28.3.05

ok... vamos ver se eu entendi direito...

eu tenho que trabalhar, para comprar coisas que na maioria das vezes nem preciso direito, somente para manter o emprego de outras pessoas, que precisam comprar mais coisas desnecessárias, para manter o emprego de outras pessoas...

e dizem que isso é perfeitamente normal?

ok... alguém sabe onde é a adminitração desse hospício??? eu gostaria muito de conversar com o responsável, por aqui...
ok...

uma noite, vá para um local afastado da cidade... se for alto, melhor ainda...

quando chegar, escolha um lugar legal e deite-se, olhando para o céu...

olhe bem para as estrelas... observe bem tudo o que vc consegue enxergar...

eu consegui concluir rapidamente duas coisas, quando olhei para isso, da primeira vez:

1. se nós formos a única espécie inteligente, em toda essa imensidão, alguém está desperdiçando muito espaço...

2. eu deixei de acreditar que lá em cima, em algum lugar, existisse um velhinho de barba longa, sentado numa cadeira e que estivesse olhando cada um, somente para nos julgar quando nós tivermos morrido...

23.3.05

eu sou uma colcha de retalhos

e parece que os retalhos estão sempre se soltando...

então de vez em quando tenho que parar e começar a me costurar...

20.3.05

tommy imaginava que tinha uma aranha, dentro da sua cabeça...

ela era muito pequena... por isso ninguém percebia...

todo dia ela tecia e tecia sua teia de seda...

era nela que os pensamentos de tommy ficavam guardados...

ele imaginava os pensamentos como pequenas moscas, voando dentro da sua cabeça...

até que eles caiam na pequena teia...

alguns fugiam... e essas eram as coisas que tommy acabava esquecendo... (como quando a sua mãe gritava para ele não esquecer de levar o agasalho quando saia para brincar)

tommy nunca viu realmente a aranha...

mas ele sabia que ela estava lá...

pois ele continuava aprendendo e aprendendo coisas...

alguém

alguém aí a fim de montar uma banda??????????

19.3.05

alice and the cat

estou sozinha... não há ninguém, não vejo nada...

a não ser aquele sorriso...

e o par de olhos...

olhando de volta para mim.

...

listen this silence...
this silence is the sound of a scream for help, if you know where to look...

17.3.05

memento mori

remember that you will die...

cenas de uma noite qualquer

olho para a janela do ônibus, vendo a paisagem fugir de mim. meus pensamentos se perdem, ao observar todos aqueles lugares familiares.
ouço o som ocasional de uma tosse... um casal conversa no banco atrás de mim, sobre os planos para um aniversário...
penso no meu próprio aniversário que chega... lembro de mais um ano que passa por entre meus olhos. o que eu fiz? o que realmente importou, nesse último ano?
por que me sinto sempre melancólico, quando volto para casa? por que acho no fundo de minha alma que está tudo errado, que tudo deveria ser diferente?
por que me sinto tão diferente?
"você pode fazer o que quiser... basta querer e você consegue!"
palavras... imagino o grupo seleto de pessoas que fizeram tudo o que quiseram... acho que consigo contá-los com os dedos de uma só mão.
eu olho novamente em volta, em busca de um olhar que cruze o meu... que indague... que procure... que questione...
mas é em vão...

eu penso demais... eu quero demais...

eu sou a lenda

eu caminho por entre eles.
durante o dia, me torno um deles.
seus hábitos, suas maneiras,
eles não suspeitam de mim.

não acreditam em minha existência.
sou uma lenda,
uma história para crianças,
sou a sombra de um passado mítico.

mas ainda assim, eles sentem minha existência,
escrevem livros sobre mim,
fazem filmes.
eu caminho por suas mentes, nas horas escuras.

eu espreito em cada curva de suas mentes,
me fortaleço do medo em suas almas,
eles me ouvem sussurrar junto aos seus ouvidos,
eles fogem de mim em seus sonhos.

pois eu sou a morte,
eu sou o assassino,
seu predador,
o pastor que oferece a ovelha em sacrifício ao seu deus.

e eu sou meu deus...

