21.5.07

estou cheio de palavras vazias

há um segredo em cada coração.
que se esconde tanto e tão bem
que algumas vezes nem o dono sabe que esse segredo existe.
ele observa a cama vazia ao seu lado e sente falta do tempo em que aquilo o incomodava.
queria lembrar o nome dela.
perdido entre todo o lixo jogado no chão do quarto estava o coração dele.
ele quebra o espelho para encarar a si mesmo.
esperava ouvir uma voz conhecida no silêncio de seu quarto. as paredes de pedra o observavam. frias, insondáveis.
lá fora a chuva bati na janela, escorrendo em pequenos cristais translúcidos.
ele gostava da chuva. gostava de olhar os pingos na janela. de alguma forma, ver as gotas escorrerem trazia uma sensação boa.
o papel e o lápis jaziam no chão. palavras desconexas escritas em uma letra trêmula.
nos cantos das folhas, pequenos desenhos que escaparam entre uma idéia e outra.
queria ser outra pessoa.
o ar do quarto parecia-lhe carregado. não conseguia respirar.
a luz do dia se esvai em uma fuga demorada.
ele senta no canto do quarto, esperando ouvir uma voz conhecida.
lá fora a chuva continua a cair.
o lápis continua no chão.
o silêncio continua.

17.5.07

chão do banheiro

a menina está sentada no chão do banheiro.

ela olha para a faca de cozinha a sua frente.

sonha não estar ali. sonha em caminhar no meio de todos sem sentir que tudo o que existe é uma mentira. uma ilusão.

ela abraça as próprias pernas, procurando proteção dentro de si. mas ela encontra um vazio grande demais.

a menina chora.

e aos poucos as paredes vão desaparecendo. a pia pára de pingar e some. a porta trancada parece se tornar etérea. o mundo some, pouco a pouco a sua frente.

o vazio que havia dentro dela pouco a pouco ocupa todo o mundo. não há sons. não há sensações. só um nada claustrofóbico.

ela tateia o vazio. ela sente o frio do cabo de metal.

a faca raspa forte no braço. cortando, dilacerando a carne.

com força a menina faz sulcos fundos na pele clara.

a dor traz a realidade de volta.

e a menina balança a cabeça, sentada no chão frio enquanto fios de um vermelho vivo colorem o mundo.
o anjo chora.

em um quarto de paredes sujas e rachadas, ele chora.

as lágrimas escorrem de seus olhos fechados. pequenos diamantes brilham no chão aos seus pés, onde elas caem.

ele sente o coração de toda a humanidade.

e por isso ele chora.

realidade dissonante

inquietação.

por que eu sempre vivi com essa inquietação? por que não consigo calar os pensamentos, para dormir em paz uma só noite.

por que eu preciso me deitar apenas quando o corpo não aguenta mais? por que eu quero absorver cada pedaço, cada fagulha de mundo que há? por que ao fazer isso eu sinto dor?

é como estar em uma sala saturada de luz. abrir os olhos dói demais.

quero pousar a cabeça. quero pousar o coração.

quero sentir uma mão fazendo carinho em meus cabelos e só fechar os olhos e aproveitar.

preciso.

preciso me sentir em foco com o mundo.

16.5.07

mentiras

- o senhor tem um trocado pra me dar? eu tô precisando comprar comida pros meus filhos.

- não, amigo. desculpa, mas eu tô duro.

e o homem continua a caminhar, esquecendo quase totalmente da mulher que acabou de abordá-lo com um olhar perdido. e esquecendo dos 10 reais enterrados no bolso da calça social.


eu odeio mentiras. odeio as pequenas mentiras que contamos: "putz! eu esqueci. amanhã eu trago."
odeio as grandes mentiras: "claro que eu te amo. por que eu mentiria?"

odeio saber que muito do que eu sei é mentira. "mentir é inerente ao ser humano. é necessário para a vida em sociedade", ele diz. que patética é nossa sociedade, então. elevada sobre um pilar de falsidade.

odeio saber que existe mentira em tudo. odeio saber que mesmo sabendo disso, quando descubro uma mentira me sinto traído.

odeio saber que isso é inevitável.

odeio mais ainda saber que eu minto como todos os outros.

15.5.07

inquietação.

porque ela só surge quando estou sozinho?

sinto falta de observar a lua.
eu vejo luz em você.
quando você vê confusão, eu vejo possibilidades.
quando você se perde, eu quero estender a mão.
quando você chora, quero te abraçar.
quando você sorri, eu me sinto um pouco mais feliz.

gosto de ser o seu anjo. gosto de caminhar ao seu lado, olhando pra você do alto. gosto de passar minhas mãos por seu corpo, só pra ter certeza que você está lá.

sou seu amigo.

seu protetor.

seu amante.

você será sempre uma fada de cabelos coloridos e nariz arrebitado.

amo você.
ela tenta gritar. a mão em sua garganta aperta, forte. ela bate nele mas ele a segura.
ela escuta o próprio coração bater alto rápido demais.
o medo escorre por seu corpo, tomando tudo.
respirar. ela precisa respirar.
a mão continua apertando. os olhos dela estão arregalados. ela vê o rosto dele. não há emoção.
ajuda.
alguém ajude.
os olhos dele são negros. o cabelo também. a mão aperta forte.
algo quente escorre pelas pernas dela.
a mão no pescoço vai ficando fria. tudo vai ficando frio.
ela grita, sem som algum. dentro de sua garganta, algo estala e se quebra.
ela olha para ele.
ela vê um brilho na outra mão.
e sente seu corpo se abrir.
frio.
tão frio.
vermelho.
os olhos.
negros.

13.5.07

eu odeio bloqueios de escritor!

shit.
eu não estou acostumado com isso.

ao mesmo tempo em que minha cabeça clama por solidão, por silêncio e lugares vazios, meu coração pede para estar com você.


eu não sei lidar com o amor direito.

parece que ele vai sobrepujar tudo em mim.

dá um pouco de medo, pensar que eu não controlo tudo em mim.

mas ainda assim, eu quero você. e quero estar com você.

2.5.07

aprenda a ler os sinais.

é importante que você aprenda.

