19.9.05
um conto de tempos antigos
era época de armazenar alimentos... época de se sentar em frente ao fogo e pedir aos deuses do mundo que existe abaixo para que o inverno não seja rigoroso e que todos possam sobreviver.
naquela tarde, os homens estavam caçando. havia muitos indícios de que a primeira neve cairia logo e era preciso ter pressa.
a caçada fora boa para todos; especialmente para teannáil macath, que havia apanhado 3 coelhos e um javali fêmea. tinha esse nome por causa de seus cabelos da cor de fogo e por ser o homem mais alto da tribo. teannáil era o líder da tribo há 3 anos, desde que seu pai fora morto em uma batalha contra os pictos. desde então, os deuses pareciam sorrir para a tribo, pois as colheitas foram boas e os pictos e os homens que vinham do mar não mais atacaram.
enquanto caminhava, teannáil ouviu o barulho de galhos quebrando. ele continuou caminhando através da neblina, o mais silenciosamente possível, até chegar à uma clareira que não se parecia com nenhum lugar que ele já tivesse visitado.
no centro da clareira, uma corsa de chifres escuros pastava calmamente, alheia ao caçador que se aproximava. teannáil abaixou-se, preparando para lançar a corsa. de repente, o animal olhou para ele, como se sentindo a presença do caçador.
e os olhos do animal encontraram os olhos do homem. e teannáil e a corsa ficaram em silêncio absoluto, paralisados pelo momento. e, não sabendo exatamente porque, o caçador levantou-se lentamente e abaixou a lança. a corsa continuava olhando para ele, sem mexer um músculo.
teannáil estava enfeitiçado pela beleza do animal. pela primeira vez na sua vida encontrara um animal que não queria caçar. ele se aproximou da corsa, até poder tocá-la com a ponta dos dedos. sentiu a respiração, o peito que subia e descia de forma rápida.
fechou os olhos, enquanto acariciava o pêlo do animal e quando os abriu, percebeu que estava tocando os cabelos negros de uma mulher.
ele ficou assustado com aquilo, mas a beleza da mulher era tamanha que teannáil não pôde exclamar nada.
a mulher o olhou, com os olhos da corsa e o tocou no rosto, beijando-o em seguida.
e teannáil tomou a mulher para sí na clareira e ela o aceitou e entregou-se sem falar nenhuma palavra.
e o caçador dormiu...
enquanto dormia, ele sonhou com a mulher...
ela estava agora coberta por um manto tão escuro quanto o seu cabelo e atrás dela ele percebeu que haviam outros, observando.
ela disse a ele que era uma deusa daquela floresta e que estava grávida da semente de teannáil. ele não veria a criança até o momento de maior necessidade da tribo. mas a visão do filho dos dois seria a morte para ele.
e teannáil acordou na clareira... a noite havia caído e os outros caçadores haviam saído em busca do líder.
e naquela noite, teannáil não conseguiu dormir mais...
18.9.05
where the river goes
i wanna fly as high as the sun
i wanna know what the rent’s like in heaven
i wanna know where the river goes
12.9.05
photo
prometeu a ele que se deixaria fotografar. pensou em fazer poses como as das meninas góticas que ela via em fotos e mais fotos pela internet e achou divertido se imaginar desse jeito. quando ela chegou, encontrou-o descontraído, escrevendo algo no computador. ele sorriu para ela, pediu que ela sentasse e perguntou o que ela queria que ele fotografasse.
"não sei. você é o fotógrafo. está pensando em algo?"
"não. eu nunca penso muito sobre o que vou fotografar. eu simplesmente olho para alguma coisa que ache interessante e sinto essa necessidade de guardar aquilo de alguma maneira."
"bom, ela sorriu... eu não tenho certeza do que fazer..."
"relaxa! olha, tenta se descontrair."
e eles conversaram e tomaram vinho... ele fez algumas fotos, pra ver a luz, testar a cor da pele dela, coisas assim. ela não conseguia afastar o olhar dos olhos dele, que pareciam sempre inquietos, procurando algo, o tempo todo.
"é complicado posar, né?", ele disse com um sorriso largo. "eu me odeio em fotos!"
ela se levantou... estava um pouco inquieta com aquilo, caminhou para a janela, tentando respirar o ar da rua.
"fica assim."
"o quê?"
"fica nessa posição. tá lindo!"
achou bobo aquilo. não estava fazendo nada demais. mas ele gostou e estava abaixado, a alguns metros, fotografando.
ela caminhou alguns passos e sentou-se na cama ainda desarrumada, dele. ele rodeava ela e ela se lembrou dos documentários da televisão. o olhar dele parecia o dos predadores, esperando o momento certo para o ataque.
estava respirando rápido com o toque de excitação que esse último pensamento trouxe à mente dela. ela olhou para o chão e ele se abaixou a centímetros ela, para fotografar o rosto dela.
"posso..." falou, quase num sussurro. "posso tirar a minha roupa, se quiser..."
ele a olhou, a câmera na mão, ainda apontando para o rosto dela que acabara de ficar avermelhado.
"só se você quiser."
e ela começou a retirar a camiseta, devagar, pois tremia um pouco com tudo aquilo. nunca fez isso. nem mesmo se imaginou tirando fotos assim.
ele a olhava. ainda o mesmo olhar.
ela se deitou na cama e ele ficou parado por alguns instantes. e então voltou a fotografar, pequenos detalhes de pele. o rosto dela encostado no colchão, as curvas do quadril, a sombra dos seios sobre o lençol...
um calor percorria o corpo da jovem, queimando por baixo da pele, em ondas que subiam pelo abdômen, a partir da púbis. nudez absoluta... sentiu-se nua de verdade pela primeira vez, na frente de alguém.
dias depois eles se reencontraram para tomar um café. ele trazia as fotos em um envelope que entregou a ela, depois que sentou-se.
ela olhou para ele e se viu refletida nos óculos escuros que agora escondiam aqueles olhos.
"você está perfeita nelas."
"bobo!"
"ah! nem se pode falar a verdade!!!" falou, sorrindo.
a jovem passou vários minutos olhando e comentado cada foto. após um tempo, ela não aguentou e perguntou a ele:
"eu quis você comigo naquela cama aquele dia, sabia?"
"eu sei. eu vi nos seus olhos."
"e não fez nada."
"não..."
"por quê?"
"ah... eu ia estragar as fotos!" ele sorriu.
11.9.05
larger than life!
9.9.05
a perfect day
7.9.05
o vento agita as folhas das árvores, fazendo um barulho bom que leva os pensamentos do jovem para longe...
ele se sente feliz em noites assim... é como se lá, no meio das nuvens, os velhos deuses estivessem de olho no que os homens fazem aqui na terra...
é como se o vento a sua volta fosse o abraço de antigos espíritos, caminhando ao lado dele... sussurrando segredos antigos nos seus ouvidos...
ele gosta de noites assim... ele não se sente sozinho.
6.9.05
he shoots... he scores!!!





ganhamos um prêmio, hoje no trabalho!!!!!
um projeto nosso - foto em tempo real - foi premiado como a melhor idéia, do prêmio "idéias que fazem diferença", da infoglobo...
e eu fui receber o prêmio, do pessoal da diretoria!!!!!
ok, ok... sou blasé... mas é sempre muito bom ser reconhecido pelo que vc faz!!!!
hoje foi um dia bom... gosto de dias bons...
sistemas de produção rules!!!! (sorriso)
4.9.05
movimento
os carros passam ao seu lado rapidamente... ele gosta da ventania causada pelos veículos... gosta do movimento que os seus cabelos fazem... gosta de sentir o movimento.
a música toca alto nos fones de ouvido... ele ouve as guitarras e sorri, cantando baixinho o refrão de uma das suas músicas preferidas...
a estrada a sua frente parece longa... ele sente um pouco de medo, por não conhecer o destino... mas apaga o sentimento com uma olhada para as nuvens que se movem lentamente, o tempo todo...
ele queria ser uma nuvem...
um carro passa ao seu lado, levando consigo os pensamentos antigos que ainda acompanhavam o rapaz...
o vento bagunça o cabelo dele...
ele se sente vivo...
3.9.05
um fogo que dança de forma sensual e mortal...
consumindo... transformando...
fogo de uma vida mantida em animação suspensa por tempo demais...
e que grita, se debate e procura por ar...
vida e fogo... desejo e nascimento...
todos se misturam hoje, no meu peito...
queimando...
consumindo... transformando
inveja da noite que te tem nesse momento, em outros braços, em outra cama, em outros sonhos...
desprezo por tudo o que foi dito com raiva...
raiva por ter tido medo...
a raiva traz uma clareza dura...
eu vejo o medo, vejo a dor... tudo o que me afastou... tudo o que foi errado...
e eu quero mudar, mas é tarde para mudar...
eu quero sonhar novamente...
um jardim de sonho... uma noite calma...
sussuros...
mas é tarde agora...
não... não é...
nunca é...
só a morte é inevitável...
e eu estou vivo...
o coração ainda bate... o sangue pulsa... o desejo consome...
eu estou vivo...
e ainda não é tarde.
