11.3.05
little one
ela observa o céu, por um tempo que parece enorme para ela, até que seus pequenos olhos não aguentam mais e ela cai no sono. sua mãe a pega e leva para a cama e lhe dá o beijo de boa noite... assim é todas as noites...
mas naquela noite, a menina percebe uma coisa diferente... uma das estrelas precipitava-se do céu...
ela arregala os olhos, e pede à estrela um desejo...
os anos se passam e a menina cresce... e o desejo é esquecido...
a sua vida é boa... mas ela reclama sempre com as amigas da filha, que insiste em ficar horas olhando para as estrelas, toda noite, até que cai no sono e deixa para ela a tarefa de colocá-la para dormir...
sunrise
os primeiros raios dourados irrompem à distância e o homem sente alguma coisa, como se alguém estivesse brincando dentro de seu estômago.
quando sente os raios tocando-lhe o corpo ele estende os braços, desejando que o calor o consuma...
mas ele continua ali...
e mais um dia nasce...
memento mori
algumas vezes eu não consigo conviver comigo... minha alma é uma colcha de retalhos de sentimentos e desejos tão grande e tão diversificada que algumas vezes eu realmente nem sei direito o que estou pensando...
10.3.05
o calor
se eu mandasse por aqui, ia mandar pelo menos um mês com neve por ano... (sorriso)
the quest
e eu continuo buscando...
7.3.05
eterno regresso
mas voltar a escrever sempre é bom... e, se alguém puder ler e entender e se sentir um pouquinho como eu, acho que vai ter valido a pena...
(momento totalmente piegas, mas enfim... regressos trazem sentimentos assim, mesmo)
13.2.05
distimia
trata-se de uma maneira de sentir a realidade com tonalidade afetiva depressiva e melancólica sem que, necessariamente, seja considerado uma doença franca continuada. portanto, não há aqui um severo prejuízo das qualidades de vida social ou ocupacional em um grau suficiente para atribuir um caráter patológico, mas a depressão aparece como uma característica existencial dessas pessoas. hoje, a denominação mais correta para esta afetividade depressiva solidamente atrelada à personalidade e sem características limitantes da vida é o chamado transtorno afetivo persisistente do tipo distimia.
conceitualmente entende-se como distimia uma depressão crônica, com sintomatologia não suficientemente grave para podermos classificá-la como transtorno depressivo recorrente.
a característica essencial do transtorno distímico é um humor cronicamente deprimido. na distimia as pessoas se auto-definem como tristes ou "na fossa". em crianças e em alguns adolescentes o humor, originariamente deprimido, pode ser irritável, rebelde ou opositor.
estudos naturalísticos mostram que o comprometimento do funcionamento social e ocupacional da distimia é maior do que o dos episódios depressivos.
26.1.05
Um Artista da Fome
Além dos espectadores que se revesavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público - em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranquilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra da sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes: eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas que era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir no jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. À luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com qualquer desses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles - tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas.
Isso no entanto já fazia parte das suspeitas inerentes à profissão do artista da fome. Ninguém estava em condições de passar todos os dias e noites ininterruptamente a seu lado como vigilante, portanto ninguém era capaz de saber, por observação pessoal, se o jejum fora realmente mantido sem falha e interrupção; só o artista podia saber isso e ser o espectador totalmente satisfeito do próprio jejum. Entretanto ele nunca estava satisfeito por outro motivo: talvez não fosse em virtude do jejum que estivesse tão magro - a tal ponto que muitos, lamentando-se por causa disso, tinham que se afastar das apresentações porque não conseguiam suportar aquela visão - mas sim em virtude da insatisfação consigo mesmo. É que só ele sabia - só ele e nenhum outro iniciado - como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele; no melhor dos casos consideravam-no modesto, no geral porém um faroleiro ou simples farsante, para quem o jejum era fácil porque ele conhecia a maneira de torná-lo fácil e ainda por cima tinha o topete de o admitir só pela metade. Ele era obrigado admitir tudo isso, mas no correr dos anos se acostumou; no entanto a insatisfação o roía por dentro e nem uma única vez, depois de qualquer período de fome - tinham de conceder-lhe esse crédito - deixara espontaneamente a jaula. O empresário havia fixado em quarenta dias o prazo máximo de jejum, acima disso ele nunca deixava jejuar nem nas grandes cidades do mundo - e isso por um bom motivo. A experiência mostrava que durante quarenta dias era possível espicaçar o interesse ativado gradativamente, mas depois disso o público falhava e se podia verificar uma redução substancial da assistência; naturalmente existiam neste ponto pequenas diferenças