1.5.07

dissonantes

olharam um para o outro por muito tempo. conheciam cada marca, cada expressão do rosto um do outro. não havia nada de novo. não havia mistérios, não havia segredos. compartilharam tudo por um tempo que pareceu uma eternidade para os dois. estavam cansados
estavam entediados.

uma manhã ela desperta e ele não está lá. surpresa por um segundo, ela logo sente um alívio por não ter que contemplar aquele rosto novamente tão cedo.
ela resolve caminhar. os raios de sol iluminam as pedras no caminho, as árvores parecem resplandecer com uma vitalidade renovada.
ela chega a uma praça e senta, observando tudo a sua volta. de repente, uma voz diferente chega-lhe aos ouvidos.
ela se vira e percebe um jovem. um rosto novo, desconhecido.
uma pontada de preocupação lhe toma o coração, mas logo ela é derrotada por uma excitação grande. ela ouve as palavras do rapaz e elas são todas novas.
ele parece trazer um ar de frescor um mistério no olhar que a deixa curiosa por mais.

na casa dela o outro homem, aquele que ela conhece até demais chega e encontra a cama vazia. um olhar de espanto é trocado rapidamente por um certo alívio. ele senta na cama e observa as flores que trazia. ele sente uma liberdade nova tomar o seu coração, mas as flores o lembram de algo precioso.

a mulher sorri, encantada. o rapaz a leva a lugares novos. ela conhece novos rostos, descobre uma nova vida. sente-se renovada por dentro e por fora.
mas ela observa os olhos felinos do rapaz e sente algo diferente.
ele ainda parece o mesmo, mas de repente o brilho que parecia vir dele se torna muito tênue. e, inevitavelmente ela começa a se lembrar do olhar do homem que conheceu há tempos. e começou a comparar o olhar dos dois.
e a cada dia, toda aquela nova vida parecia-lhe fútil, sem razão.

na casa antiga, o homem se deita cedo e olha o teto. na mesa de cabeceira um ramo de flores começa a murchar, enquanto ele tenta se lembrar do sorriso conhecido dela. ele sonha em reencontrar o rosto dela na multidão de desconhecidos, lá fora.
e, sozinho, ele chora.

a mulher está deitada ao lado do rapaz. na escuridão da madrugada, ela toma uma decisão.
no dia seguinte ela volta à casa que abrigou-a durante anos. ela entra no quarto e o encontra dormindo. ela senta ao seu lado e chama o nome, surpresa com a sensação boa que isso desperta.
ele acorda e a vê. saltando da cama, ele a abraça.
ela sente o calor bom do abraço dele.

mas agora, quando ele a olha, vê algo diferente. é o mesmo rosto, a mesma mulher, mas ele percebe alguma coisa por baixo de tudo.
e ela ainda gosta de olhar para ele. mesmo tendo que esconder a vergonha que sente de si mesmo.

eles se beijam, os mesmos, mas ainda assim, diferentes.

Nereid

16.4.07

tô me sentindo perdido...

queria dormir do seu lado hoje, fadinha. queria falar tanta coisa.

há um silêncio grande demais no meu quarto.

perdidos

- você não se perdoa nunca?

ele olha para ela e pensa em tantas coisas do passado antes de responder.

- não. eu sempre acho que estou fazendo algo errado. sinto essa síndrome de super-herói, uma vontade de ajudar a outra pessoa. mesmo eu estando muito mal.

a garota o observa com um olhar triste.

- e quem vai te ajudar?


- ninguém.

no silêncio, eles se abraçam.

10.4.07

ele usa a faca de forma seca.

o corte é reto.

o sangue desce em um filete único, manchando de vermelho o tecido branco no chão.

ela observa, em silêncio.

um juramento é feito.

dois corpos se unem para sempre, tentando transformar em matéria o que duas almas sentem.
se sentia melhor sozinha.

ela ouvia a conversa da amiga e ficava pensando que estava melhor sozinha. experimentara sensações novas, experimentara emoções novas. lembrou-se de todos os choros as brigas e irritações de um namoro e pensou que estava bem melhor sozinha.

acabou fazendo a vontade da outra menina. seria um encontro só. uma tarde no shopping. mais inofensivo que isso, impossível. e sempre poderia dar a desculpa que precisava ir mais cedo pra casa. que chances haveriam de ele ser alguém interessante?

o domingo chegou. a tarde veio e ela chegou cedo e resolveu tomar um cappucino. a amiga deveria chegar logo.

de repente ela ouve um "oi!" vindo de algum lugar ao seu lado.

o rapaz sorria de forma clara, um sorriso quase familiar.

simpático, mas nada demais.

ele sentou ao seu lado e começou a conversar. ela gostava muito de conversas, mas achava que o início do papo estava meio chato. ele parecia ser tímido. ou só chato, mesmo.

a amiga chegou e fez a apresentação tardia. foram passear no shopping.

a tarde foi divertida. comeram, brincaram no fliperama e conversaram muito, sobre tudo.

e o rapaz sorria, com um sorriso de menino.

simpático. era isso. ele parecia simpático.

a tarde terminou. o domingo foi embora. a amiga perguntou sobre ele.

ela disse que o achou simpático. um ótimo amigo. só isso.

a menina e o rapaz começaram a conversar pela internet.

estranhamente, a cada dia que passava, ele parecia mais familiar a ela. gostos parecidos. desejos parecidos.

um dia ela resolveu visitar o blog dele. percebeu que ele era meio estranho. gostava de coisas estranhas, escrevia sobre vampiros e sangue e pessoas estranhas. se afastou um pouco.

ele sorria, dizendo a ela que aquele não era o seu eu verdadeiro. existia muito mais por baixo da fachada de rapaz mau e solitário.

ela se pegou um dia pensando nele. havia algo nas palavras que ele enviava a ela. havia algo em seu jeito.

simpático. sim, ele era simpático.

mas havia algo mais.

as noites se passaram. segredos foram trocados. promessas foram feitas.

a simpatia se transformou em afeto.

o afeto, um dia virou bem-querer.

o bem-querer transfigurou-se em amor...

hoje estão juntos.

e ela ainda se maravilha com o sorriso dele.
odeio o som do telefone se desligando.

porque te leva embora.

porque me deixa sem explicações.

porque eu quero falar mais.

porque eu quero mais.

mais do que o som terrível de um telefone se desligando.

700

setecentos posts sobre o nada...

e a certeza de saber que esse "nada" guarda em si sentimentos diversos...

perdas, encontros, desencontros, amores, desejos, saudades, frustrações, pequenas e grandes alegrias...

um nada cheio de coisas.

um nada que é tudo que não encontra voz no mundo das pessoas.

um nada órfão de explicações, mas repleto de significados.

um brinde ao nada.