11.3.05

little one

a menina senta-se na janela de seu quarto, todas as noites, apesar dos protestos de sua mãe...

ela observa o céu, por um tempo que parece enorme para ela, até que seus pequenos olhos não aguentam mais e ela cai no sono. sua mãe a pega e leva para a cama e lhe dá o beijo de boa noite... assim é todas as noites...

mas naquela noite, a menina percebe uma coisa diferente... uma das estrelas precipitava-se do céu...

ela arregala os olhos, e pede à estrela um desejo...

os anos se passam e a menina cresce... e o desejo é esquecido...

a sua vida é boa... mas ela reclama sempre com as amigas da filha, que insiste em ficar horas olhando para as estrelas, toda noite, até que cai no sono e deixa para ela a tarefa de colocá-la para dormir...

sunrise

ele olha para o tom avermelhado no horizonte e uma pequena excitação percorre seu corpo.

os primeiros raios dourados irrompem à distância e o homem sente alguma coisa, como se alguém estivesse brincando dentro de seu estômago.

quando sente os raios tocando-lhe o corpo ele estende os braços, desejando que o calor o consuma...

mas ele continua ali...

e mais um dia nasce...

memento mori

como uma pessoa que tem a auto-estima mais do que baixa, fica se achando muito bom em um monte de coisas???

algumas vezes eu não consigo conviver comigo... minha alma é uma colcha de retalhos de sentimentos e desejos tão grande e tão diversificada que algumas vezes eu realmente nem sei direito o que estou pensando...

,,,

eu quero fazer a minha tattoo!!!

10.3.05

o calor

o calor consome o pouco de criatividade que ainda habita o meu corpo... alguém aí sabe onde ligo o ar condicionado???

se eu mandasse por aqui, ia mandar pelo menos um mês com neve por ano... (sorriso)

the quest

eu sinto, lá no fundo, bem no fundo, que existe alguma coisa reservada para mim, em algum lugar... só acho uma grande piada dos deuses que eu não encontre muitos indícios de onde ou do que seja essa coisa...

e eu continuo buscando...

7.3.05

eterno regresso

encontro-me novamente a escrever, por essas paragens... não sei ainda muito bem sobre o que falar... acho que o que me faz voltar para cá é um pouco a solidão momentânea da noite... o tédio... tudo junto...

mas voltar a escrever sempre é bom... e, se alguém puder ler e entender e se sentir um pouquinho como eu, acho que vai ter valido a pena...

(momento totalmente piegas, mas enfim... regressos trazem sentimentos assim, mesmo)

13.2.05

distimia

trata-se de uma maneira de sentir a realidade com tonalidade afetiva depressiva e melancólica sem que, necessariamente, seja considerado uma doença franca continuada. portanto, não há aqui um severo prejuízo das qualidades de vida social ou ocupacional em um grau suficiente para atribuir um caráter patológico, mas a depressão aparece como uma característica existencial dessas pessoas. hoje, a denominação mais correta para esta afetividade depressiva solidamente atrelada à personalidade e sem características limitantes da vida é o chamado transtorno afetivo persisistente do tipo distimia.
conceitualmente entende-se como distimia uma depressão crônica, com sintomatologia não suficientemente grave para podermos classificá-la como transtorno depressivo recorrente.
a característica essencial do transtorno distímico é um humor cronicamente deprimido. na distimia as pessoas se auto-definem como tristes ou "na fossa". em crianças e em alguns adolescentes o humor, originariamente deprimido, pode ser irritável, rebelde ou opositor.



estudos naturalísticos mostram que o comprometimento do funcionamento social e ocupacional da distimia é maior do que o dos episódios depressivos.

26.1.05

Um Artista da Fome

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome; diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida do relógio - tão importante para ele a única peça que decorava a jaula - mas fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.

Além dos espectadores que se revesavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público - em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranquilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra da sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes: eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas que era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir no jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. À luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com qualquer desses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles - tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas.