segundo as cidades e os países, mas como regra quarenta dias eram o período máximo. Sendo assim, no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma platéia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. E neste momento o artista da fome sempre resistia. Na verdade colocava voluntariamente os braços ossudos nas mãos das jovens que se curvavam sobre ele, mas não queria se levantar. Por que parar justamente agora, depois de quarenta dias? Ele poderia aguentar ainda muito tempo, um tempo ilimitado; por que suspender agora, quando estava no melhor, isto é, ainda não estava no melhor do jejum? Por que queriam privá-lo da glória de continuar sem comer, de se tornar não só o maior jejuador de todos os tempos - coisa que provavelmente já era - e também se superar a si mesmo até o inconcebível, uma vez que não sentia limites para a sua capacidade de passar fome? Por que essa multidão, que fingia admirá-lo tanto, tinha tão pouca paciência com ele? Se ele aguentava continuar jejuando, porque ela não suportava isso? Além do mais ele estava cansado, bem assentado sobre a palha e devia endireitar o corpo todo e caminhar até a comida: só de pensar nela sentia náuseas, cuja exteriorização porém ele reprimia a custo só em consideração às damas. E erguia a vista para os olhos das moças na aparência tão amáveis, mas na verdade tão cruéis e balançava a cabeça excessivamente pesada sobre o pescoço fraco. Mas então acontecia o mesmo de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra - a música tornava qualquer discurso impossível - levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu à contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão - que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente; agarrava-o pela cintura delgada, com um cuidado exagerado, como se quisesse fazer acreditar que tinha de lidar aqui com uma coisa muito quebradiça e - não sem sacudi-lo um pouco às escondidas, de tal forma que o artista da fome balançava descontrolado de um lado para o outro com as pernas e o tronco - entregava-o às jovens que nesse ínterim tinham ficado mortalmente pálidas. Aí então o jejuador tolerava tudo: a cabeça caía sobre o peito, como se tivesse rolado para lá e ficasse ali sem explicação; o corpo estava esvaziado; as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão como se ele não fosse o verdadeiro - estes elas ainda procuravam; e o peso inteiro do corpo, embora bem pequeno, recaía sobre uma das damas que, buscando ajuda, com o fôlego entrecortado - não tinha imaginado desse jeito a missão honorífica - esticava o mais que podia o pescoço para livrar pelo menos o rosto do contato com o artista da fome. Mas depois, como não o conseguisse e a companheira mais feliz que ela, não ia em seu socorro - contentando-se em transportar, trêmula, a mão do jejuador, esse pequeno feixe de ossos, sob o riso delicado da sala - rompia no choro e precisa ser substituída por um criado há muito tempo preparado para isso. Em seguida vinha a refeição, na qual o empresário fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sonho de desmaio em meio a uma conversa divertida que devia desviar a atenção do estado do artista; depois era erguido um brinde ao público, supostamente soprado pelo jejuador ao empresário; a orquestra reforçava tudo com uma grande fanfarra, as pessoas se dispersavam e ninguém tinha o direito de ficar insatisfeito com o acontecimento - ninguém a não ser o artista da fome, só ele, sempre.
Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério. Aliás, com o que poderia ser consolado? O que lhe restava desejar? E se alguma vez uma pessoa bem-intencionista se compadecia dele e queria lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer - em especial no estágio avançado do jejum - que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos. Mas para esses estados o empresário dispunha de um castigo que gostava de aplicar. Desculpava o artista perante o público reunido, admitia que só a irritabilidade provocada pelo jejum - facilmente compreensível por pessoas bem alimentadas - tornava perdoável o comportamento do jejuador; nesse contexto acabava se referindo também à afirmação do artista da fome - igualmente merecedora de um esclarecimento - de que poderia jejuar muito mais ainda do que jejuava; elogiava a elevada ambição, a boa vontade, a grande negação de si mesmo que sem dúvida estavam contidas nessa afirmação, mas depois procurava refutá-la, pura e simplesmente, mostrando fotografias - que eram vendidas naquela hora - pois na imagem se via o artista da fome, no quadragésimo dia de jejum, quase extinto de inanição. Essa distorção da verdade, de resto bem conhecida, mas sempre enervante, era demais para o jejuador. O que era consequência do encerramento prematuro do jejum se apresentava aqui como sua causa! Era impossível lutar contra essa incompreensão, contra esse mundo de insensatez. Embora sempre tivesse ouvido de boa fé o empresário, quando as fotografias apareciam ele largava das grades da janela, às quais estivera ansiosamente grudado, e afundava outra vez na palha, soluçando; e então o público, acalmado, podia aproximar-se e examiná-lo.
Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos. O empresário percorreu novamente com ele meia Europa para ver se aqui e ali não se reencontrava o antigo interesse; tudo inútil; como se fosse por um acordo secreto, em toda parte havia se estabelecido uma repulsa contra o espetáculo da fome. É evidente que na realidade isso não poderia ter sucedido de repente e recordava-se agora, com atraso, de muitos presságios que na época da embriaguez do triunfo não tinham sido suficientemente respeitados, nem suficientemente reprimidos; mas agora já era tarde demais para fazer alguma coisa. Certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam, mas para os que viviam naquela época isso não era um consolo. O que o artista da fome podia então fazer? Quem tinha sido aclamado por milhares de pessoas não podia exibir-se em barracas nas pequenas feiras, e para adotar outra profissão o artista estava não só muito velho, mas sobretudo entregue com demasiado fanatismo ao jejum. Sendo assim, demitiu o empresário, companheiro de uma carreira incomparável, e se empregou num grande circo; para poupar a própria suscetibilidade, nem olhou as condições do contrato.
Um grande circo, com seus inúmero homens, animais e aparelhos que sem cessar se recompõem e se completam, pode utilizar qualquer um a qualquer hora, mesmo um artista da fome - naturalmente se as pretensões dele forem modestas; além disso, neste caso particular não era apenas o próprio jejuador a ser engajado, mas também o seu nome antigo e famoso; de fato não se podia dizer, dada a peculiaridade da sua arte - que com o avanço da sua idade não diminuía - que o veterano artista, passado o auge da sua capacidade, queria se refugiar num posto tranquilo do circo; pelo contrário, o artista da fome garantia que jejuava tão bem quanto antes, o que era perfeitamente digno de fé; afirmavam até que, se o deixassem fazer sua vontade - e isso lhe prometeram logo - desta vez ia encher o mundo de justificado espanto; uma declaração, contudo, que só provocou um sorriso nos especialistas, cientes do espírito da época que, no seu zelo, o artista da fome facilmente esquecia.
Mas no fundo o jejuador também não deixou de perceber as condições reais e considerou natural que ele não fosse colocado com sua jaula como número de destaque, no centro do picadeiro, mas sim fora, num lugar aliás bastante acessível, situado perto dos estábulos. Cartazes grandes e coloridos emolduravam a jaula e anunciavam o que podia ser visto nela. Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; talvez permanecessem ali por mais tempo se a multidão que vinha atrás, sem entender aquela parada no meio do caminho aos estábulos, não tornasse impossível uma observação mais prolongada e tranquila. Esse também era o motivo pelo qual o jejuador tremia ao pensar naquelas horas de visita, que ele naturalmente desejava como meta na sua vida. Nos primeiros tempos mal podia esperar os intervalos entre as apresentações; encantado, dirigia o olhar para a multidão que se aproximava, até que logo, - nem mesmo o auto-engano mais pertinaz e quase consciente resistia às experiências - se convenceu de que o objetivo daquelas pessoas era sempre, sem exceção, visitar os estábulos. O mais belo continuava sendo essa visão à distância. Pois assim que os visitantes se aproximavam dele, ensurdeciam-no os gritos e xingamentos dos dois partidos que sem cessar se formavam - o daqueles que queriam vê-lo confortavelmente (tornou-se em breve o mais penoso para o artista da fome), não por compreensão, mas por capricho e teimosia; e o daqueles que queriam ir diretamente às estrebarias. Passada a grande turba, chegavam os retardatários, mas mesmo estes, a quem nada mais impedia de ficar ali quanto tempo quisessem, apertavam o passo e iam direto, quase sem olhar para o lado, a fim de chegar em tempo de ver os animais. E não era um acaso muito frequente que um pai de família viesse com seus filhos, apontasse o dedo para o jejuador, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas dos anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e as crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender - o que significava para elas passar fome? - mas traíam no brilho dos seus olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. Talvez - dizia às vezes o jejuador a si mesmo - tudo melhorasse um pouco, se o local da sua exibição não estivesse tão perto dos estábulos. Então a escolha seria mais fácil para as pessoas, sem falar que as exalações das estrebarias, a inquietação dos animais à noite, o transporte dos pedaços de carne crua para as feras, os rugidos durante a alimentação, o feriam e deprimiam constantemente. Mas ele não ousava comunicar aquilo à direção; pois ainda assim agradecia aos animais a multidão de visitantes, entre os quais se podia encontrar aqui e ali algum destinado a ele. Como saber em que lugar se esconderiam se ele quisesse lembrar aos outros sua existência e com isso - pensando bem - que era apenas um obstáculo no caminho aos estábulos?