24.3.07

por que só eu escuto o choro de uma criança que não nasceu?

:(
você é a minha versão feminina...

e, por sorte, é muito mais bonita!!! (sorriso)

te amo, pequena garota de cabelos coloridos...

minha personal delirium!
ela se contorce durante o sono. sonha com algo crescendo dentro de seu corpo.

algo que se alimenta do corpo dela.

algo que se movimenta. que a comprime por dentro, sempre querendo mais e mais espaço.

ela quer destruir o intruso.

matar

expurgar

ele se movimenta em seu abdôme.

e a cada movimento

ela se lembra de outro monstro

de outra invasão.

ela quer matar os monstros.

ela precisa.

mas não consegue.

por quê?

por quê?
não gosto do seu silêncio. ele me lembra demais coisas ruins.

às vezes me sinto bobo, querendo que você fale.

você tem direito de ficar quieta.

eu só acho o silêncio estranho, às vezes.

sagrada blasfêmia

quero provar de novo seu corpo. o gosto nunca me saiu da cabeça.

meus dentes arranhando a pele, enquanto a língua brincava alucinada, sentindo cada porção de pele.

penso em seu sangue, sempre, sempre, quando olho para as veias sobressaltando-se na pele clara do seu braço.

penso no vermelho. penso no gotejar lento e interminável.

seu corpo

seu sangue

quero comungar com você.
há um mundo estrangeiro a minha espera.

eu sempre soube que não estava preso a um lugar.

estranha sensação de perceber que se é menor e maior do que se imaginava.

tudo ao mesmo tempo.
gosto dos seus cabelos coloridos...

arte

não escrevo poesias,
sou vítima delas.
insinuam-se, obscenas,
cheias de curvas,
parábolas,
hipérboles,
metáforas à mostra.

figuras de linguagem
me seduzem

não escrevo contos,
eles me são entregues em sonhos
por deuses antigos.
encontro-os em antiquários,
escavo-os de antigas pirâmides.

não há um único texto em mim que seja meu
esqueço-os assim que os transporto para o mundo.
psicografados,
teletransportados,
imaginados.

não há uma única verdade em mim que seja absoluta
somente a absoluta falta de verdades.

as palavras brincam ao meu redor,
eu as absorvo

regurgito poemas disformes
contos órfãos com bocas famintas
de leitores.

17.3.07

changes

still don’t know what i was waiting for
and my time was running wild
a million dead-end streets and
every time i thought i’d got it made
it seemed the taste was not so sweet
so i turned myself to face me
but i’ve never caught a glimpse
of how the others must see the faker
i’m much too fast to take that test

ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
don’t want to be a richer man
ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
just gonna have to be a different man
time may change me
but i can’t trace time

i watch the ripples change their size
but never leave the stream
of warm impermanence
so the days float through my eyes
but still the days seem the same
and these children that you spit on
as they try to change their worlds
are immune to your consultations
they’re quite aware of what they’re going through

ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
don’t tell them to grow up and out of it
ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
where’s your shame
you’ve left us up to our necks in it
time may change me
but you can’t trace time

strange fascination, fascinating me
ah changes are taking the pace i’m going through

ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
oh, look out you rock’n rollers
ch-ch-ch-ch-changes
(turn and face the strain)
ch-ch-changes
pretty soon now youre gonna get a little older
time may change me
but i can’t trace time
i said that time may change me
but i can’t trace time

david bowie - changes

13.3.07

a bondade é um ato anti-natural.
o pequeno zé tinha um balão vermelho.

a mãe o observava, sentada no banco da praça.

o garoto sorria, brincando com o cordão que o ligava ao balão. o pequeno zé corria e via o balão flutuar meio solto, meio preso atrás dele.

a pedra se interpôs entre o menino e sua corrida.

o menino caiu... o balão fugiu e subiu...

o menino chorou, enquanto via um ponto vermelho cada vez menor flutuar e desaparecer no céu.

o pequeno zé cresceu.

um dia, ensinaram a ele que a terra, o lugar onde ele e todo mundo morava, era como uma enorme bola que flutuava no espaço.

zé pensou que em algum lugar havia um menino triste, por ter deixado o mundo escapar...

encontros

ela chora ao telefone.

confusa, sem esperanças, fragilizada.

ele escuta o choro, as lágrimas parecem machucá-lo, abrindo um caminho até o seu coração.

ele a ama.

mas não sabe o que fazer.

ela diz que se odeia. ele pede para que ela não vá embora.

ela está perdida.

ele não sabe quem é.

ainda assim, eles precisam demais um do outro.
a luz entra pelas frestas da janela do prédio.

pequenos tijolos quadriculados filtram a luz, como milhares de olhos de insetos.

o mundo chega a mim fragmentado.

ainda assim, alguns dias ele parece grande demais.

busca

há algo perdido no mundo. sinto a falta dessa coisa. dessa coisa que não consigo nomear, mas que eu sei que deveria existir.

vivi a vida a procurar uma resposta para esse sentimento.

pensei estar louco algumas vezes. pensei estar próximo algumas vezes.

desejei que a resposta fosse alguém. busquei a resposta em braços e camas diferentes.

mas no fim da noite o silêncio me mantinha acordado.

o sentimento se tornou vazio. o vazio, desespero.

o desespero me levou ao mais fundo e mais escuro poço.

acho que de algum modo doentio, acreditei que lá haveria alguma resposta.

gastei minha juventude na busca.

tornei-me homem.

cínico.

me afastei de todos.

me afastei do mundo.

contemplei o vazio incomensurável do universo.

um universo de vazios.

um espelho de mim.

8.3.07

sinto saudade de você o tempo todo...

é bom te ver...

um calor gostoso pelo corpo...

os últimos dias têm sido de um frio estranho...

me esquenta? por favor?

nada

alguém me faça escrever algo bom...

de volta

post demorado pra sair...

eu estou meio que num exílio auto imposto da internet... não tenho certeza se quero voltar... enfim... estamos conversando.

mas eu estou com vontade de escrever, apesar de estar me sentindo muitíssimo estranho por dentro.