25.8.05
sweet dream
algumas vezes, ele se pega pensando que nunca iria imaginar que amaria tanto um ser, assim... mas no momento em que ele viu o médico segurando aquele serzinho rosa, ele se apaixonou completamente...
3 anos já se passaram e o amor apenas cresceu... como somente os amores crescem de uma quantidade infinita para algo ainda maior.
muitas noites ele perdeu preocupado, com medo... observava o berço de 10 em 10 minutos... "será que ela está bem?"
mas ele não se arrepende... faria tudo de novo...
porque há 3 anos atrás, a vida dele começou a fazer sentido...
e ele sorri, ao lado da cama...
quotes
como alguém pode ser tão simples e falar tanta coisa que toca no fundo da alma, como se, de alguma maneira, essa pessoa soubesse de um segredo que mais ninguém sabe?
é... não estou falando nada interessante, hoje...
não consigo me concentrar... só tenho essa sensação que estou novamente em um ponto da minha vida que eu não deveria estar... e tudo por minha própria causa...
cadê a simplicidade da qual eu vivo falando que quero?
será que fujo dela, justamente porque tenho medo de que a simplicidade não seja o que eu queira??? (com o jeito complicado que eu tenho, provavelmente não é mesmo o que eu quero)
(sorriso)
às vezes sinto que o teclado deveria ter certo tipo de censura às coisas que escrevo... porque eu sempre volto ao mesmo assunto... sei que o tudo funciona desse jeito... sempre dando voltas... mas eu exagero!
eu queria conseguir dar alívio nessa confusão nisso que eu chamo de alma.
well... life goes on...
21.8.05
eu sou o abismo que tenta o suicida, calmo quieto e mortal...
eu sou o silêncio das noites passadas na solidão dos quartos escuros...
eu sou a dor que se alimenta de si mesma...
eu sou a entropia... o fim de tudo...
e eu sou apenas humano.
20.8.05
visita de um perpétuo
o olhar vazio naquele rosto pálido me lembra de todos os erros, todos os fracassos e frustrações...
a voz dela, um sussuro que me lembra de tudo o que já deixei escapar por entre meus dedos.
o gancho de metal que ela carrega no dedo corta o meu rosto no exato ponto onde uma lágrima escorria, há pouco.
ela sempre sorri para mim, por detrás dos espelhos nos quais encaro meus medos.
lembrando e relembrando o quanto é difícil deixar os seus braços...
desespero.
18.8.05
mad world
tears for fears
all around me are familiar faces
worn out places, worn out faces
bright and early for their daily races
going nowhere, going nowhere
and their tears are filling up their glasses
no expression, no expression
hide my head i want to drown my sorrow
no tomorrow, no tomorrow
and i find it kind of funny
i find it kind of sad
the dreams in which i'm dying
are the best i've ever had
i find it hard to tell you
'cos i find it hard to take
when people run in circles
it's a very, very
mad world
children waiting for the day they feel good
happy birthday, happy birthday
made to feel the way that every child should
sit and listen, sit and listen
went to school and i was very nervous
no one knew me, no one knew me
hello teacher tell me what's my lesson
look right through me, look right through me
14.8.05
10.8.05
eternal cycle
never stand and still...
new horizons, that's the mysterous wheel.
cycles, roundings, time, birth, death
chances to try again
that's the secret - everything is turning."
7.8.05
um dia sendo eu...
depois de tomar o banho frio, escovar os dentes e me barbear (odiando essa última parte, porque meu rosto fica todo irritado), eu visto a minha roupa...
sempre pensando em mil coisas... meu pensamento parece poucas vezes acompanhar o que estou fazendo...
saio de casa e coloco meus óculos escuros (a luz do sol me incomoda) caminho olhando para todos os lados... adoro perceber cada detalhe das coisas à minha volta...
continuo pensando nas coisas mais diversas... imagino uma pequena história antes de chegar ao ponto de ônibus... imagino-a para nunca mais pensar nela, pois eu nunca escrevo nenhuma idéia que tenho... mantenho tudo na cabeça, no maior repositório de histórias não contadas que eu conheço...
o ônibus passa e eu entro e me sento, procurando um lugar perto da janela... o mundo passa lá fora e eu observo cada movimento... capto tudo, tentando registrar mais um pouco e aprender sobre tudo o que existe lá fora...
chego no centro do rio e vou caminhando para o trabalho... dentro da central do brasil, imagino aquele lugar muitos anos antes... penso nas pessoas caminhando... homens de chapéu e senhoras de vestidos longos, indo trabalhar todos os dias... não mudou tanto assim... só que parece tudo meio misturado, hoje... um amálgama de épocas e pessoas...
mesmo assim, eu fico imaginando algumas fotos ali... o preto e branco captando detalhes da arquitetura... dos rostos.
chego no trabalho e começo a ver muitos e muitos rostos... acho que algumas pessoas acham que sou estranho, porque passo o tempo todo observando todo mundo... não porque gosto de cuidar da vida deles... mas porque eu sinto uma curiosidade enorme pelos comportamentos alheios...
começo a trabalhar e pela primeira vez, meus pensamentos começam a ter mais ordem... trabalhar com informática é bom por conta disso... vc é obrigado a pensar de uma maneira ordenada...
se bem que depois de algumas horas eu estou louco para escapar daquele mundo...
eu não lido muito bem com esses extremos...
entenda: eu gosto de informática... gosto muito... mas não consigo passar muito tempo sendo exatamente "coerente"...
esqueci de mencionar que eu sempre tenho algo para ler ou para ouvir comigo... eu não seria nada sem música e livros...
sinto falta do meu amor, durante o dia... ligo para ela algumas vezes... quase nunca sei o que dizer, mas gosto de ouvir ela falar... me sinto mais "normal" nessas horas...
quando é hora de voltar para casa, não sei o que me acontece... sempre sinto uma certa melancolia... acho que é porque eu gostaria de estar fazendo muito mais coisas... mas a distância não deixa muito tempo para aproveitar o meu tempo com coisas interessantes... é um pouco triste, mas isso muda, um dia desses...
chego em casa, checo os emails... vejo se o computador baixou alguma coisa interessante, durante o dia... coloco mais algumas coisas para baixar e penso...
algumas vezes vou até a janela, olhar a noite... tenho vontade de dormir lá fora... ou de andar a noite inteira... (que belo adulto vc é, hein?)
lá fora, a lua e as estrelas caminham nos céus... eu deixo meus pensamentos caminharem com elas...
escrevo no blog... histórias que não são sobre mim... mas eu sempre estou nelas, de uma maneira ou de outra... sinto um pouco de orgulho pelas coisas que escrevo... não porque sejam boas... mas porque deixam transparecer uma parte de mim que não mostro para muita gente...
o sono chega... normalmente ele chega muito tarde...
deito na cama, sempre com meu edredon... sinto um pouco de solidão... não é solidão propriamente dita... mas um sentimento de que mais um dia se passou e não consegui encontrar o que quer que eu sinta falta... mas é um sentimento fulgaz e me deixa logo...
os olhos se fecham e eu saio daqui por algumas horas... até um outro dia.
picture of me
algumas vezes eu passo vários minutos, olhando uma foto que fiz... não porque elas me fascinem tanto, mas porque eu sinto uma espécie de felicidade, quando consigo captar exatamente o que eu estava sentindo.
um momento congelado no tempo, uma parte de mim.
diziam que as fotos capturavam a alma das pessoas. engraçado... quando eu fotografo alguém, sinto que um pedacinho da minha alma foi gravada ali, naquela foto.
