente. e todas as sensações! o mundo parecia adquirir outras cores. cores que ele nunca vira em vida. e novos cheiros e novos sons!

saiu da casa abandonada. a rua começava a ficar cheia novamente.

o fluxo eterno de pessoas nas artérias da cidade.

caminhava entre eles, incógnito.

era como um animal predador com a camuflagem perfeita. podia chegar perto o suficiente e eles nunca perceberiam o ataque até que fosse tarde demais.

mas precisava ter pressa. tinha um compromisso.

caminhou até o parque. novas mães brincavam com suas crianças. casais caminhavam juntos, após uma noite de carícias escondidas.

e lá, perto do lago, estavam eles.

ela e o garoto, já beirando 10 anos, davam comida aos patos. alheios à presença dele.

escondeu-se nas sombras (era especialista nisso) e observou-os, até que eles foram embora, caminhando para a entrada norte.

e monstro foi embora, na direção contrária, em direção a mais um dia num suceder de dias e noites iguais. mas naquela manhã, se alguém pudesse chegar perto, perceberia uma pequena lágrima escorrendo de seus olhos.

on the road again

caminho...

a poeira se eleva amarela aos céus...

a estrada estende-se a minha frente...

e eu sigo à sua margem.

29.4.06

1984

ele fecha o livro. idéias navegam em mares revoltos, em sua mente.

ele observa as grades na janela.

e as câmeras de segurança mais além.

e as pessoas se trancam em seus carros, nas ruas.

ele pensa em liberdade. e pensa onde todos erraram.

2004

fechara o livro e ficara olhando para ele, durante quase uma hora.

na parede à sua esquerda, a teletela mostrava os resultados da última conquista da guerra contra a eurásia. não prestara atenção ao que estava sendo dito, mas imagens de uma grande fortaleza marítima em chamas vinham acompanhadas do hino da oceania. a guerra logo terminaria com a vitória da oceania.
vivas para o partido. vivas para o grande irmão.

a imagem de um homem com olhos penetrantes e um bigode que escondia a expressão do rosto apareceu. do outro lado do aparelho, alguém escutava e via todos os atos dele. ou não. era impossível saber quando a polícia do pensamento estava de olho.

não mudara a expressão do rosto. não se permitia demonstrar as emoções que estava sentindo.

não entendia como o livro fora aparecer em sua mesa, abaixo de uma pilha de outros documentos que ele tinha que alterar, lá estava. um livro fino, de um tipo de papel que ele nunca vira na vida. as páginas estavam escritas com uma letra feia, cheia de garranchos. mas o que ali estava escrito.

dois nomes apareciam, no meio dos escritos: winston e julia.

e a data: 1984.

eram as únicas referências que ele tinha sobre o dono dos escritos. a letra parecia masculina, então incoscientemente a associara a winston.

por fim, o medo o dominou (mas não mudara a expressão do rosto, não se permitiria isso) e ele jogou o livro no incinerador. nada mais existiria, além da lembrança do que havia sido escrito.

ele terminou o trabalho, olhando de tempos em tempos para a teletela. aguardando que os homens da polícia do pensamento chegassem.

mas nada aconteceu.

terminara seu turno sem encontrar mais ninguém. modificou vários exemplares de jornais e sites da internet, acertando informações. não entendia como poderiam produzir tantos documentos com informações erradas, mas em nome do partido, era necessário corrigir os erros anteriores.

voltara para casa, caminhando pelas ruas cinzentas. o agasalho não o protegia contra o frio, mas era tudo o que pôde arranjar. os soldados da linha de frente precisariam muito mais dos recursos do que ele. ficara feliz em poder contribuir com a guerra, com qualquer dinheiro que sobrasse. a oceania precisaria de toda ajuda possível, contra os monstros da eurásia.

caminhou por um bairro de proles. em um beco escuro, uma mulher oferecia seu corpo por uma barra de chocolate. crianças famintas olhavam para ele, quietas. ele não vira nada.

o apartamento está frio. os aquecedores foram desligados mais cedo, hoje. a teletela domina o cômodo, mostrando a imagem de uma mulher discursando sobre a importância do casamento para a reprodução e a manutenção dos números demográficos.

não era possível desligar o aparelho.

ele se deitou, cobrindo-se com um cobertor velho, mas que ainda o mantinha quente. precisaria recorrer a outro em breve. esperava ter dinheiro.

fechara os olhos. tudo o que via a sua frente eram as letras de um livro velho, mal escritas, palavras infantis, mas que não saiam de sua mente.