De qualquer forma um pequeno obstáculo, um estorvo que se tornava cada vez menor. As pessoas acostumavam-se à estranheza de se querer chamar a atenção para um artista da fome nos tempos atuais e esse hábito lavrava a sentença contra ele. O jejuador podia jejuar tão bem quanto quisesse - e ele o fazia - mas nada mais podia salvá-lo: passavam reto por ele. Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente. Os belos cartazes ficaram sujos e ilegíveis, foram arrancados, não ocorreu a ninguém substituí-los; a pequena tabela com os números dos dias de jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente renovada, continuava a mesma há muito tempo, pois após as primeiras semanas os próprios funcionários não quiseram mais se dar nem a este pequeno trabalho; assim o artista da fome continuou jejuando como um dia sonhara, e isso não apresentava nenhum grande esforço para ele, tal como havia previsto. Mas ninguém contava os dias, ninguém, nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado. E quando certa vez, nesse tempo, um ocioso se deteve diante da jaula, escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude - ele trabalhava honestamente - mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.
Passaram-se ainda muitos dias e até isso chegou ao fim. Certa vez um inspetor notou a jaula e perguntou aos serventes por que deixavam sem aquela peça perfeitamente aproveitável com palha apodrecida dentro; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, se lembrou do artista da fome. Levantaram a palha com ancinhos e encontraram nela o jejuador.
- Você continua jejuando? - perguntou o inspetor - Afinal quando vai parar?
- Peço desculpas a todos - sussurrou o artista da fome; só o inspetor, que estava com o ouvido colado às grades, o entendia.
- Sem dúvida - disse o inspetor, colocando o dedo na testa, para indicar aos funcionários, com isso, o estado mental do jejuador - Nós o perdoamos.
- Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum - disse o artista da fome.
- Nós admiramos - retrucou o inspetor. - Por que é que não deveríamos admirar?
- Por que eu preciso jejuar, não posso evitá-lo - disse o artista da fome.
- Bem se vê - disse o inspetor. - E por que não pode evitá-lo? - Porque eu - disse o jejuador, levantando um pouco a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. - Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.
Estas foram suas últimas palavras, mas nos seu olhos embaciados persistia a convicção firme, embora não mais orgulhosa, de que continuava jejuando.
- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha.
Mas na jaula puseram uma jovem pantera.Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.
Franz Kafka
Tradução de Modesto Carone
23.1.05
the masque of the red death
francesca: yes, i believe - truly.
prospero: then i want you to remove it at once! and never to wear it within this castle again! do you know how a falcon is trained my dear? her eyes are sown shut. blinded temporarily she suffers the whims of her god patiently, until her will is submerged and she learns to serve - as your god taught and blinded you with crosses.
21.1.05
9.1.05
void
e odeio me sentir sem poder fazer nada quanto a isso.
e eu me pergunto por que, por que dói tanto...
7.1.05
histórias da metrópole
as mãos trêmulas tocam o metal frio, mas ela não sente... o olhar distante, contempla o horizonte do final da tarde e por um momento parece conter um brilho antigo, quando ela se lembra de quando eles vieram para a metrópole...
tantos sonhos... tantas promessas... tudo parece uma distante lembrança... um álbum de fotografias em sépia...
ela se lembra de quando ele foi embora... se lembra da falta, do aperto no peito e do vazio...
e ela se lembra do que teve de fazer para sobreviver na metrópole iluminada por letreiros de neon...
e se lembra da dor, da humilhação, mais vazio...
e ela grita... com todas as forças, ela grita... até o seu grito se tornar a voz da noite... até todos os sons da cidade se tornarem sussuros...
ela grita até se todo o ar se esvair de seus pulmões... mas a dor não vai embora... o vazio persiste...
e logo os sons da metrópole tomam o ar novamente... inexpugnáveis, invencíveis...
e nas ruas mais abaixo, letreiros de neon se acendem, projetando efeitos de luz e sombra nas ruas cheias de rostos vazios...