25.7.05
19.7.05
3.7.05
lost
o ar viciado cheira a sexo, álcool e fumaça de cigarro...
ele olha a mulher ao seu lado. ele não lembra o nome dela, mas pode se lembrar de olhos fechados de cada canto do corpo dela... pode ainda sentir o gosto dela em sua boca.
ele volta seu olhar para o teto, onde um espelho olha de volta, desafiador, mostrando os corpos nus na cama desarrumada.
cansado da confrontação, o homem se levanta em silêncio, indo em direção ao banheiro.
ele abre o chuveiro no máximo, fazendo a água descer pelo seu corpo, levando embora os odores e sensações da noite.
o vapor da ducha quente forma fantasmas no ar, trazendo lembranças do passado, mas o homem se sente sozinho.
ele se sente fraco, pequeno e vazio.
e chora, sentado no chão do banheiro de um motel.
sozinho...
vampiro
mas não posso me considerar como um deles.
tão pouco estou morto.
sou uma visão,
uma aparição,
a sombra de uma vida
uma possível vida
à qual abdiquei há tempos.
tantas esperanças, eu enterrei.
tantos sonhos abandonei.
tantos corações, destrocei.
mas meu coração resiste,
batendo saudável,
dentro do peito.
mas o sangue que ele bombeia,
este não é meu.
eu o roubei,
como roubei a vida de tantos,
me apoderei de seus sorrisos,
tomei de assalto seus desejos
e os transformei em meus.
apenas para deixá-los diluir em mim.
apenas para ter forças para viver mais um dia...
apenas para continuar.
bad habit
não tinha grandes problemas para se relacionar com as outras crianças, só gostava muito de ficar sozinho...
inteligente, os pais acreditavam... o menino passa várias horas por dia lendo coisas e mais coisas...
livro de gente grande, pensavam... como ele gosta de ler...
mas eles não tinham a mínima idéia do que passava na cabeça do menino...
não tinham idéia do que ele sentia...
ou melhor, do que ele não conseguia sentir...
e não tinham idéia de que, quando o menino passava horas e horas sozinho, tinha um hábito peculiar...
ele fazia pequenos cortes, no próprio corpo...
nada exagerado...
só pequenos cortes, que cicatrizavam e sumiam...
ele gostava de ver o sangue deixando o corpo... o vermelho vivo e brilhante era bonito, assim o menino pensava...
e a dor... a dor era um sentimento, em meio ao nada em que o menino vivia...
24.6.05
a última visita do cavaleiro doente
23.6.05
sentado ao lado dela, na cama, ele acaricia os cabelos finos como os de uma criança e pensa nos anos que eles passaram juntos... não foram muitos... mas foram felizes... muitos casais vivem uma vida inteira juntos e não podem se dizer felizes de verdade... mas eles foram...
mesmo quando souberam da doença dela... depois das primeiras semanas, ela mesmo cuidou para que ele não se deprimisse... eles sairam muitas e muitas vezes...
ele se lembra da tarde em que passaram no campo, caminhando e conversando, por horas e horas, sobre tudo, mas evitando o assunto proibido. o cabelo dela parecia brilhar, com reflexos da luz do sol do final da primavera. depois de algum tempo, eles sentara-se perto de uma árvore, para descansar.
enquanto ele lia um livro de poemas (o preferido dela), a jovem o encarou com um olhar sério e disse:
- eu vou morrer.
o rapaz fitou os olhos claros em silêncio, sem saber o que dizer.
- nós dois sabemos que eu vou morrer. para que nós fingimos que isso nunca vai acontecer? por que nunca tocamos no assunto?
- eu... tenho medo de perder você.
- e eu de perder você... mas é assim que as coisas são. olhe...
ela abriu a palma da mão e mostrou uma pequena flor, delicada, com pétalas que iam de um vermelho vivo a um branco pálido e sedoso.
- essa flor é tão delicada e tão frágil... não durará muito tempo, agora que eu a retirei do solo... mas mesmo assim ela é linda... e estou feliz por tê-la encontrado.... e a beleza dela vai viver em mim, enquanto eu me lembrar dela.
- eu quero que seja assim conosco. quero que depois que eu for, uma parte de mim esteja viva em você e o acompanhe... e que você lembre-se de nosso amor... e seja feliz por ter a lembrança dele.
ele pegou a flor, tomando-a delicadamente em seus dedos...
- eu a amo tanto... e vou lembrar sempre de você, minha querida.
- eu também te amo e vou estar sempre com você...
ele a beijou, debaixo daquela árvore, naquele dia de primavera, num tempo que parecia ter sido de outra vida...
agora ela está ali, na cama, com os olhos entreabertos e um sorriso que parece cansado...
- estava sonhando de novo, querido? - a voz parecendo um eco distante daquela voz doce que o homem tanto conhecia.
- acho que sim. - disse ele, esfregando uma lágrima do olho - você quer alguma coisa, minha amada?
- sim. você pode ler para mim um daqueles poemas que leu naquela tarde, no campo?
sorrindo, pela coincidência, ele concorda e se levanta, para buscar o livro.
ele o encontra na escrivaninha da biblioteca, escondido sob alguns documentos e atestados de médicos...
ele olha por alguns segundos, para o livro, sentindo de repente uma tristeza aguda, como uma saudade que toma todo o seu corpo, sem aviso.
por fim, o homem pega o livro e caminha para o quarto. assim que entra, percebe que a respiração que era fraca, havia cessado... os olhos de sua amada estavam fechados e no rosto, um sorriso calmo...
ele deixa o livro cair e senta-se ao lado da cama... o corpo parecendo pesar toneladas, de repente, o olhar no chão, onde, entre as páginas do livro de poemas, uma pequena flor seca descansa...
idéias
eu tenho idéias dentro de idéias... um mundo inteiro, um universo inteiro de idéias...
e elas existem meio que independentes de mim... aparecem nos momentos mais inesperados... é só eu baixar a guarda dos meus pensamentos rotineiros para elas se espalharem por todos os lados...
são mundos de dragões e alienígenas... de vampiros românticos e de amantes sinistros... mundos povoados por seres mágicos, ou por máquinas sem alma...
idéias de amantes... idéias de tiranos...
idéias e histórias... umas dentro das outras, numa espiral infinita...
infinita?
2.6.05
ele se perguntou o porquê de várias coisas... a sua cabeça parecia não lhe dar um segundo de descanso, desde que ele descobriu que o mundo lá fora o vê como uma criatura diferente...
ele se sentia diferente, é claro... mas ele também sabia que a diferença era tão pequena que ele deveria se confundir com qualquer pessoa na multidão...
mas mesmo assim ele se sentia excluído... e sozinho, apesar de tudo...
ele quis morrer, ali...
não foi por causa de nenhum trauma... nada grandioso...
só porque ele sentiu que não fazia parte de nada...
o que manteve ele vivo, todos esses anos? um certo sentimento de que existia algo a mais, esperando por ele...
algo que não deveria ser nada grandioso, também... mas algo que o fizesse entender muitas coisas, de uma vez por todas...
hoje, ele vê algumas coisas de maneira diferente... ele espera... mas ele sabe que também tem que procurar... porque pode até existir algo que seja só dele, nesse mundo... algo que só ele vai entender de verdade...
mas esse algo não aparecerá, se ele só esperar...
10.5.05
escritos
eu quero ser escritor... não precisa ser daqueles de sucesso insuperável (se algum dia alguém me comparar com paulo coelho, das duas uma: ou eu dou um tiro da minha cabeça, ou na cabeça do infeliz), mas eu queria mesmo é poder ter alguma coisa editada... poder ir orgulhoso a uma livraria ou biblioteca e mostrar para alguém o meu mais novo livro.
e é por isso que eu estou correndo atrás disso.
chega de me lamentar... eu me lamento demais...
carência
uma necessidade às vezes boba de chegarmos perto... de tocarmos... de só ficarmos juntos...
e eu, com os meus mecanismos todos em curto-circuito subverto tudo e torno a minha carência em algo meio doentio...
não... não sou psicopata ou nada que o valha (acho eu)...
mas eu sei que a minha carência me faz mal e faz mal a quem tá perto de mim...
mas, diga-me, de verdade... como fugir de si mesmo? fugir do que se é?
tudo bem, eu sou bastante blasé... mas nem mesmo eu sou incapaz de notar a beleza em certas coisas da vida. e normalmente essas coisas são tão pequenas e simples de uma forma que só torna isso tudo mais especial.
eu não sou a melhor pessoa do mundo... não consigo nem ser a pior... mas eu tenho um monte de defeitos... e defeitos graves... muitos deles têm a ver com a maneira como eu vejo o mundo em contrapartida à maneira como outras pessoas o vêem...
mas de uma coisa eu tenho certeza. existe mais beleza na vida do que nós nos dignamos a perceber, em nossas vidinhas agitadas...
26.4.05
in dreamland
deve ser dia...
ou não...
ele ouve o próprio coração... tão rápido quanto as batidas de asas de um beija-flor...
ele pensa se teria um beija-flor no peito, batendo e batendo as asas...
ele tenta se levantar, mas seus braços e pernas estão presos à cama...
uma cama num quarto alto... ele conhece o lugar... tantas e tantas noites passadas aqui, ouvindo os barulhos de homens maus nas outras salas... ouvindo os gritos dos outros garotos...
seria um sonho?
estaria ele dormindo???
ele lembra do homem mal que lhe furava o braço, injetando-lhe os venenos que o faziam dormir e dormir e dormir...
e sonhar.
pequeno nemo, o homem o chamava... agora você vai para o reino dos sonhos...
e o pequeno sonhava com monstros perfurando-lhe o corpo com garras cheias de veneno...
e com quartos acolchoados que cheiram a urina e medo...
e com os gritos...
- o que é real?
- eu sou real???
- pequeno nemo no reino dos sonhos... é isso o que eu sou.
- e eu estou sonhando... logo vou acordar...