27.2.07

onde encontro o botão "verão off"???
e na escuridão, percebo o olhar em minha direção.

duas chamas, ardendo de inveja e cobiça.

aqueles olhos desejam destruir cada coisa que construo.

só assim "ele" se sente realizado

eu observo o brilho daquele olhar, reconhecendo a imagem que vejo

através do espelho.

amor sem regras

quero que você me mostre o mundo,
o seu mundo,
com seus olhos.

quero que me ensine que além do negro véu
existem cores novas,
excitantes.

deixa eu aprender sobre você.
deixa eu conhecer você,
desvendar o segredo que vive em seus olhos

me liberta da carne,
me tira o juízo,
toma minha alma.


deixa eu descobrir
a nudez do seu corpo
e te envolver em um manto de prazer.

ajude-me,
destrua-me,
recria cada conceito meu.

quero ser seu,
só seu,
e te quero minha,
toda minha,
multiplamente minha.

traz a esperança de volta
na pequena forma
que se aninha em seus braços.

expurgue cada dor de mim.

abençoe cada gemido de prazer.

eu quero tudo:
todos os sonhos,
todos os desejos,
de você
com você
para você.

casa comigo.

apaixone-se um pouco a cada dia.

deixa sua alma nadar na minha.

pois eu amo!

sim, eu amo!

como amo...

26.2.07

adoro quando você faz barulhos imitando uma gatinha. (sorriso)
estou me sentindo só e cansado.

deixa eu encostar a cabeça no seu colo e descansar?

viver às vezes é uma tarefa muito grande.

é preciso continuar... mas é difícil...

simples

estou com medo de algumas coisas, hoje.

vontade de passar a mão pelo seu cabelo, fazendo carinho de leve. vontade de olhar para você enquanto faz qualquer coisa, só pelo prazer de saber que você está por perto.

desejo de beijar a sua boca docemente, um milhão de beijos, até você ter sono e dormir com jeito de criança.

estou um pouco triste. triste de saudade, triste por não saber o que fazer, triste por só poder esperar, agora.

por que o simples é tão complicado de alcançar?

20.2.07

clementine: joely?
joel: yeah tangerine?
clementine: am i ugly?
joel: uh-uh.
clementine: when i was a kid, i thought i was. i can't believe i'm crying already. sometimes i think people don't understand how lonely it is to be a kid, like you don't matter. so, i'm eight, and i have these toys, these dolls. my favorite is this ugly girl doll who i call clementine, and i keep yelling at her, "you can't be ugly! be pretty!" it's weird, like if i can transform her, i would magically change, too.
joel: [kisses clementine] you're pretty.
clementine: joely, don't ever leave me.
joel: you're pretty... you're pretty... pretty...

eternal sunshine for the spotless mind

eu adoro o diálogo acima... é tão eu e você, sabe? eu queria muito, muito, muito te fazer entender que é a criatura mais linda do mundo. que não precisa fazer nada para que as pessoas erradas gostem de você. e que não precisa me chamar a atenção, porque eu só consigo olhar para você...

amo tanto...

isso faz com que me sinta bem... e vivo. mas também traz um medo estranho...
ah! só para registrar:

eu odeio carnaval.
estou um pouco perdido, hoje.

de vez em quando, eu também preciso de alguém me mostrando que vai ficar tudo bem...

queria que vc percebesse mais isso.
não quero ser visto como um pai chato, que fica regulando as coisas.

não quero.

eu quero o seu bem... acredite ou não.
estou cansado...

cansado do corpo e da mente.

odeio repetir as coisas.

odeio ser o chato.

e muitas e muitas vezes odeio ser eu.

eu acredito nas pessoas quando elas me dizem coisas,

acredito na palavra delas,

acredito que é fácil nos entendermos.

acredito mesmo que sejamos cheios, cheios de erros (eu, com certeza sou)

mas eu quero mais:

quero acreditar que palavras trocadas entre amantes não são palavras jogadas ao vento.

quero acreditar que eu posso ficar tranquilo. eu quero muito, muito mesmo, ficar tranquilo.

ah! não sei o que estou dizendo.

estou triste, acho.

triste e cansado.

meu coração pede repouso...

8.2.07

é estranho...

tem dias que me sento ao computador com uma história na cabeça. exata: início, meio e fim totalmente definidos.

mas ela se recusa a ser digitada. recusa-se a sair do mundo das idéias.

minhas histórias têm vontade própria.

a você

eu observo você.

os gestos, os olhares.

aprendo seu jeito de falar.

tento descobrir seus sonhos,

tento desvendar seus desejos.

e no fim da noite

aprendo a te amar de novo.

dor de crescimento

ele pega o filho depois da escola. a professora o reconhece. de duas em duas semanas ele sai correndo do trabalho vai buscar o menino do outro lado da cidade.

quase sempre chega alguns minutos atrasado, mas todos na escola parecem compreender e mostram um sorriso simpático.

o homem olha para o garoto, por detrás das lentes dos óculos. parece que a cada dia ele cresce mais. uma onda de orgulho passa por seu coração.

no caminho de volta para casa, eles conversam sobre a semana. o menino olha para fora, tentando capturar cada segundo do caminho. ele imagina muitos mundinhos, onde as pessoas lá fora vivem aventuras fantásticas.

o pai estaciona o carro e eles entram na casa. o garoto corre para seu quarto e joga a mochila com as roupas para o fim de semana.

eles brincam e mais tarde jantam juntos. o menino acha que o pai tem um olhar triste, às vezes. mas sempre diz que está tudo bem. "o mundo dos adultos é tão complicado", pensa, em silêncio.

o homem arruma a pequena cama e coloca o filho para dormir, mas ele reclama que está sentindo muitas dores nas pernas. o homem se lembra da própria infância e lembra do que a sua mãe costumava falar sobre as "dores de crescimento" e fala:

"filho... isso são dores de crescimento. é que o seu corpo está crescendo e como você está ficando muito grande e forte, dói um pouquinho. mas não tem nada demais, tá?"

ele passa uma pomada nas pernas do garoto e depois que o pequeno cai no sono, ele deixa o quarto.

sentado na sala, o homem segura um porta-retrato entre as mãos.

na foto, três pessoas estão sorrindo. ele olha e pensa que aquilo parece ter sido há séculos atrás.

mas faz tão pouco tempo.

ele pensa em todas as coisas que se perderam. e pensa em tudo o que viveu e o que aprendeu.

ele sente uma dor na alma.

e lembra que crescer dói.