25.12.04
sweet innocence
aquelas palavras ecoaram distantes, em minha mente, enquanto eu olhava em direção ao centro do recinto.
iluminada por um círculo de velas, que davam a tudo aquilo um ar religioso, ela estava de pé.
nua...
pálida...
trêmula...
linda.
a luz fraca a tornava etérea, como um fantasma de luz... os cabelos loiros refletiam as chamas das velas em pequenos lampejos dourados.
ao sentir alguém tocando meu ombro, olhei para o chão, quase com vergonha do que meu corpo sentia. a voz disse, novamente, agora próximo ao meu ouvido:
"ela é sua. esta noite é em sua homenagem. tome-a para vc"
a voz era doce e baixa... quase um sussuro, mas assim mesmo, parecia quase uma ordem.
"ela é jovem demais..."
pensei em dizer isso como uma desculpa, mais para mim mesmo que para os outros. a mulher... não. a menina parecia não ter mais que dezessete anos... seu corpo tenro e firme tremia levemente, enquanto seus olhos pareciam pedir ajuda a mim. em vão...
"p- por favor... por favor, me deixem ir!"
não, ela não era jovem demais. e não, eu não a deixaria ir...
haviam outros ali... outros como eu e cassie... éramos 7, ao todo. alguns eram tão antigos que provavelmente conheceram o antigo mundo enquanto ainda era o único mundo conhecido. um círculo em volta de nosso altar de carne.
eu não conseguia mais afastar meu olhar do corpo dela. meus olhos percorriam cada centímetro da pele clara... seus seios pareciam quase hipnotizantes, chamando, implorando por mim... eu a desejava.
eu tinha fome.
"essa noite, christopher, vc é aceito entre nós. essa noite, vc se torna um integrante da sombra. e ela é seu prêmio. tome-a para si"
a voz era calma e antiga... parecia reverberar nas paredes, de maneira que não era possível saber exatamente de onde ela vinha... mas eu a conhecia. eu conhecia derek tempo o bastante para saber que, mais do que tudo, aquela frase havia sido um desafio.
"por favor... eu não conto sobre vcs... eu prometo... por favor, me soltem!!!"
eu caminhei na direção dela. o seu odor adocicado tomou meus pulmões, almentando meu desejo. eu acariciei o seu rosto, quase como seu amante e disse a ela, perto do seu ouvido:
"não irá demorar. eu prometo..."
eu a deitei... e a tomei, ali... no chão daquele lugar antigo e profano, aos olhos ávidos de meus companheiros... ela gemia ao sentir meu toque... e gritou quando me sentiu a invadindo... e ela pediu mais... e ela chorou...
naquele momento, eu a amei mais do que havia amado antes.
naquele momento, eu a entreguei às trevas da noite... eu a libertei do fardo da dor de viver e ela me pagou com o precioso líquido que há pouco corria em seu corpo...
depois de terminado, eu baixei vagarosamente a carcaça sem vida, deixando-a no chão. o sangue que havia escorrido no canto da minha boca ainda parecia fresco e trazia seu odor, ainda.
"está terminado."
mas não havia mais ninguém ali... nem mesmo cassie... eu estava a sós com ela. por quanto tempo?
a noite estava terminando... a lua logo iria embora, levando com ela os últimos resquícios de minha vida anterior...
eu não era mais christopher...
eu era um vampiro, agora... um morto...
uma sombra.
o brilho da lua me faz lembrar de um tempo em que um menino, nesta mesma casa, subia o telhado nas noites claras de outono para se deitar, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para as estrelas.
o garoto, não mais velho do que 8 anos, ficava às vezes horas, ali. quando ele se deitava, de costas para o telhado, parecia que a terra desaparecia... e com ela, todos os medos e dúvidas que circundavam a jovem cabeça.
a lua parecia chamá-lo para viajar com ela... ele quase conseguia ouvir as vozes das estrelas, num cântico celeste... antigo e triste, mas extremamente bonito.
e naquele telhado, naquelas noites de outono, o menino se sentia realmente parte de algo muito maior que tudo o que ele conhecia...
e ele sorria...
hoje, olhando a noite pela janela, eu me pergunto para aonde aquele menino se foi...