- não vou?
la mer
se sentando, nas tábuas de um pier abandonado, ele enche o peito do ar úmido e salgado do oceano... o vento parece levar sua mente para ainda mais longe e ele se permite perder-se na imensidão do azul profundo que dança a melodia dos dias antigos.
a chuva fina e fria de inverno toca-lhe o rosto, escorrendo junto da lágrima que lhe escapa do rosto...
uma lágrima... um oceano de pensamentos e desejos e sonhos...
um lugar distante que não existe...
um lugar perto que não pode ser alcançado...
28.3.05
eu tenho que trabalhar, para comprar coisas que na maioria das vezes nem preciso direito, somente para manter o emprego de outras pessoas, que precisam comprar mais coisas desnecessárias, para manter o emprego de outras pessoas...
e dizem que isso é perfeitamente normal?
ok... alguém sabe onde é a adminitração desse hospício??? eu gostaria muito de conversar com o responsável, por aqui...
uma noite, vá para um local afastado da cidade... se for alto, melhor ainda...
quando chegar, escolha um lugar legal e deite-se, olhando para o céu...
olhe bem para as estrelas... observe bem tudo o que vc consegue enxergar...
eu consegui concluir rapidamente duas coisas, quando olhei para isso, da primeira vez:
1. se nós formos a única espécie inteligente, em toda essa imensidão, alguém está desperdiçando muito espaço...
2. eu deixei de acreditar que lá em cima, em algum lugar, existisse um velhinho de barba longa, sentado numa cadeira e que estivesse olhando cada um, somente para nos julgar quando nós tivermos morrido...
23.3.05
eu sou uma colcha de retalhos
então de vez em quando tenho que parar e começar a me costurar...
20.3.05
ela era muito pequena... por isso ninguém percebia...
todo dia ela tecia e tecia sua teia de seda...
era nela que os pensamentos de tommy ficavam guardados...
ele imaginava os pensamentos como pequenas moscas, voando dentro da sua cabeça...
até que eles caiam na pequena teia...
alguns fugiam... e essas eram as coisas que tommy acabava esquecendo... (como quando a sua mãe gritava para ele não esquecer de levar o agasalho quando saia para brincar)
tommy nunca viu realmente a aranha...
mas ele sabia que ela estava lá...
pois ele continuava aprendendo e aprendendo coisas...
19.3.05
alice and the cat
a não ser aquele sorriso...
e o par de olhos...
olhando de volta para mim.
...
this silence is the sound of a scream for help, if you know where to look...
17.3.05
cenas de uma noite qualquer
ouço o som ocasional de uma tosse... um casal conversa no banco atrás de mim, sobre os planos para um aniversário...
penso no meu próprio aniversário que chega... lembro de mais um ano que passa por entre meus olhos. o que eu fiz? o que realmente importou, nesse último ano?
por que me sinto sempre melancólico, quando volto para casa? por que acho no fundo de minha alma que está tudo errado, que tudo deveria ser diferente?
por que me sinto tão diferente?
"você pode fazer o que quiser... basta querer e você consegue!"
palavras... imagino o grupo seleto de pessoas que fizeram tudo o que quiseram... acho que consigo contá-los com os dedos de uma só mão.
eu olho novamente em volta, em busca de um olhar que cruze o meu... que indague... que procure... que questione...
mas é em vão...
eu penso demais... eu quero demais...
eu sou a lenda
durante o dia, me torno um deles.
seus hábitos, suas maneiras,
eles não suspeitam de mim.
não acreditam em minha existência.
sou uma lenda,
uma história para crianças,
sou a sombra de um passado mítico.
mas ainda assim, eles sentem minha existência,
escrevem livros sobre mim,
fazem filmes.
eu caminho por suas mentes, nas horas escuras.
eu espreito em cada curva de suas mentes,
me fortaleço do medo em suas almas,
eles me ouvem sussurrar junto aos seus ouvidos,
eles fogem de mim em seus sonhos.
pois eu sou a morte,
eu sou o assassino,
seu predador,
o pastor que oferece a ovelha em sacrifício ao seu deus.
e eu sou meu deus...
11.3.05
little one
ela observa o céu, por um tempo que parece enorme para ela, até que seus pequenos olhos não aguentam mais e ela cai no sono. sua mãe a pega e leva para a cama e lhe dá o beijo de boa noite... assim é todas as noites...
mas naquela noite, a menina percebe uma coisa diferente... uma das estrelas precipitava-se do céu...
ela arregala os olhos, e pede à estrela um desejo...
os anos se passam e a menina cresce... e o desejo é esquecido...
a sua vida é boa... mas ela reclama sempre com as amigas da filha, que insiste em ficar horas olhando para as estrelas, toda noite, até que cai no sono e deixa para ela a tarefa de colocá-la para dormir...
sunrise
os primeiros raios dourados irrompem à distância e o homem sente alguma coisa, como se alguém estivesse brincando dentro de seu estômago.
quando sente os raios tocando-lhe o corpo ele estende os braços, desejando que o calor o consuma...
mas ele continua ali...
e mais um dia nasce...
memento mori
algumas vezes eu não consigo conviver comigo... minha alma é uma colcha de retalhos de sentimentos e desejos tão grande e tão diversificada que algumas vezes eu realmente nem sei direito o que estou pensando...
10.3.05
o calor
se eu mandasse por aqui, ia mandar pelo menos um mês com neve por ano... (sorriso)
the quest
e eu continuo buscando...
7.3.05
eterno regresso
mas voltar a escrever sempre é bom... e, se alguém puder ler e entender e se sentir um pouquinho como eu, acho que vai ter valido a pena...
(momento totalmente piegas, mas enfim... regressos trazem sentimentos assim, mesmo)
13.2.05
distimia
trata-se de uma maneira de sentir a realidade com tonalidade afetiva depressiva e melancólica sem que, necessariamente, seja considerado uma doença franca continuada. portanto, não há aqui um severo prejuízo das qualidades de vida social ou ocupacional em um grau suficiente para atribuir um caráter patológico, mas a depressão aparece como uma característica existencial dessas pessoas. hoje, a denominação mais correta para esta afetividade depressiva solidamente atrelada à personalidade e sem características limitantes da vida é o chamado transtorno afetivo persisistente do tipo distimia.
conceitualmente entende-se como distimia uma depressão crônica, com sintomatologia não suficientemente grave para podermos classificá-la como transtorno depressivo recorrente.
a característica essencial do transtorno distímico é um humor cronicamente deprimido. na distimia as pessoas se auto-definem como tristes ou "na fossa". em crianças e em alguns adolescentes o humor, originariamente deprimido, pode ser irritável, rebelde ou opositor.
estudos naturalísticos mostram que o comprometimento do funcionamento social e ocupacional da distimia é maior do que o dos episódios depressivos.
26.1.05
Um Artista da Fome
Além dos espectadores que se revesavam, havia ali também vigilantes escolhidos pelo público - em geral, curiosamente, açougueiros, sempre três ao mesmo tempo, e que assumiam a tarefa de observar dia e noite o artista da fome para que ele não se alimentasse por algum método oculto. Mas isso era apenas uma formalidade introduzida para tranquilizar as massas, pois os iniciados sabiam muito bem que o jejuador, durante o período de fome, nunca, em circunstância alguma, mesmo sob coação, comeria alguma coisa, por mínima que fosse: a honra da sua arte o proibia. Sem dúvida nem todo vigilante podia entender isso; havia muitas vezes grupos de vigia que à noite exerciam com muita displicência o seu papel, reunindo-se de propósito num canto distante, onde mergulhavam no jogo de cartas com a intenção manifesta de conceder ao artista da fome um descanso durante o qual, no seu modo de ver, ele podia lançar mão de provisões secretas. Nada atormentava tanto o jejuador quanto esses vigilantes: eles turvavam seu estado de ânimo e tornavam o jejum terrivelmente difícil; às vezes, superando a fraqueza, ele cantava, enquanto tinha forças, no período de vigia, para mostrar às pessoas que era injusto suspeitarem dele. Mas isso pouco ajudava, porque então eles se admiravam da sua destreza para comer até cantando. Para ele eram muito preferíveis os vigilantes que se sentavam bem junto às grades, não se contentavam com a fosca iluminação noturna da sala e faziam incidir no jejuador os raios de lanternas elétricas de bolso que o empresário punha à sua disposição. À luz crua não o incomodava de modo algum; embora não pudesse dormir, sempre cochilava um pouco com qualquer luminosidade e a qualquer hora, mesmo na sala superlotada e barulhenta. Com qualquer desses vigilantes estava sempre pronto a passar a noite toda em claro, a trocar gracejos com eles, contar-lhes histórias da sua vida errante e depois escutar as deles - tudo para mantê-los despertos, para poder provar-lhes que não tinha nada comestível na jaula e que jejuava como nenhum deles seria capaz. Mas era de manhã que ficava mais feliz do que nunca, pois então, por sua conta, era servido aos vigilantes um café da manhã suculento, ao qual eles se atiravam com o apetite de homens sadios depois de uma noite de trabalhosa vigia. Na realidade não faltavam pessoas que queriam ver nessa refeição uma influência indevida sobre os vigilantes; mas isso era ir longe demais e quando perguntavam a elas se porventura queriam assumir a vigilância noturna em nome da causa e sem o café da manhã, elas torciam a cara e conservavam suas suspeitas.