3.2.07

sonhos

ela era uma menina inquieta. não que isso fosse algo ruim, mas seus pais tinham que lhe dar milhares de avisos sobre coisas perigosas. no fundo eles gostavam do jeito moleque dela.pareciam ser uma família feliz.

a infância foi calma. pequenos arranhões, um braço quebrado, várias e várias bonecas e muitas histórias. ela adorava dormir escutando seu pai contar histórias à beira da cama. havia algo na voz dele que a acalmava.

seu primeiro beijo foi aos 13 anos. ela não gostava tanto do menino, mas ele era um dos mais bonitos da escola. ela mesma chamava a atenção de muitos.

ela gostava de dançar. quando estava na pista, era como se nada mais no mundo existisse.

a menina conheceu ele quando fazia faculdade de história. eles não tinham muita coisa parecida, mas não desgrudavam um do outro.

eles se casaram depois que terminaram a faculdade. ela gostava de trabalhar dando aula e a vida de casada era muito mais interessante do que ela imaginava.

eles envelheceram juntos. os dois costumavam escrever histórias e contar para seus dois filhos e depois para os netos.

gostavam de passear juntos e gostavam de cinema e pipoca.

já velhinha, ela gostava de observar os netinhos correndo no quintal. sentia-se feliz.

ela está na sala de parto. olha para o lado e vê a mãe chorando, deitada. seu corpo de bebê é incapaz de se estabelecer. aos poucos, ela fica fraca demais. a pequenina luta de olhos fechados. tenta viver, mas a luta é longa e cansativa demais.

em seus sonhos, ela é feliz.

na mesa de cirurgia, um coração minúsculo pára de bater.

sonhos

ele canta baixo, enquanto observa o fogo. a canção é antiga e já foi cantada por seu pai e pelo pai dele, antes.

uma rajada fria de vento faz as chamas tremerem.

o jovem segura uma vasilha com os restos de um líquido escuro. o sabor amargo ainda permanece em seus lábios e aos poucos, uma sensação quente lhe percorre o corpo.

ele olha para a chama, olhos vidrados no movimento do fogo. aos poucos ele deixa de ser homem e se torna parte do fogo. a canção continua, mas ele parece ouvir outras vozes cantando, além da sua.

o fogo se transforma em fumaça e como fumaça, se espalha pelo ar.

o jovem sobe aos céus, seguindo os caminhos do vento.

ele não tem corpo, agora é somente espírito. a canção toma todo o ar e ele percebe que não é mais ele quem está cantando.

a figura de seu pai aparece por entre as nuvens. o pai de seu pai o acompanha. e o pai dele, junto.

as estrelas formam padrões e desenhos novos.

o jovem deixa-se carregar entre as estrelas. a canção dos antigos muda. agora eles falam diretamente em seu coração.

ele vê sua tribo cavalgando os grandes búfalos, na planície. os animais estão por todos os lados e a visão é grandiosa...

e ele vê um trovão cair do céu e um animal de metal percorrendo as planícies. há um homem branco sobre a grande serpente prateada.

os búfalos fogem do monstro. e ele vê os homens de sua tribo desaparecerem, no horizonte.

o jovem shaman abre os olhos. o fogo crepita, no silêncio da noite. não há mais canto.

não há mais futuro.

sozinho em sua tenda, o jovem chora.
você é o lugar onde não me sinto sozinho.
queria inventar palavras pra dizer o que eu sinto.

as que conheço parecem tão toscas.

não há precisão nas palavras.

29.1.07

niilista em conflito

eu sou naturalmente niilista. é complicado demais, imaginar uma outra existência além desse mundo.

e ainda assim, lá dentro, enterrado fundo em minhas conjecturas e pensamentos, existe uma pequena luz que brilha apesar de toda a escuridão e desolação.

fé?

em quê?

21.1.07

i should wait.

i should be more patient.

i should.
um "click" seco e nada acontece.

ele abre os olhos e não sente nada. o cano de metal pressiona a têmpora direita enquanto ele vê a si próprio no espelho do banheiro. desvia o olhar em um instante, sem conseguir encarar o reflexo.

guarda a arma do pai, depois de retirar a bala solitária. o garoto criou esse "ritual" para poder sair de casa. um dia acordou e não conseguia pensar em razão nenhuma para se levantar. pior... não encontrou razão nenhuma para estar vivo.

só conseguiu pensar em uma coisa: o pai guardava uma arma no armário do quarto. lembrou de ter visto um filme onde meninos brincavam de roleta russa. lembrou de pensar qual seria a sensação daquilo tudo. e lembrou-se que o personagem no filme falou que tinha recebido uma nova chance de viver.

era aquilo que ele queria. algo que lhe mostrasse que ele merecia viver.

então pegou a arma no quarto do pai e se trancou no banheiro. sentado no vaso, ele retirou as balas, menos uma. girou o tambor e o recolocou na posição. sua mão tremeu, quando ele colocou a arma na cabeça.

puxar o gatilho foi mais difícil do que esperava. "um momento apenas", ele pensava. mas ainda assim, era difícil.

ele não morreu naquela manhã.

saiu de casa melhor. percebera um sinal naquilo tudo.

mas o dia foi igual aos outros. aos poucos, a excitação foi passando. nada havia mudado de verdade. talvez no dia seguinte.

mas nada mudou. nem no dia seguinte, nem no próximo. mas ele recorria a arma, quase todas as manhãs.

apenas porque não sentia que era um desperdício estar vivo.
se você pudesse entrar dentro da minha cabeça, eu te mostraria todos os cantos que nunca foram visitados por ninguém. ficaria feliz em te levar a cada momento bom que vivi. poderia segurar sua mão quando relembrasse coisas ruins.

ia deixar você tentar dar uma arrumada em todas as confusões, em todos os traumas, em todos os pensamentos sem sentido.

queria que isso pudesse ser verdade. ando cansado de mim. ando cansado de pensar do jeito que penso.

nha... tô resistindo bravamente à vontade de te acordar agora mesmo e dizer tudo o que eu sinto. mas eu sei que não conseguiria e ficaria com uma cara de perdido no mundo.
eu quero paz... sério mesmo.

não aguento mais uma vida completamente fora dos padrões... acho que isso perdeu a graça, pra mim...

ou talvez eu esteja ficando velho, não sei.


mas eu queria paz.


mas por que eu tenho a sensação de que não vou conseguir?

dreamgirl

20.1.07

por que eu estou triste?
olho os horizontes, como se procurasse uma resposta para a inquietação que toma meu peito. as nuvens distantes deslizam silenciosas, desdenhando dos pobres seres que vivem abaixo.

penso no que foi tirado de mim. uma lembrança feliz que eu nem cheguei a ter. um pequeno sorriso que foi calado antes mesmo de surgir.

eu sinto inveja de outras pessoas.

não por causa das riquezas que conseguiram ou dos seus feitos. tenho inveja dos sentimentos que eles conhecem e que, nesse momento, me parecem ter sido roubados.

o silêncio é a minha única resposta. o deslizar suave das nuvens é o único sinal que recebo dos seus.

há uma lágrima que eu reprimi e que insiste em aparecer quando eu não preciso.

quero ser feliz um dia.