29.11.04
tale of the dreaming
"como?"
a menina olhava para o homem com um olhar de quem acabou de descobrir um grande segredo.
"esse lugar... é o seu sonho, né?"
"eu... eu não sei. como vim parar aqui"?
"ora, como todos os outros. ou vc é parte de um sonho, ou é um sonhador!"
"ah! acho que nunca fui um sonho."
"viu? eu sabia!!! estamos no seu sonho."
"hummm... e o que eu... huh... nós faremos agora?"
"não sei, o sonho é seu, ué!"
o homem olha a sua volta, tentando organizar seus pensamentos, mas a última coisa que se lembra é de ir para a cama. às 11h, como fizera todas as noites, nos últimos 27 anos. tudo aquilo era muito insólito, mas de alguma maneira, ele não sentia medo. só uma pequena confusão.
de qualquer maneira, a menina parecia estar perdendo a paciência.
"seus sonhos são sempre assim tão chatos?"
"o quê?"
"nada tá acontecendo. por que vc não sonha com princesas e dragões mágicos e cavaleiros de armadura?"
"cavaleiros? acho que realmente nunca sonhei com isso, menininha."
"humpf... que saco!"
"ei! calma."
"eu conheço um dragão! ele pode se juntar a nós, pode?"
"um dragão???"
"ééééééééé! dragão!!!! ei, dragão!!!! dragããããããããããããããããão!!!!"
o homem olha incrédulo para a menina por alguns instantes, até perceber uma sombra se formando atrás dele.
"o que vc quer?"
uma voz faz tremer o ar. o rapaz fecha os olhos, dizendo a si mesmo que aquilo devia ser uma brincadeira.
"oi, dragão! eu queria saber se vc pode ser parte do sonho desse moço aí, ó."
"hummmm... está bem... mas ele é meio franzino para um cavaleiro. e a princesa, onde está?"
o homem vira-se para trás. e a alguns passos, um enorme dragão vermelho está sentado sobre a cauda, com uma das patas sobre o joelho, apoiando o rosto.
"por deus!!!!!!"
o dragão olha assustado a sua volta:
"o que foi?"
"vc! vc é um dragão!!!"
"ah... vc é perspicaz. o que fez vc tirar essa conclusão, hein? imagino se foram as escamas vermelhas que recobrem meu corpo, ou talvez as asas... certamente não foi a minha singela cauda."
"que lugar é esse??? o que está acontecendo aqui????"
a menininha vai até os pés do dragão e olha para o homem com uma cara de quem está entediada.
"nossa, como vc é gritão."
o dragão sorri para ela. ele a pega com uma das mãos e a trás perto do seu focinho de dragão.
"ele é o dono desse sonho? acho que encontramos um daqueles meio sem imaginação."
"acho que ele está sentindo a falta da princesa. precisamos de uma princesa para ele"
"ah! eu conheço uma..."
o dragão solta um rosnado enorme, e fogo salta de sua boca, em direção aos céus. o rapaz cai ao chão, tremendo.
"olá, dragão! desculpe a demora. a droga do vestido não queria entrar de jeito nenhum. onde está meu cavaleiro?"
a princesa olhava em volta, tendo a certeza de que seus cabelos iriam brilhar à luz do sol a cada movimento. ao olhar em direção ao rapaz, ela fica um pouco decepcionada.
"é ele? ele não é meio... magrinho para ser um cavaleiro?"
a menina olha para ela com cara de brava.
"não fala assim dele!!! ele é legal. só é meio parado."
"ah... tá bem... sonho é sonho, né? só não podemos demorar, tenho que refazer minhas unhas logo"
"oba!!!! tio, eu vou ali para aquela pedra, tá? pra ver vc lutar contra o dragão para salvar a princesa!"
o homem olha desesperado para a menina.
"lutar contra o... ei! eu não quero lut..."
a princesa corre para os braços dele, que nesse momento percebe que está vestindo um armadura prateada e traz uma espada em suas mãos. a armadura incomoda bastante na parte de baixo e ele mal consegue segurar a espada. a princesa grita perto dos seus ouvidos.