Isso no entanto já fazia parte das suspeitas inerentes à profissão do artista da fome. Ninguém estava em condições de passar todos os dias e noites ininterruptamente a seu lado como vigilante, portanto ninguém era capaz de saber, por observação pessoal, se o jejum fora realmente mantido sem falha e interrupção; só o artista podia saber isso e ser o espectador totalmente satisfeito do próprio jejum. Entretanto ele nunca estava satisfeito por outro motivo: talvez não fosse em virtude do jejum que estivesse tão magro - a tal ponto que muitos, lamentando-se por causa disso, tinham que se afastar das apresentações porque não conseguiam suportar aquela visão - mas sim em virtude da insatisfação consigo mesmo. É que só ele sabia - só ele e nenhum outro iniciado - como era fácil jejuar. Era a coisa mais fácil do mundo. Ele não o ocultava, mas não acreditavam nele; no melhor dos casos consideravam-no modesto, no geral porém um faroleiro ou simples farsante, para quem o jejum era fácil porque ele conhecia a maneira de torná-lo fácil e ainda por cima tinha o topete de o admitir só pela metade. Ele era obrigado admitir tudo isso, mas no correr dos anos se acostumou; no entanto a insatisfação o roía por dentro e nem uma única vez, depois de qualquer período de fome - tinham de conceder-lhe esse crédito - deixara espontaneamente a jaula. O empresário havia fixado em quarenta dias o prazo máximo de jejum, acima disso ele nunca deixava jejuar nem nas grandes cidades do mundo - e isso por um bom motivo. A experiência mostrava que durante quarenta dias era possível espicaçar o interesse ativado gradativamente, mas depois disso o público falhava e se podia verificar uma redução substancial da assistência; naturalmente existiam neste ponto pequenas diferenças segundo as cidades e os países, mas como regra quarenta dias eram o período máximo. Sendo assim, no quadragésimo dia eram abertas as portas da jaula coroada de flores, uma platéia entusiasmada enchia o anfiteatro, uma banda militar tocava, dois médicos entravam na jaula para proceder às medições necessárias no artista da fome, os resultados eram anunciados à sala por um megafone e finalmente duas moças, felizes por terem sido as sorteadas, ajudavam o jejuador a sair da jaula, descendo com ele alguns degraus de escada até uma mesinha onde estava servida uma refeição de doente cuidadosamente selecionada. E neste momento o artista da fome sempre resistia. Na verdade colocava voluntariamente os braços ossudos nas mãos das jovens que se curvavam sobre ele, mas não queria se levantar. Por que parar justamente agora, depois de quarenta dias? Ele poderia aguentar ainda muito tempo, um tempo ilimitado; por que suspender agora, quando estava no melhor, isto é, ainda não estava no melhor do jejum? Por que queriam privá-lo da glória de continuar sem comer, de se tornar não só o maior jejuador de todos os tempos - coisa que provavelmente já era - e também se superar a si mesmo até o inconcebível, uma vez que não sentia limites para a sua capacidade de passar fome? Por que essa multidão, que fingia admirá-lo tanto, tinha tão pouca paciência com ele? Se ele aguentava continuar jejuando, porque ela não suportava isso? Além do mais ele estava cansado, bem assentado sobre a palha e devia endireitar o corpo todo e caminhar até a comida: só de pensar nela sentia náuseas, cuja exteriorização porém ele reprimia a custo só em consideração às damas. E erguia a vista para os olhos das moças na aparência tão amáveis, mas na verdade tão cruéis e balançava a cabeça excessivamente pesada sobre o pescoço fraco. Mas então acontecia o mesmo de sempre. O empresário chegava e sem dizer uma palavra - a música tornava qualquer discurso impossível - levantava os braços sobre o artista da fome, como se convidasse o céu à contemplar sua obra sobre a palha, este mártir digno de compaixão - que o artista da fome de fato era, mas num sentido muito diferente; agarrava-o pela cintura delgada, com um cuidado exagerado, como se quisesse fazer acreditar que tinha de lidar aqui com uma coisa muito quebradiça e - não sem sacudi-lo um pouco às escondidas, de tal forma que o artista da fome balançava descontrolado de um lado para o outro com as pernas e o tronco - entregava-o às jovens que nesse ínterim tinham ficado mortalmente pálidas. Aí então o jejuador tolerava tudo: a cabeça caía sobre o peito, como se tivesse rolado para lá e ficasse ali sem explicação; o corpo estava esvaziado; as pernas, para se sustentarem, apertavam-se uma contra a outra na altura dos joelhos, raspando o chão como se ele não fosse o verdadeiro - estes elas ainda procuravam; e o peso inteiro do corpo, embora bem pequeno, recaía sobre uma das damas que, buscando ajuda, com o fôlego entrecortado - não tinha imaginado desse jeito a missão honorífica - esticava o mais que podia o pescoço para livrar pelo menos o rosto do contato com o artista da fome. Mas depois, como não o conseguisse e a companheira mais feliz que ela, não ia em seu socorro - contentando-se em transportar, trêmula, a mão do jejuador, esse pequeno feixe de ossos, sob o riso delicado da sala - rompia no choro e precisa ser substituída por um criado há muito tempo preparado para isso. Em seguida vinha a refeição, na qual o empresário fazia o artista da fome engolir alguma coisa durante um semi-sonho de desmaio em meio a uma conversa divertida que devia desviar a atenção do estado do artista; depois era erguido um brinde ao público, supostamente soprado pelo jejuador ao empresário; a orquestra reforçava tudo com uma grande fanfarra, as pessoas se dispersavam e ninguém tinha o direito de ficar insatisfeito com o acontecimento - ninguém a não ser o artista da fome, só ele, sempre.
Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério. Aliás, com o que poderia ser consolado? O que lhe restava desejar? E se alguma vez uma pessoa bem-intencionista se compadecia dele e queria lhe explicar que sua tristeza provavelmente vinha da fome, podia acontecer - em especial no estágio avançado do jejum - que respondesse com um acesso de fúria e começasse a sacudir as grades como um animal, para susto de todos. Mas para esses estados o empresário dispunha de um castigo que gostava de aplicar. Desculpava o artista perante o público reunido, admitia que só a irritabilidade provocada pelo jejum - facilmente compreensível por pessoas bem alimentadas - tornava perdoável o comportamento do jejuador; nesse contexto acabava se referindo também à afirmação do artista da fome - igualmente merecedora de um esclarecimento - de que poderia jejuar muito mais ainda do que jejuava; elogiava a elevada ambição, a boa vontade, a grande negação de si mesmo que sem dúvida estavam contidas nessa afirmação, mas depois procurava refutá-la, pura e simplesmente, mostrando fotografias - que eram vendidas naquela hora - pois na imagem se via o artista da fome, no quadragésimo dia de jejum, quase extinto de inanição. Essa distorção da verdade, de resto bem conhecida, mas sempre enervante, era demais para o jejuador. O que era consequência do encerramento prematuro do jejum se apresentava aqui como sua causa! Era impossível lutar contra essa incompreensão, contra esse mundo de insensatez. Embora sempre tivesse ouvido de boa fé o empresário, quando as fotografias apareciam ele largava das grades da janela, às quais estivera ansiosamente grudado, e afundava outra vez na palha, soluçando; e então o público, acalmado, podia aproximar-se e examiná-lo.
Quando as testemunhas se recordavam dessas cenas, alguns anos mais tarde, muitas vezes não compreendiam a si mesmas. Pois nesse meio tempo interveio a virada já referida; isso aconteceu quase de repente; devia haver motivos mais profundos, mas quem iria se preocupar em descobri-los? Seja como for, o mimado artista da fome se viu um dia abandonado pela multidão ávida de diversão que preferia afluir a outros espetáculos. O empresário percorreu novamente com ele meia Europa para ver se aqui e ali não se reencontrava o antigo interesse; tudo inútil; como se fosse por um acordo secreto, em toda parte havia se estabelecido uma repulsa contra o espetáculo da fome. É evidente que na realidade isso não poderia ter sucedido de repente e recordava-se agora, com atraso, de muitos presságios que na época da embriaguez do triunfo não tinham sido suficientemente respeitados, nem suficientemente reprimidos; mas agora já era tarde demais para fazer alguma coisa. Certamente os bons tempos do jejum um dia também voltariam, mas para os que viviam naquela época isso não era um consolo. O que o artista da fome podia então fazer? Quem tinha sido aclamado por milhares de pessoas não podia exibir-se em barracas nas pequenas feiras, e para adotar outra profissão o artista estava não só muito velho, mas sobretudo entregue com demasiado fanatismo ao jejum. Sendo assim, demitiu o empresário, companheiro de uma carreira incomparável, e se empregou num grande circo; para poupar a própria suscetibilidade, nem olhou as condições do contrato.