19.1.07

butterflies and hurricanes

change,
everything you are
and everything you were
your number has been called
fights, battles have begun
revenge will surely come
your hard times are ahead

best,
you've got to be the best
you've got to change the world
and you use this chance to be heard
your time is now

change,
everything you are
and everything you were
your number has been called
fights and battles have begun
revenge will surely come
your hard times are ahead

best,
you've got to be the best
you've got to change the world
and you use this chance to be heard
your time is now

don't,
let yourself down
don't let yourself go
your last chance has arrived

best,
you've got to be the best
you've got to change the world
and you use this chance to be heard
your time is now

the muse - butterflies and hurricanes

16.1.07

ele observa o fogo.

hipnotizado, parece não perceber mais nada.

mas o fogo se apaga.

e ele fica lá, olhando a escuridão.
a vida é uma sucessão de saudades.

noites

a calçada molhada brilha, refletindo as luzes de letreiros de neon. uma chuva fina e fria cai no meio do verão, forte o bastante apenas para incomodar enquanto se anda, mas fina demais para se ter vontade de abrir o guarda-chuva.

ele caminha sozinho, a fumaça do cigarro desvia dos pingos que caem do céu. imerso em pensamentos antigos, ele deixa a rua guiá-lo. ele olha para os letreiros que piscam e se revezam em cores fortes com promessas de sensações intensas e prazer inigualável. ele sabe que as luzes das fachadas servem apenas para esconder a verdadeira natureza do lugar.

ele pensa nas mulheres que exibem corpos cheios de marcas de anos de abuso, pensa em crianças perdendo a virgindade em camas sujas para quem pôde pagar mais. ele pensa em filhos criados em meio a álcool e drogas; violência e indiferença.

homens sem alma o olham, desconfiados. o cheiro da rua é forte e desagradável. em um beco escuro, uma mulher entrega seu corpo por alguns trocados para comprar comida. ele se pergunta se há algum alimento que vá tapar o buraco em sua alma.

então ele a vê: o corpo franzino mal desenvolveu curvas que a deixam parecida com uma mulher adulta. o olhar mantém algo de infantil, mas falta algo. ele imagina que seja a inocência perdida há tempos. ela veste roupas curtas que mostram uma pele branca.

ela o vê chegando e finge um sorriso.

o homem pára na frente da menina. ele a olha em um longo silêncio.

ele a vê em outra noite como essa. ele vê o corpo franzino. o olhar inseguro. a pele quase etérea.

e ele vê um corpo jogado em um canto. um corpo de menina.

ele olha novamente para ela e percebe que aquela ali é outra garota.

e mais uma noite, ele foge para as sombras.

e mais uma noite, ele chora em silêncio, pedindo perdão.
eu a observo todo o tempo que posso.
imagino o que passa na cabeça dela, enquanto ela olha para o nada, quieta.
observo o sol bater nos cabelos dela, produzindo brilhos de cores intensas.
invento uma piada boba, para vê-la sorrir...
vejo-a correr, feito criança, feliz e sinto um calor gostoso no peito.

ela me faz bem.

tempus fugit

eu perco o tempo entre os dedos.
entre as batidas do meu coração, os momentos se passam, únicos.
o conforto silencioso da noite termina em um brilho solar.
a necessidade da vida me retira do sono.
vivo, pois, entre os segundos do ponteiro do relógio.
sorrio, choro, amo, machuco.
vivo, a cada segundo, toda uma vida.
pois em algum lugar
o tempo espera, inexorável.
finjo fugir dele, procuro a imortalidade em minhas palavras,
mas ele espera.

no fim, ele é só o que resta.

14.1.07

eu estou de saco cheio dos medos.

e querendo quebrar alguma coisa, agora.
eu sempre arranjo um jeito de estragar tudo...

eu quero o mundo todo, de uma vez só.

(suspiro)
eu gosto de quebrar paredes.

não sei ficar sentado olhando para a parede, esperando que ela caia por si só.

5.1.07

tenho idéias sombrias...

e gosto delas, enfim.
vou começar um livro.

os deuses queiram que saia alguma coisa daí.

vou precisar de ajuda, acho.
ele coloca o telefone no gancho, mas o som da voz dela continua ecoando em seu cérebro.

por que se sentia assim? por que parecia já ter ouvido as palavras que lhe foram ditas, tantas e tantas vezes antes?

recusava-se a repetir os erros do passado. queria crer que era capaz de aprender, mas sempre em determinado momento ouvia as mesmas palavras vindas da pessoa amada.

queria aprender a não repetir os mesmos erros. precisava.

sentou-se ao lado do aparelho telefone. nem percebera quando os primeiros sinais da manhã explodiam no céu. ele tomou uma decisão, enfim: foi ao apartamento da menina. tocou o interfone até que uma voz cheia de sono atendeu.

sentia urgência em seu coração, então contou coisas demais ali mesmo, na rua. do outro lado do fone, somente silêncio. fez uma pausa e perguntou por ela. a voz vacilante disse que ela estava ouvindo.

ele pediu para subir. ela aceitou, depois de um longo silêncio.

ele subiu as escadas, pois o elevador parecia lento demais para seus impulsos. encontrou a porta do apartamento entreaberta.

ela estava no sofá, ainda de camisola, com um olhar entre o surpreso e o zangado.

ele a abraçou por um tempo que pareceu ser grande demais para ela. ainda não entendera porque ele estava ali.

então, contrariando todo o seu passado, ele se ajoelhou em frente a ela. beijou-lhe as mãos carinhosamente e olhou-a com um sorriso indecifrável.

se casaram 2 semanas depois.