Isso no entanto já fazia parte das suspeitas inerentes à profissão do artista da fome. Ninguém estava em condições de passar todos os dias e noites ininterruptamente a seu lado como vigilante, portanto ninguém era capaz de saber, por observação pessoal, se o jejum fora realmente mantido sem falha e interrupção; só o artista podia saber isso e ser o espectador totalmente satisfeito do próprio jejum. Entretanto ele nunca estava satisfeito por outro motivo: talvez não fosse em virtude do jejum que estivesse tão magro - a tal ponto que muitos, lamentando-se por causa disso, tinham que se afastar das apresentações porque não conseguiam suportar aquela visão - mas sim em virtude da insatisfação consigo mesmo. É que só ele sabia - só ele e nenhum outro iniciado - como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele; no melhor dos casos consideravam-no modesto, no geral porém um faroleiro ou simples farsante, para quem o jejum era fácil porque ele conhecia a maneira de torná-lo fácil e ainda por cima tinha o topete de o admitir só pela metade. Ele era obrigado admitir tudo isso, mas no correr dos anos se acostumou; no entanto a insatisfação o roía por dentro e nem uma única vez, depois de qualquer período de fome - tinham de conceder-lhe esse crédito - deixara espontaneamente a jaula. O empresário havia fixado em quarenta dias o prazo máximo de jejum, acima disso ele nunca deixava jejuar nem nas grandes cidades do mundo - e isso por um bom motivo. A experiência mostrava que durante quarenta dias era possível espicaçar o interesse ativado gradativamente, mas depois disso o público falhava e se podia verificar uma redução substancial da assistência; naturalmente existiam neste ponto pequenas diferenças segundo as cidades e os países, mas como regra quarenta dias eram o período máximo. Sendo assim, no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma platéia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. E neste momento o artista da fome sempre resistia. Na verdade colocava voluntariamente os braços ossudos nas mãos das jovens que se curvavam sobre ele, mas não queria se levantar. Por que parar justamente agora, depois de quarenta dias? Ele poderia aguentar ainda muito tempo, um tempo ilimitado; por que suspender agora, quando estava no melhor, isto é, ainda não estava no melhor do jejum? Por que queriam privá-lo da glória de continuar sem comer, de se tornar não só o maior jejuador de todos os tempos - coisa que provavelmente já era - e também se superar a si mesmo até o inconcebível, uma vez que não sentia limites para a sua capacidade de passar fome? Por que essa multidão, que fingia admirá-lo tanto, tinha tão pouca paciência com ele? Se ele aguentava continuar jejuando, porque ela não suportava isso? Além do mais ele estava cansado, bem assentado sobre a palha e devia endireitar o corpo todo e caminhar até a comida: só de pensar nela sentia náuseas, cuja exteriorização porém ele reprimia a custo só em consideração às damas. E erguia a vista para os olhos das moças na aparência tão amáveis, mas na verdade tão cruéis e balançava a cabeça excessivamente pesada sobre o pescoço fraco. Mas então acontecia o mesmo de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra - a música tornava qualquer discurso impossível - levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu à contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão - que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente; agarrava-o pela cintura delgada, com um cuidado exagerado, como se quisesse fazer acreditar que tinha de lidar aqui com uma coisa muito quebradiça e - não sem sacudi-lo um pouco às escondidas, de tal forma que o artista da fome balançava descontrolado de um lado para o outro com as pernas e o tronco - entregava-o às jovens que nesse ínterim tinham ficado mortalmente pálidas. Aí então o jejuador tolerava tudo: a cabeça caía sobre o peito, como se tivesse rolado para lá e ficasse ali sem explicação; o corpo estava esvaziado; as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão como se ele não fosse o verdadeiro - estes elas ainda procuravam; e o peso inteiro do corpo, embora bem pequeno, recaía sobre uma das damas que, buscando ajuda, com o fôlego entrecortado - não tinha imaginado desse jeito a missão honorífica - esticava o mais que podia o pescoço para livrar pelo menos o rosto do contato com o artista da fome. Mas depois, como não o conseguisse e a companheira mais feliz que ela, não ia em seu socorro - contentando-se em transportar, trêmula, a mão do jejuador, esse pequeno feixe de ossos, sob o riso delicado da sala - rompia no choro e precisa ser substituída por um criado há muito tempo preparado para isso. Em seguida vinha a refeição, na qual o empresário fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sonho de desmaio em meio a uma conversa divertida que devia desviar a atenção do estado do artista; depois era erguido um brinde ao público, supostamente soprado pelo jejuador ao empresário; a orquestra reforçava tudo com uma grande fanfarra, as pessoas se dispersavam e ninguém tinha o direito de ficar insatisfeito com o acontecimento - ninguém a não ser o artista da fome, só ele, sempre.

Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério. Aliás, com o que poderia ser consolado? O que lhe restava desejar? E se alguma vez uma pessoa bem-intencionista se compadecia dele e queria lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer - em especial no estágio avançado do jejum - que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos. Mas para esses estados o empresário dispunha de um castigo que gostava de aplicar. Desculpava o artista perante o público reunido, admitia que só a irritabilidade provocada pelo jejum - facilmente compreensível por pessoas bem alimentadas - tornava perdoável o comportamento do jejuador; nesse contexto acabava se referindo também à afirmação do artista da fome - igualmente merecedora de um esclarecimento - de que poderia jejuar muito mais ainda do que jejuava; elogiava a elevada ambição, a boa vontade, a grande negação de si mesmo que sem dúvida estavam contidas nessa afirmação, mas depois procurava refutá-la, pura e simplesmente, mostrando fotografias - que eram vendidas naquela hora - pois na imagem se via o artista da fome, no quadragésimo dia de jejum, quase extinto de inanição. Essa distorção da verdade, de resto bem conhecida, mas sempre enervante, era demais para o jejuador. O que era consequência do encerramento prematuro do jejum se apresentava aqui como sua causa! Era impossível lutar contra essa incompreensão, contra esse mundo de insensatez. Embora sempre tivesse ouvido de boa fé o empresário, quando as fotografias apareciam ele largava das grades da janela, às quais estivera ansiosamente grudado, e afundava outra vez na palha, soluçando; e então o público, acalmado, podia aproximar-se e examiná-lo.

Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos. O empresário percorreu novamente com ele meia Europa para ver se aqui e ali não se reencontrava o antigo interesse; tudo inútil; como se fosse por um acordo secreto, em toda parte havia se estabelecido uma repulsa contra o espetáculo da fome. É evidente que na realidade isso não poderia ter sucedido de repente e recordava-se agora, com atraso, de muitos presságios que na época da embriaguez do triunfo não tinham sido suficientemente respeitados, nem suficientemente reprimidos; mas agora já era tarde demais para fazer alguma coisa. Certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam, mas para os que viviam naquela época isso não era um consolo. O que o artista da fome podia então fazer? Quem tinha sido aclamado por milhares de pessoas não podia exibir-se em barracas nas pequenas feiras, e para adotar outra profissão o artista estava não só muito velho, mas sobretudo entregue com demasiado fanatismo ao jejum. Sendo assim, demitiu o empresário, companheiro de uma carreira incomparável, e se empregou num grande circo; para poupar a própria suscetibilidade, nem olhou as condições do contrato.

Um grande circo, com seus inúmero homens, animais e aparelhos que sem cessar se recompõem e se completam, pode utilizar qualquer um a qualquer hora, mesmo um artista da fome - naturalmente se as pretensões dele forem modestas; além disso, neste caso particular não era apenas o próprio jejuador a ser engajado, mas também o seu nome antigo e famoso; de fato não se podia dizer, dada a peculiaridade da sua arte - que com o avanço da sua idade não diminuía - que o veterano artista, passado o auge da sua capacidade, queria se refugiar num posto tranquilo do circo; pelo contrário, o artista da fome garantia que jejuava tão bem quanto antes, o que era perfeitamente digno de fé; afirmavam até que, se o deixassem fazer sua vontade - e isso lhe prometeram logo - desta vez ia encher o mundo de justificado espanto; uma declaração, contudo, que só provocou um sorriso nos especialistas, cientes do espírito da época que, no seu zelo, o artista da fome facilmente esquecia.