Um grande circo, com seus inúmero homens, animais e aparelhos que sem cessar se recompõem e se completam, pode utilizar qualquer um a qualquer hora, mesmo um artista da fome - naturalmente se as pretensões dele forem modestas; além disso, neste caso particular não era apenas o próprio jejuador a ser engajado, mas também o seu nome antigo e famoso; de fato não se podia dizer, dada a peculiaridade da sua arte - que com o avanço da sua idade não diminuía - que o veterano artista, passado o auge da sua capacidade, queria se refugiar num posto tranquilo do circo; pelo contrário, o artista da fome garantia que jejuava tão bem quanto antes, o que era perfeitamente digno de fé; afirmavam até que, se o deixassem fazer sua vontade - e isso lhe prometeram logo - desta vez ia encher o mundo de justificado espanto; uma declaração, contudo, que só provocou um sorriso nos especialistas, cientes do espírito da época que, no seu zelo, o artista da fome facilmente esquecia.
Mas no fundo o jejuador também não deixou de perceber as condições reais e considerou natural que ele não fosse colocado com sua jaula como número de destaque, no centro do picadeiro, mas sim fora, num lugar aliás bastante acessível, situado perto dos estábulos. Cartazes grandes e coloridos emolduravam a jaula e anunciavam o que podia ser visto nela. Quando o público, nos intervalos do espetáculo, se comprimia junto às estrebarias para visitar os animais, era quase inevitável que passassem diante do artista da fome e parassem um pouco; talvez permanecessem ali por mais tempo se a multidão que vinha atrás, sem entender aquela parada no meio do caminho aos estábulos, não tornasse impossível uma observação mais prolongada e tranquila. Esse também era o motivo pelo qual o jejuador tremia ao pensar naquelas horas de visita, que ele naturalmente desejava como meta na sua vida. Nos primeiros tempos mal podia esperar os intervalos entre as apresentações; encantado, dirigia o olhar para a multidão que se aproximava, até que logo, - nem mesmo o auto-engano mais pertinaz e quase consciente resistia às experiências - se convenceu de que o objetivo daquelas pessoas era sempre, sem exceção, visitar os estábulos. O mais belo continuava sendo essa visão à distância. Pois assim que os visitantes se aproximavam dele, ensurdeciam-no os gritos e xingamentos dos dois partidos que sem cessar se formavam - o daqueles que queriam vê-lo confortavelmente (tornou-se em breve o mais penoso para o artista da fome), não por compreensão, mas por capricho e teimosia; e o daqueles que queriam ir diretamente às estrebarias. Passada a grande turba, chegavam os retardatários, mas mesmo estes, a quem nada mais impedia de ficar ali quanto tempo quisessem, apertavam o passo e iam direto, quase sem olhar para o lado, a fim de chegar em tempo de ver os animais. E não era um acaso muito frequente que um pai de família viesse com seus filhos, apontasse o dedo para o jejuador, explicasse em detalhe do que se tratava, contasse coisas dos anos passados, quando presenciara apresentações semelhantes, mas incomparavelmente mais grandiosas e as crianças, em vista do seu preparo insuficiente na escola e na vida, continuavam sem entender - o que significava para elas passar fome? - mas traíam no brilho dos seus olhos perscrutadores algo dos novos tempos vindouros e mais clementes. Talvez - dizia às vezes o jejuador a si mesmo - tudo melhorasse um pouco, se o local da sua exibição não estivesse tão perto dos estábulos. Então a escolha seria mais fácil para as pessoas, sem falar que as exalações das estrebarias, a inquietação dos animais à noite, o transporte dos pedaços de carne crua para as feras, os rugidos durante a alimentação, o feriam e deprimiam constantemente. Mas ele não ousava comunicar aquilo à direção; pois ainda assim agradecia aos animais a multidão de visitantes, entre os quais se podia encontrar aqui e ali algum destinado a ele. Como saber em que lugar se esconderiam se ele quisesse lembrar aos outros sua existência e com isso - pensando bem - que era apenas um obstáculo no caminho aos estábulos?
De qualquer forma um pequeno obstáculo, um estorvo que se tornava cada vez menor. As pessoas acostumavam-se à estranheza de se querer chamar a atenção para um artista da fome nos tempos atuais e esse hábito lavrava a sentença contra ele. O jejuador podia jejuar tão bem quanto quisesse - e ele o fazia - mas nada mais podia salvá-lo: passavam reto por ele. Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente. Os belos cartazes ficaram sujos e ilegíveis, foram arrancados, não ocorreu a ninguém substituí-los; a pequena tabela com os números dos dias de jejum, que nos primeiros tempos era cuidadosamente renovada, continuava a mesma há muito tempo, pois após as primeiras semanas os próprios funcionários não quiseram mais se dar nem a este pequeno trabalho; assim o artista da fome continuou jejuando como um dia sonhara, e isso não apresentava nenhum grande esforço para ele, tal como havia previsto. Mas ninguém contava os dias, ninguém, nem mesmo o jejuador conhecia a extensão do seu desempenho, e seu coração ficou pesado. E quando certa vez, nesse tempo, um ocioso se deteve diante da jaula, escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude - ele trabalhava honestamente - mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.
Passaram-se ainda muitos dias e até isso chegou ao fim. Certa vez um inspetor notou a jaula e perguntou aos serventes por que deixavam sem aquela peça perfeitamente aproveitável com palha apodrecida dentro; ninguém sabia, até que um deles, com a ajuda da tabuleta, se lembrou do artista da fome. Levantaram a palha com ancinhos e encontraram nela o jejuador.
- Você continua jejuando? - perguntou o inspetor - Afinal quando vai parar?
- Peço desculpas a todos - sussurrou o artista da fome; só o inspetor, que estava com o ouvido colado às grades, o entendia.
- Sem dúvida - disse o inspetor, colocando o dedo na testa, para indicar aos funcionários, com isso, o estado mental do jejuador - Nós o perdoamos.
- Eu sempre quis que vocês admirassem meu jejum - disse o artista da fome.
- Nós admiramos - retrucou o inspetor. - Por que é que não deveríamos admirar?
- Por que eu preciso jejuar, não posso evitá-lo - disse o artista da fome.
- Bem se vê - disse o inspetor. - E por que não pode evitá-lo? - Porque eu - disse o jejuador, levantando um pouco a cabecinha e falando dentro da orelha do inspetor com lábios em ponta, como se fosse um beijo, para que nada se perdesse. - Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.
Estas foram suas últimas palavras, mas nos seu olhos embaciados persistia a convicção firme, embora não mais orgulhosa, de que continuava jejuando.
- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha.
Mas na jaula puseram uma jovem pantera.Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali.
Franz Kafka
Tradução de Modesto Carone
23.1.05
the masque of the red death
francesca: yes, i believe - truly.
prospero: then i want you to remove it at once! and never to wear it within this castle again! do you know how a falcon is trained my dear? her eyes are sown shut. blinded temporarily she suffers the whims of her god patiently, until her will is submerged and she learns to serve - as your god taught and blinded you with crosses.
21.1.05
9.1.05
void
e odeio me sentir sem poder fazer nada quanto a isso.
e eu me pergunto por que, por que dói tanto...
7.1.05
histórias da metrópole
as mãos trêmulas tocam o metal frio, mas ela não sente... o olhar distante, contempla o horizonte do final da tarde e por um momento parece conter um brilho antigo, quando ela se lembra de quando eles vieram para a metrópole...
tantos sonhos... tantas promessas... tudo parece uma distante lembrança... um álbum de fotografias em sépia...
ela se lembra de quando ele foi embora... se lembra da falta, do aperto no peito e do vazio...
e ela se lembra do que teve de fazer para sobreviver na metrópole iluminada por letreiros de neon...
e se lembra da dor, da humilhação, mais vazio...
e ela grita... com todas as forças, ela grita... até o seu grito se tornar a voz da noite... até todos os sons da cidade se tornarem sussuros...
ela grita até se todo o ar se esvair de seus pulmões... mas a dor não vai embora... o vazio persiste...
e logo os sons da metrópole tomam o ar novamente... inexpugnáveis, invencíveis...
e nas ruas mais abaixo, letreiros de neon se acendem, projetando efeitos de luz e sombra nas ruas cheias de rostos vazios...