22.12.06

20.12.06

trapezistas do vazio

ela acorda assustada.

na penumbra ela procura localizar-se. não conhece o quarto, mas parece ser um quarto genérico de hotel. em volta do seu corpo, um braço desconhecido descansa.

a jovem tenta se lembrar de como foi parar ali, mas a dor de cabeça intensa afasta qualquer possibilidade de explicação.

a nudez indolente do homem ao seu lado e um gosto salgado em sua boca a fazem imaginar o que teria acontecido.

ela se sente envergonhada. lembra de outras camas em outros hotéis. outras noites passadas na companhia de um estranho.

lembra do garoto que ela deixou em casa. provavelmente estaria dormindo. seu coração aperta em saber que ele está sozinho e que a culpa é só dela.

de repente, o braço à sua volta parece apertar mais. as paredes do quarto parecem se aproximar, fechando-se ao seu redor. respirar é difícil demais. ela precisa sair.

a dor de cabeça parece diminuir quando ela sai na rua. nas mãos um maço de cigarros roubado do casaco do homem. ele nem mesmo percebeu que ela saiu do quarto.

cambaleando, ela atravessa ruas, em direção à sua casa.

a fumaça do cigarro não preenche o enorme vazio que há em seu peito.

em um bar, um homem olha para o nada, segurando um copo. ele não está bêbado. gostaria, mas não tem coragem de fazer nem mesmo isso.

"hoje ela faria 35", ele pensa. em sua cabeça, imagens de um passado que parece quase inexistente dançam.

sonhou com ela novamente, mais cedo. acordara tremendo, na cama.

fugiu de sua própria casa, como sempre fazia quando a dor era forte demais. caminhou respirando o ar da noite. prostitutas lhe ofereciam alívio. ele as recusava.

o alívio que elas ofereciam nunca lhe foi suficiente.

ele toma o último gole e levanta-se. o ar noturno está frio e sombras passam, cobertas em casacos pesados.

ele caminha sem saber onde chegar.

ela e ele se cruzam. por um instante ,se olham.

e por um instante, é como se os dois se reconhecessem.

os olhares se afastam.

mas uma lembrança desse momento os seguirá.

19.12.06

acid mode on?

e ainda assim, adoro ficar deitado do seu lado, vendo filme.

ali parece o lugar perfeito...

como vc faz isso, hein?

acid mode on III

sim, eu gosto de facas.

e de sangue.

e de ler sobre coisas que ninguém mais parece gostar.

e de ver filmes estranhos.

e desenhar sempre as mesmas coisas.

e de fotografar coisas que só eu entendo.

não. eu não sou igual a ninguém que você conhece.

eu nem sou uma pessoa.

sou só eu.

ainda estou tentando descobrir o que isso significa.

acid mode on II

não, eu não amo o rio.

acho que não amo lugar nenhum no mundo.

ainda assim quero ver tudo.

vai que eu estou errado, né?

acid mode on

pensamentos são tão preciosos.

por que insistem em desgastar todos eles, transformando-os em conversas entediantes?

que os guardem até que valham a pena.

procura-se

procuro um texto perdido.

a última vez que foi visto, estava na cabeça de um certo escritor. desapareceu quando fazia o caminho da cabeça para o papel.

boa remuneração a quem encontrá-lo.

pra vc...

ele olha para um mundo que lhe parece cinza...

pessoas cinzas caminham por um asfalto cinza. carros cinzas param em sinais onde luzes cinzas alternam-se.
prédios cinzas tocam um céu cinza.
árvores de folhas cinzas balançam ao sabor de um vento cinza.

eu visto roupas cinzas.

de repente, você entrou na minha vida e de repente eu vejo cores.
por que as madrugadas sempre me trazem sentimentos tão estranhos?

e por que ela não está aqui, para que eu possa dividí-los?
coisa estranha:

quanto mais penso no mundo, mais ele me parece irreal demais pra existir.
é estranho e difícil pensar em ir aos poucos.

eu sempre quis tudo de uma vez. sempre.

nunca me contentei em ir ao poucos. nunca me contentei em ter só o agora.

o agora sempre foi muito pouco. sempre tosco e sem vida, diante de todas as possibilidades futuras.

o problema era que eu me perdia nas possibilidades e deixava de viver o agora.

sempre gostei mais das cores com as quais a minha imaginação pinta o mundo do que as cores reais.

é tão complicado, viver o agora.

complicado demais viver com calma.

diminuir a velocidade.

sentir aos poucos.

eu ainda sinto a vontade de jogar muito mais combustível no fogo.

porque eu amo a chama.

mas nunca aprendi que ela queimava depressa demais desse jeito.

tenho que aprender a alimentar o fogo aos poucos.

é muito difícil.

mas eu quero aprender.

13.12.06

fragmentos...

eles se sentam juntos, em silêncio...

um vento frio sopra e a menina chega mais perto do rapaz, abraçando-o.

ele beija-lhe a testa...

no horizonte, novas cores pintam o céu, aos poucos.

eles olham o nascer de um novo dia e em seus corações, a semente de uma nova esperança brota...





o amor é flor frágil. precisa de cuidados. precisa de carinho e atenção.
o amor é flor que brota no meio das pedras. beleza em meio à aridez do mundo.

o amor é tênue... o amor é etéreo...

o meu amor é o que me move, certos dias.




porque eu quero tudo. e quero perder todos os medos, receios e pudores...
quero mergulhar.
quero morrer e nascer novamente... mil vezes num dia.
e quero você.

enjoy the silence

words like violence
break the silence
come crashing in
into my little world
painful to me
pierce right through me
cant you understand
oh my little girl

all i ever wanted
all i ever needed
is here in my arms
words are very unnecessary
they can only do harm

vows are spoken
to be broken
feelings are intense
words are trivial
pleasures remain
so does the pain
words are meaningless
and forgettable

all i ever wanted
all i ever needed
is here in my arms
words are very unnecessary
they can only do harm

enjoy the silence

depeche mode - enjoy the silence

12.12.06

eu queria um raio de sol.

não quero sombras, agora.

queria uma fada, vestida de sol.

preciso.
eu caminho entre eles, mas não sou um deles.

tenho a mesma aparência, sinto as mesmas sensações, ouço as mesmas músicas, mas ainda assim, não sou um deles.

não sou melhor ou pior.

sou apenas eu mesmo.

não vou nunca ser igual.