naquela noite, ele dormiu e sonhou ser winston... sonhou com ele escrevendo o livro (como faria para se esconder da teletela e dos microfones?).

sonhou com o grande irmão, ditando a sociedade, o único mantenedor de tudo em que acreditavam. uma grande estátua falava a todos os da oceania. mas por alguma razão, a estátua estava quebrada, deformada. e ninguém parecia perceber.

sonhou com uma bota militar esmagando o crânio de uma criança.

sonhou com julia.

no dia seguinte, ele acordou. o frio tornava o ato de levantar-se bastante doloroso. fora ao banheiro.

olhou-se no espelho (haveria ali alguma câmera?).

era o mesmo de antes. mas algo havia mudado.

se olhassem de perto, mesmo assim não veriam. mas havia um brilho nos olhos dele.

ele não sabia o que era aquilo. mas se ele pudesse dar um nome ao brilho, seria...

esperança.

27.4.06

em algum lugar, ela dorme...

e eu aqui, sonho acordado.

26.4.06

noite de outono

eles se abraçam, deitados na cama... as sensações do gozo do sexo ainda a correr por seus corpos, como eletricidade.

o barulho da chuva batendo na janela é a trilha sonora dos dois...

ele a beija e faz carinho nos cabelos desarrumados dela, que insistem em cair sobre os olhos. ela sorri para ele, tentando descobrir o que se passa por trás do seu olhar.

ela se sente protegida...

ela que sempre disse que amor e sexo são coisas separadas. ela que acreditara que amor era coisa de filmes, de poemas piegas feitos para adolescentes, agora procurava nos mesmos poemas as palavras pra descrever o que sentia.

ele que acreditava que não ia amar nunca mais. ele que disse a si mesmo que o amor era algo distante, que não podia mais ser sentido, se encontrava entregue.

eles trocam palavras, promessas e sorrisos. as pernas enrroscadas, como o destino que os dois acreditavam não haver.

ele diz a ela:

"boa noite, amor"

ela responde com um sorriso de menina, se aninhando mais nos braços dele.

a chuva bate na janela... nas sombras, dois amantes dormem e sonham juntos.

22.4.06

que vontade de andar sob o frio do inverno.

o mundo faz muito mais sentido pra mim, no inverno...
eu não sei como ser uma pessoa.

é fato.

comprovado.

alguém ainda virá um dia, recolher a peça defeituosa.
ele toca uma flor que então queima com uma chama de coloração azul.

ele sente o calor e seus olhos lacrimejam, mas ele não consegue afastar o olhar.

urca

eles bebem os últimos goles do cabernet... conheceram-se poucos dias atrás, mas ele sente que ela já estava de alguma maneira na vida dele há tempos.
a noite de outono estava amena, mas um vento mais frio começava a soprar, fazendo as ondas chegarem mais perto deles.

eles riem, contando histórias sobre suas vidas. ela fala dos problemas com namorados. ele fala da falta de perspectiva dele com relacionamentos.

a lua brilha, criando sombras sob uma luz pálida.

eles terminam o vinho e decidem caminhar na areia. ele conta para ela sobre o fascínio dele sobre o mar. ela sorri, porque lembra que gosta muito da urca, do anoitecer ali e da visão do mar e da montanha.

ela se senta na areia e olha para ele com olhos de criança. ele sorri e senta ao lado dela, meio tonto com o álcool.

não sabem direito como foram parar ali... não se lembram de como chegaram, de como se conheceram. lembram-se só que estão sentados na areia, ouvindo o som de ondas e sentindo o vento balançar os cabelos.

ela encosta-se no ombro dele em silêncio. ele toca-lhe os cabelos. ela brinca, falando que gosta do carinho. ele olha para os olhos dela, cheios de uma vida que pulsa intensa e clara, aos brilhos da lua.

ela adormece, com a cabeça encostada no ombro dele.

ele olha o mar, não desejando nada mais no mundo.

18.4.06

gasoline

i am gasoline and matches
i turn everything to ashes

i am gasoline and matches
i turn everything to ashes
i'm burning, i'm learning
i'm learning, yes, i'm learning

i give kerosene divorces
i light angel wings with torches

i give kerosene divorces
i light angel wings with torches

i'm burning, i'm learning
i'm learning, yes, i'm learning

life is good because i'm breathing
hell is just a stage of grieving
you're an evil human being
sorry if that hurt your feelings

i'm burning, but i'm learning
i am gasoline, i am history
i am gasoline, i am gone

kicking harold - gasoline