25.12.04
sweet innocence
aquelas palavras ecoaram distantes, em minha mente, enquanto eu olhava em direção ao centro do recinto.
iluminada por um círculo de velas, que davam a tudo aquilo um ar religioso, ela estava de pé.
nua...
pálida...
trêmula...
linda.
a luz fraca a tornava etérea, como um fantasma de luz... os cabelos loiros refletiam as chamas das velas em pequenos lampejos dourados.
ao sentir alguém tocando meu ombro, olhei para o chão, quase com vergonha do que meu corpo sentia. a voz disse, novamente, agora próximo ao meu ouvido:
"ela é sua. esta noite é em sua homenagem. tome-a para vc"
a voz era doce e baixa... quase um sussuro, mas assim mesmo, parecia quase uma ordem.
"ela é jovem demais..."
pensei em dizer isso como uma desculpa, mais para mim mesmo que para os outros. a mulher... não. a menina parecia não ter mais que dezessete anos... seu corpo tenro e firme tremia levemente, enquanto seus olhos pareciam pedir ajuda a mim. em vão...
"p- por favor... por favor, me deixem ir!"
não, ela não era jovem demais. e não, eu não a deixaria ir...
haviam outros ali... outros como eu e cassie... éramos 7, ao todo. alguns eram tão antigos que provavelmente conheceram o antigo mundo enquanto ainda era o único mundo conhecido. um círculo em volta de nosso altar de carne.
eu não conseguia mais afastar meu olhar do corpo dela. meus olhos percorriam cada centímetro da pele clara... seus seios pareciam quase hipnotizantes, chamando, implorando por mim... eu a desejava.
eu tinha fome.
"essa noite, christopher, vc é aceito entre nós. essa noite, vc se torna um integrante da sombra. e ela é seu prêmio. tome-a para si"
a voz era calma e antiga... parecia reverberar nas paredes, de maneira que não era possível saber exatamente de onde ela vinha... mas eu a conhecia. eu conhecia derek tempo o bastante para saber que, mais do que tudo, aquela frase havia sido um desafio.
"por favor... eu não conto sobre vcs... eu prometo... por favor, me soltem!!!"
eu caminhei na direção dela. o seu odor adocicado tomou meus pulmões, almentando meu desejo. eu acariciei o seu rosto, quase como seu amante e disse a ela, perto do seu ouvido:
"não irá demorar. eu prometo..."
eu a deitei... e a tomei, ali... no chão daquele lugar antigo e profano, aos olhos ávidos de meus companheiros... ela gemia ao sentir meu toque... e gritou quando me sentiu a invadindo... e ela pediu mais... e ela chorou...
naquele momento, eu a amei mais do que havia amado antes.
naquele momento, eu a entreguei às trevas da noite... eu a libertei do fardo da dor de viver e ela me pagou com o precioso líquido que há pouco corria em seu corpo...
depois de terminado, eu baixei vagarosamente a carcaça sem vida, deixando-a no chão. o sangue que havia escorrido no canto da minha boca ainda parecia fresco e trazia seu odor, ainda.
"está terminado."
mas não havia mais ninguém ali... nem mesmo cassie... eu estava a sós com ela. por quanto tempo?
a noite estava terminando... a lua logo iria embora, levando com ela os últimos resquícios de minha vida anterior...
eu não era mais christopher...
eu era um vampiro, agora... um morto...
uma sombra.
o brilho da lua me faz lembrar de um tempo em que um menino, nesta mesma casa, subia o telhado nas noites claras de outono para se deitar, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para as estrelas.
o garoto, não mais velho do que 8 anos, ficava às vezes horas, ali. quando ele se deitava, de costas para o telhado, parecia que a terra desaparecia... e com ela, todos os medos e dúvidas que circundavam a jovem cabeça.
a lua parecia chamá-lo para viajar com ela... ele quase conseguia ouvir as vozes das estrelas, num cântico celeste... antigo e triste, mas extremamente bonito.
e naquele telhado, naquelas noites de outono, o menino se sentia realmente parte de algo muito maior que tudo o que ele conhecia...
e ele sorria...
hoje, olhando a noite pela janela, eu me pergunto para aonde aquele menino se foi...
29.11.04
tale of the dreaming
"como?"
a menina olhava para o homem com um olhar de quem acabou de descobrir um grande segredo.
"esse lugar... é o seu sonho, né?"
"eu... eu não sei. como vim parar aqui"?
"ora, como todos os outros. ou vc é parte de um sonho, ou é um sonhador!"
"ah! acho que nunca fui um sonho."
"viu? eu sabia!!! estamos no seu sonho."
"hummm... e o que eu... huh... nós faremos agora?"
"não sei, o sonho é seu, ué!"
o homem olha a sua volta, tentando organizar seus pensamentos, mas a última coisa que se lembra é de ir para a cama. às 11h, como fizera todas as noites, nos últimos 27 anos. tudo aquilo era muito insólito, mas de alguma maneira, ele não sentia medo. só uma pequena confusão.
de qualquer maneira, a menina parecia estar perdendo a paciência.
"seus sonhos são sempre assim tão chatos?"
"o quê?"
"nada tá acontecendo. por que vc não sonha com princesas e dragões mágicos e cavaleiros de armadura?"
"cavaleiros? acho que realmente nunca sonhei com isso, menininha."
"humpf... que saco!"
"ei! calma."
"eu conheço um dragão! ele pode se juntar a nós, pode?"
"um dragão???"
"ééééééééé! dragão!!!! ei, dragão!!!! dragããããããããããããããããão!!!!"
o homem olha incrédulo para a menina por alguns instantes, até perceber uma sombra se formando atrás dele.
"o que vc quer?"
uma voz faz tremer o ar. o rapaz fecha os olhos, dizendo a si mesmo que aquilo devia ser uma brincadeira.
"oi, dragão! eu queria saber se vc pode ser parte do sonho desse moço aí, ó."
"hummmm... está bem... mas ele é meio franzino para um cavaleiro. e a princesa, onde está?"
o homem vira-se para trás. e a alguns passos, um enorme dragão vermelho está sentado sobre a cauda, com uma das patas sobre o joelho, apoiando o rosto.
"por deus!!!!!!"
o dragão olha assustado a sua volta:
"o que foi?"
"vc! vc é um dragão!!!"
"ah... vc é perspicaz. o que fez vc tirar essa conclusão, hein? imagino se foram as escamas vermelhas que recobrem meu corpo, ou talvez as asas... certamente não foi a minha singela cauda."
"que lugar é esse??? o que está acontecendo aqui????"
a menininha vai até os pés do dragão e olha para o homem com uma cara de quem está entediada.
"nossa, como vc é gritão."
o dragão sorri para ela. ele a pega com uma das mãos e a trás perto do seu focinho de dragão.
"ele é o dono desse sonho? acho que encontramos um daqueles meio sem imaginação."
"acho que ele está sentindo a falta da princesa. precisamos de uma princesa para ele"
"ah! eu conheço uma..."
o dragão solta um rosnado enorme, e fogo salta de sua boca, em direção aos céus. o rapaz cai ao chão, tremendo.
"olá, dragão! desculpe a demora. a droga do vestido não queria entrar de jeito nenhum. onde está meu cavaleiro?"
a princesa olhava em volta, tendo a certeza de que seus cabelos iriam brilhar à luz do sol a cada movimento. ao olhar em direção ao rapaz, ela fica um pouco decepcionada.
"é ele? ele não é meio... magrinho para ser um cavaleiro?"
a menina olha para ela com cara de brava.
"não fala assim dele!!! ele é legal. só é meio parado."
"ah... tá bem... sonho é sonho, né? só não podemos demorar, tenho que refazer minhas unhas logo"
"oba!!!! tio, eu vou ali para aquela pedra, tá? pra ver vc lutar contra o dragão para salvar a princesa!"
o homem olha desesperado para a menina.
"lutar contra o... ei! eu não quero lut..."
a princesa corre para os braços dele, que nesse momento percebe que está vestindo um armadura prateada e traz uma espada em suas mãos. a armadura incomoda bastante na parte de baixo e ele mal consegue segurar a espada. a princesa grita perto dos seus ouvidos.
"salve-me, senhor!!! esse monstro horrível destruiu minha casa, matou minha família e agora me quer! se me salvar, prometo entregar-lhe a minha mão!"
o dragão levanta-se e apoia-se nas quatro patas, rugindo ameaçadoramente e soltando labaredas enquanto aproxima-se dos dois. o rapaz fica com medo e joga a espada de qualquer maneira, em direção ao dragão. a arma cai com a ponta em cima da cauda da criatura que faz uma cara de dor.
"ei!!! não é para ser assim!!!!! vc sabia que essa espada é afiada, seu maluco???"
o rapaz não aguenta mais e grita, desesperado, enquanto afasta a princesa de si.
"chega!!! chega disso tudo! eu quero sair dessa droga de lugar agora! menininha, vc é louca! todos vcs são loucos! eu quero ir agora!!!"
- pop -
uma pequena nuvem de fumaça é tudo o que sobrou, no local onde o homem estava. os três: a menina, o dragão e a princesa se entreolham, por alguns instantes. a menina faz uma cara de desolação.