11.12.06

tabuleiro

eu olho para ela entre as luzes piscantes. o vestido longo se agita, dançando com ela ao som de the cure. ela não percebe meu olhar.

eu percebo cada movimento dela.

tenho paciência. esse é o meu jogo e aprecio cada lance, cada investida.

então, em um determinado momento, ela me percebe. estou longe o suficiente para que ela não entenda de imediato minhas intenções, mas perto o bastante para ela perceber que estou olhando em sua direção.

então, o jogo começa...

durante a noite, de forma quase que imperceptível, vou chegando mais perto. e mais vezes nossos olhares se cruzam. até que um sorriso inevitável se abre no rosto dela. desvio o olhar por um segundo, tímido.

há vários caminhos para o coração de uma mulher... os mais rápidos passam pelo desejo delas de cuidar de alguém. existem poucas que resistem a um ser carente.

e timidez é um sinal claro de carência.

finjo tomar coragem e ofereço um drink. ela não sabe, mas agora já não conseguirá ir embora.

conversamos um pouco. eu finjo ouvir. sempre funciona. as pessoas sempre estão a procura de alguém que as ouça.

todo o lance seria entediante, se a recompensa não fosse tão grande.

tenho que segurar minha vontade. só ela me denunciaria, agora.

dançamos juntos, corpos colados na pista. olhares encaixados. gosto dos olhos dela. gosto da mistura de sentimentos que vejo neles. o cheiro da pele dela é bom.

nos beijamos na pista. o gosto dela é suave. perfeita.

saímos dali... ela me leva ao seu apartamento. roupas caem no chão. ela geme baixo, frente aos avanços da minha língua.

chegamos à cama. nus, enroscados, um no outro. meu corpo e o dela.

ainda aqui, cada movimento meu é calculado. não sinto prazer na carne.

espero por algo mais profundo.

ela me puxa com força em sua direção. com o corpo pressionado contra o dela, eu faço o lance final:

ela me olha surpresa. mesmo sem conseguir ver os olhos dela, eu conheço a expressão perfeitamente. ela grita, tentando me afastar, mas meu abraço a impede.

eles sempre ficam desesperados, nessa hora.

os dentes abrem a carne do pescoço, com força. o gosto dos músculos e gordura logo é substituído por algo mais nobre.

um rio vermelho desce pelos ombros, até o peito. ela esperneia, sem conseguir fugir.

o gosto é familiar.

fecho os olhos e vejo tudo vermelho. escuto o coração dela batendo rápido e sinto o meu coração aumentando deu ritmo, acompanhando o dela.

um calor percorre meu corpo, começando pela cabeça e descendo pela espinha, até a base das costas. pequenos choques elétricos parecem percorrer meu corpo.

não paro de beber até que a batida no peito dela se torne débil demais até para os meus ouvidos.

o rosto ainda se concentra na expressão de dor e surpresa. ela me olha, sem reação alguma. os lençóis estão vermelhos, nossos corpos brilham, molhados de sangue.

eu a olho... ainda perfeita.

e aos poucos, o brilho dos olhos foge.

quase consigo perceber o momento em que a alma deixa o corpo dela.

fico ali durante algum tempo. extasiado.

beijo o rosto sem vida com carinho. ela e eu dividimos a mesma essência. por algum tempo, vejo o mundo como ela via.

lá fora, o dia começa a nascer.

toco a janela do quarto, sentindo o calor do sol do jeito que ela sentia. a sensação aos poucos vai embora.

como um vício, me pego pensando em uma próxima caçada.

eu ganhei o jogo...

pedaços

olho ela deitada na cama. as curvas do corpo nu ainda me causam um sentimento intenso.
eu sei tudo sobre ela, qual o jeito que ela gosta de dormir, como é o sorriso dela, qual a cor do olhar. e ao mesmo tempo, aquela mulher deitada na minha frente é uma completa estranha para mim.

por que tudo sempre retorna ao mesmo ponto? por que sempre pareço procurar algo que foge de mim quando chego perto. a minha felicidade parece água escorrendo das minhas mãos enquanto tento em vão agarrá-la.

passei a noite aqui, no sofá, olhando para ela e vendo outras mulheres em outras noites assim. há algo de belo na tristeza, eu dizia antigamente. agora, eu repudio essa beleza árida.

não quero deixá-la. não quero passar por aquela porta e descer as escadas. não quero atravessar a rua sem olhar para trás.

ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar que eu sou o causador de todas as coisas erradas aqui.

me sinto só. se todas as pessoas do mundo estivessem aqui, agora, eu me sentiria só. porque a minha alma se perdeu da única alma que importava para mim.

me levanto em silêncio. caminho em direção a cama, sempre observando a respiração dela. beijo-a delicadamente na testa enquanto uma lágrima cai, escorrendo por nossos rostos.

adeus, meu amor.

eu passo pela porta e desço as escadas. atravesso a rua sem olhar para trás. mas um pedaço de mim ficou naquele quarto.

me pergunto sobre o dia em que não sobrarão mais pedaços.

10.12.06

prólogo

não vou escrever nossos nomes.

se você está lendo isso, provavelmente já conhece boa parte de nossa história. bom, acho que só a versão que a imprensa publicou.

essa é a minha versão sobre o que aconteceu naquele ano. não vou usar nomes, porque isso nos transformaria em pessoas, como você. e não somos como você. não somos nem mesmo pessoas.

somos uma idéia absurda, um desejo amoral.

somos nós.

eu havia guardado tudo o que aconteceu comigo. mas hoje de manhã aconteceu algo que me fez lembrar dela. então me vi escrevendo, como nunca havia escrito antes. página após páginas nasciam no computador. me vi novamente como uma criança, relembrando cada detalhes, cada lugar.

e relembrando das coisas que fizemos.
eu me senti feliz hoje.

realmente feliz... verdadeiramente feliz.


felicidade simples, que vem do ficar sem fazer nada do lado de quem importa.

não havia cobranças... não havia segredos... não havia nada além das pessoas que estavam ali, no chão da sala.

gostei de me sentir feliz.

quero mais... (sorriso)

7.12.06

ela me procura, à noite.

abraça meu braço com força. eu sinto o corpo quente dela, sua respiração. olho para seu rosto, dormindo de boca aberta, feito criança.

a felicidade é efêmera... frágil... rara...

mas é em momentos como esse que sinto que ela pode existir.