Mas no fundo o jejuador também não deixou de perceber as condições reais e considerou natural que ele não fosse colocado com sua jaula como número de destaque, no centro do picadeiro, mas sim fora, num lugar aliás bastante acessível, situado perto dos estábulos. Cartazes grandes e coloridos emolduravam a jaula e anunciavam o que podia ser visto nela. Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; talvez permanecessem ali por mais tempo se a multidão que vinha atrás, sem entender aquela parada no meio do caminho aos estábulos, não tornasse impossível uma observação mais prolongada e tranquila. Esse também era o motivo pelo qual o jejuador tremia ao pensar naquelas horas de visita, que ele naturalmente desejava como meta na sua vida. Nos primeiros tempos mal podia esperar os intervalos entre as apresentações; encantado, dirigia o olhar para a multidão que se aproximava, até que logo, - nem mesmo o auto-engano mais pertinaz e quase consciente resistia às experiências - se convenceu de que o objetivo daquelas pessoas era sempre, sem exceção, visitar os estábulos. O mais belo continuava sendo essa visão à distância. Pois assim que os visitantes se aproximavam dele, ensurdeciam-no os gritos e xingamentos dos dois partidos que sem cessar se formavam - o daqueles que queriam vê-lo confortavelmente (tornou-se em breve o mais penoso para o artista da fome), não por compreensão, mas por capricho e teimosia; e o daqueles que queriam ir diretamente às estrebarias. Passada a grande turba, chegavam os retardatários, mas mesmo estes, a quem nada mais impedia de ficar ali quanto tempo quisessem, apertavam o passo e iam direto, quase sem olhar para o lado, a fim de chegar em tempo de ver os animais. E não era um acaso muito frequente que um pai de família viesse com seus filhos, apontasse o dedo para o jejuador, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas dos anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e as crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender - o que significava para elas passar fome? - mas traíam no brilho dos seus olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. Talvez - dizia às vezes o jejuador a si mesmo - tudo melhorasse um pouco, se o local da sua exibição não estivesse tão perto dos estábulos. Então a escolha seria mais fácil para as pessoas, sem falar que as exalações das estrebarias, a inquietação dos animais à noite, o transporte dos pedaços de carne crua para as feras, os rugidos durante a alimentação, o feriam e deprimiam constantemente. Mas ele não ousava comunicar aquilo à direção; pois ainda assim agradecia aos animais a multidão de visitantes, entre os quais se podia encontrar aqui e ali algum destinado a ele. Como saber em que lugar se esconderiam se ele quisesse lembrar aos outros sua existência e com isso - pensando bem - que era apenas um obstáculo no caminho aos estábulos?

De qualquer forma um pequeno obstáculo, um estorvo que se tornava cada vez menor. As pessoas acostumavam-se à estranheza de se querer chamar a atenção para um artista da fome nos tempos atuais e esse hábito lavrava a sentença contra ele. O jejuador podia jejuar tão bem quanto quisesse - e ele o fazia - mas nada mais podia salvá-lo: passavam reto por ele. Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente. Os belos cartazes ficaram sujos e ilegíveis, foram arrancados, não ocorreu a ninguém substituí-los; a pequena tabela com os números dos dias de jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente renovada, continuava a mesma há muito tempo, pois após as primeiras semanas os próprios funcionários não quiseram mais se dar nem a este pequeno trabalho; assim o artista da fome continuou jejuando como um dia sonhara, e isso não apresentava nenhum grande esforço para ele, tal como havia previsto. Mas ninguém contava os dias, ninguém, nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado. E quando certa vez, nesse tempo, um ocioso se deteve diante da jaula, escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude - ele trabalhava honestamente - mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.

Passaram-se ainda muitos dias e até isso chegou ao fim. Certa vez um inspetor notou a jaula e perguntou aos serventes por que deixavam sem aquela peça perfeitamente aproveitável com palha apodrecida dentro; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, se lembrou do artista da fome. Levantaram a palha com ancinhos e encontraram nela o jejuador.

- Você continua jejuando? - perguntou o inspetor - Afinal quando vai parar?

- Peço desculpas a todos - sussurrou o artista da fome; só o inspetor, que estava com o ouvido colado às grades, o entendia.

- Sem dúvida - disse o inspetor, colocando o dedo na testa, para indicar aos funcionários, com isso, o estado mental do jejuador - Nós o perdoamos.

- Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum - disse o artista da fome.

- Nós admiramos - retrucou o inspetor. - Por que é que não deveríamos admirar?

- Por que eu preciso jejuar, não posso evitá-lo - disse o artista da fome.

- Bem se vê - disse o inspetor. - E por que não pode evitá-lo? - Porque eu - disse o jejuador, levantando um pouco a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. - Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.

Estas foram suas últimas palavras, mas nos seu olhos embaciados persistia a convicção firme, embora não mais orgulhosa, de que continuava jejuando.

- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha.

Mas na jaula puseram uma jovem pantera.Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.

Franz Kafka
Tradução de Modesto Carone

23.1.05

the masque of the red death

prospero: that cross you wear around your neck; is it only a decoration, or are you a true christian believer?
francesca: yes, i believe - truly.
prospero: then i want you to remove it at once! and never to wear it within this castle again! do you know how a falcon is trained my dear? her eyes are sown shut. blinded temporarily she suffers the whims of her god patiently, until her will is submerged and she learns to serve - as your god taught and blinded you with crosses.