"salve-me, senhor!!! esse monstro horrível destruiu minha casa, matou minha família e agora me quer! se me salvar, prometo entregar-lhe a minha mão!"
o dragão levanta-se e apoia-se nas quatro patas, rugindo ameaçadoramente e soltando labaredas enquanto aproxima-se dos dois. o rapaz fica com medo e joga a espada de qualquer maneira, em direção ao dragão. a arma cai com a ponta em cima da cauda da criatura que faz uma cara de dor.
"ei!!! não é para ser assim!!!!! vc sabia que essa espada é afiada, seu maluco???"
o rapaz não aguenta mais e grita, desesperado, enquanto afasta a princesa de si.
"chega!!! chega disso tudo! eu quero sair dessa droga de lugar agora! menininha, vc é louca! todos vcs são loucos! eu quero ir agora!!!"
- pop -
uma pequena nuvem de fumaça é tudo o que sobrou, no local onde o homem estava. os três: a menina, o dragão e a princesa se entreolham, por alguns instantes. a menina faz uma cara de desolação.
"ah... droga... de novo ele foi embora antes do sonho acabar... como ele é chato!"
"não se preocupe, pequenina, ele voltará amanhã."
"lorde sonho!"
o dragão se abaixa, numa reverência e a princesa sorri, olhando sedutoramente para o senhor do sonhar.
"princesa... creio que vc tem que participar de alguns sonhos mais adultos, ainda essa noite, não?"
"sim, milorde. com licença."
o lorde moldador olha para a pequena criança com um olhar reprovador, da cor da noite.
"dragão, dragão... vc não deveria estar guardando a entrada do meu castelo?"
"sim, milorde... voltarei nesse momento. com a sua permissão..."
"e vc, pequenina? o que fará agora?"
"hummmmm... não sei. será que o tio fiddler's green deixa eu colher flores nele???"
"provavelmente. mas seja gentil com ele, está bem?"
"tá bem, lorde sonho! beijo para o senhor."
"mande minhas saudações a ele."
"tá!"
e o homem vestido de negro olha a menina correr e começar a desaparecer na distância e ele sorri um sorriso fulgaz... quase a sombra de um sorriso.
"ele voltará amanhã... todos eles voltam na noite seguinte..."
16.11.04
um bom conselho
não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes. sê lhano, mas evita abastardares-te. o amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos. foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre. a todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio. conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia. nisso, principalmente, são pichosas as pessoas de classe e prol na frança. não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia. mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso.
uma janela para o interior
ele digita algumas palavras, mas acaba apagando-as, enquanto balança a cabeça, desaprovando tudo o que havia escrito.
ele olha pela janela. seu único contato com o mundo exterior em dias como esse e se distrai pensando em como às vezes ele parece assistir ao que se passa ao seu redor como se fosse um filme. indaga-se em silêncio se é o único a ter essa sensação perante o mundo, mas acha que no fundo ele não é tão especial assim, para ter sensações e pensamentos tão originais.
enquanto uma senhora caminha despreocupada, lá fora, o escritor se imagina como uma sombra, passando pelo mundo incólume... sendo percebido somente por pessoas com mais atenção... mas sendo esquecido instantes depois.
ele pensa em seus textos... pensa se algum deles fez mesmo sentido para os poucos que os leram... se algo que escreveu mudou algo na maneira como eles viam o mundo, mas não tem certeza disso. afinal, textos são esquecidos... palavras se perdem...
ele sorri de uma maneira um pouco sarcástica, lembrando que a melancolia não perde a menor oportunidade de se mostrar.
ele pensa na solidão que sempre sentiu, por toda a vida, mesmo quando está cercado de pessoas, ele se sente só... e pensa em como são singulares os momentos em que se sente bem com alguém. um outro sorriso... "sempre as mesmas coisas, não?" ele fala para si... "sempre acabo pensando nas mesmas coisas".
o rapaz se indaga se deve voltar a se consultar com a psiquiatra, mas só de lembrar em ter que discutir coisas muito íntimas com alguém que só está ali para receber algum dinheiro, ele se desanima.
de repente, começa a digitar... e ao invés de escrever sobre lugares fantásticos ou coisas antigas, percebe que as palavras falam dele mesmo. de como ele se sente...