"ah... droga... de novo ele foi embora antes do sonho acabar... como ele é chato!"
"não se preocupe, pequenina, ele voltará amanhã."
"lorde sonho!"
o dragão se abaixa, numa reverência e a princesa sorri, olhando sedutoramente para o senhor do sonhar.
"princesa... creio que vc tem que participar de alguns sonhos mais adultos, ainda essa noite, não?"
"sim, milorde. com licença."
o lorde moldador olha para a pequena criança com um olhar reprovador, da cor da noite.
"dragão, dragão... vc não deveria estar guardando a entrada do meu castelo?"
"sim, milorde... voltarei nesse momento. com a sua permissão..."
"e vc, pequenina? o que fará agora?"
"hummmmm... não sei. será que o tio fiddler's green deixa eu colher flores nele???"
"provavelmente. mas seja gentil com ele, está bem?"
"tá bem, lorde sonho! beijo para o senhor."
"mande minhas saudações a ele."
"tá!"
e o homem vestido de negro olha a menina correr e começar a desaparecer na distância e ele sorri um sorriso fulgaz... quase a sombra de um sorriso.
"ele voltará amanhã... todos eles voltam na noite seguinte..."
16.11.04
um bom conselho
não dês língua aos teus próprios pensamentos, nem corpo aos que não forem convenientes. sê lhano, mas evita abastardares-te. o amigo comprovado, prende-o firme no coração com vínculos de ferro, mas a mão não calejes com saudares a todo instante amigos novos. foge de entrar em briga; mas, brigando, acaso, faze o competidor temer-te sempre. a todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio. conforme a bolsa, assim tenhas a roupa: sem fantasia; rica, mas discreta, que o traje às vezes o homem denuncia. nisso, principalmente, são pichosas as pessoas de classe e prol na frança. não emprestes nem peças emprestado; que emprestar é perder dinheiro e amigo, e o oposto embota o fio à economia. mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel; segue-se disso, como o dia à noite, que a ninguém poderás jamais ser falso.
uma janela para o interior
ele digita algumas palavras, mas acaba apagando-as, enquanto balança a cabeça, desaprovando tudo o que havia escrito.
ele olha pela janela. seu único contato com o mundo exterior em dias como esse e se distrai pensando em como às vezes ele parece assistir ao que se passa ao seu redor como se fosse um filme. indaga-se em silêncio se é o único a ter essa sensação perante o mundo, mas acha que no fundo ele não é tão especial assim, para ter sensações e pensamentos tão originais.
enquanto uma senhora caminha despreocupada, lá fora, o escritor se imagina como uma sombra, passando pelo mundo incólume... sendo percebido somente por pessoas com mais atenção... mas sendo esquecido instantes depois.
ele pensa em seus textos... pensa se algum deles fez mesmo sentido para os poucos que os leram... se algo que escreveu mudou algo na maneira como eles viam o mundo, mas não tem certeza disso. afinal, textos são esquecidos... palavras se perdem...
ele sorri de uma maneira um pouco sarcástica, lembrando que a melancolia não perde a menor oportunidade de se mostrar.
ele pensa na solidão que sempre sentiu, por toda a vida, mesmo quando está cercado de pessoas, ele se sente só... e pensa em como são singulares os momentos em que se sente bem com alguém. um outro sorriso... "sempre as mesmas coisas, não?" ele fala para si... "sempre acabo pensando nas mesmas coisas".
o rapaz se indaga se deve voltar a se consultar com a psiquiatra, mas só de lembrar em ter que discutir coisas muito íntimas com alguém que só está ali para receber algum dinheiro, ele se desanima.
de repente, começa a digitar... e ao invés de escrever sobre lugares fantásticos ou coisas antigas, percebe que as palavras falam dele mesmo. de como ele se sente...
9.11.04
o cursor na tela do computador me convida a viajar pelas letras do teclado, escrevendo coisas que são verdades até o momento em que as digito, mas que se transformam em palavras... e não podemos confiar nas palavras.
velhos sonhos me voltam a mente, vez ou outra... sonhos de outros lugares, de épocas distantes e felizes... acho que eu era feliz, quando era criança... meu mundinho era tudo o que me importava e naquela época o mundo lá de fora não forçava tanto para entrar... me sinto uma criatura tão distante daquele menino... tão cínico, triste e até um pouco patético, com suas eternas dúvidas (e agora não existem mais adultos que as respondam).
alguém já sentiu saudade de algo que não conhece? como se cura isso???
enquanto devaneio, o sol se esconde por trás de nuvens cinzentas... por um breve segundo, penso ter encontrado uma voz nos céus que me escuta... mas eu sei que os deuses tem coisas mais importantes para fazer...
no som um rapaz morto fala "vai ver é assim mesmo e vai ser assim pra sempre, vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente".
7.11.04
30.10.04
the outlaw torn
and if i close my mind in fear
please pry it open
see me
and if my face becomes sincere
beware
hold me
and when i start to come undone
stich me together
save me
and when you see me strut
remind me of what left this outlaw torn
28.10.04
dias cinzas
gosto de dias cinzas!
27.10.04
scars
i have scars on my body
from using myself
abusing myself
in sickness and in health
i have bruises on my body
which go away with time but remain in my mind forever
as a constant reminder of the last man i loved
loathed
left
i have the word 'truth' on my arm
because there is no room for honesty when you're a liar
i have a tattoo on the back of my neck which i cannot see
but i can feel
but i can feel
but i can
i have a tattoo on my stomach which in italian means 'the sweet life'
i have the word 'love' in flames surrounded by stars on my right wrist
because these five fingers go straight into the soul of man
i have the word 'hate' on my left wrist because the left hand is the hand of hate
and it was with this hand that cain knifed his brother
i'm right handed
maybe that's my problem
my ruin
24.10.04
sunday at night
porque eu sinto esse vazio chato, todo domingo à noite?
odeio...
playing with fire
fire'll never lose a fight
it can be smothered but it will always come back
to burn men's contempt and show its force
to revenge the offense to this earth
wherever i go
all i see are fools
playing with the fire
wherever i hide
someone by my side
plays with the fire
noone'll never subjugate its force
the sweet dance of flames is rebel to our wills
it can purify the dirt of souls
it will help those who'll know its laws
some are too pretentious to respect
but fate'll remember all their deeds
as the cycles start they end one day
the fire will be there to laugh and play !
21.10.04
death of a king [conclusion]
completamente perdido, olhei em volta, cansado e ferido, procurando pelos cavaleiros e vi que nossos homens estavam perdendo para os inimigos, pois haviam sido cercados longe dos lanceiros com escudos.
não achei a minha espada, então peguei a primeira arma que encontrei, ainda enfiada no corpo caído e corri, tentando me manter incólume no meio da batalha.
a chuva atrapalhava a corrida, havia lama demais, corpos demais jogados. meu braço latejava enquanto uma crosta de sangue ia se formando, no ombro e era difícil me manter concentrado. tudo o que eu conseguia pensar é que não poderíamos perder ele. não hoje, não nessa batalha e não aqui, às portas do centro do reino.
enquanto corria e tentava me manter lúcido, imagens de outros tempos passaram por mim. lembro da bretanha da minha infância, os ataques saxões, os senhores romanos que queriam manter a ordem pela força de um império que morria. pensei em minha doce esposa, em meus filhos. lembro da ordem que trouxemos às tribos. a paz mantida pela espada dos deuses.
aquilo não iria terminar. não hoje.
os traidores haviam cercado nossos cavaleiros. o rei estava à frente, como sempre. há alguns metros, o usurpador sorria, um sorriso em um rosto sem emoção.
uma pontada de medo surgiu em meu coração, quando percebi que o rei não iria mais recuar. eles estavam em menor número.
o homem que havia sido quase um irmão para mim estava com um olhar sereno. ele desceu do cavalo, caminhou alguns passos e gritou que aquilo terminaria ali, naquele dia.
de repente, o campo de batalha foi se tornando um lugar silencioso. todos pareciam ter ouvido a afirmação. alguns anos depois ouvi algumas mulheres dizendo que naquele dia, o rei havia tomado a voz do próprio bran para si.
eu estava lá e às vezes me pego pensando o mesmo. todos haviam se calado. a própria colina onde estávamos parecia ter adquirido um ar quase etéreo... como se tivéssemos atravessado a ponte que liga os mundos e nesse momento estivéssemos no reino dos antigos.
um dos traidores tentou acertar o rei, mas recebeu um golpe de espada nas costas que veio do próprio usurpador e caiu no chão, já sem vida.
o bastardo desceu do cavalo e passou o sangue que escorria da espada em seu rosto, mantendo o sorriso mortal por todo o tempo. ele parou por um momento, como se para fazer reverência ao rei e tentou golpeá-lo por entre as costelas. o rei desviou e eles iniciaram a luta.
golpe após golpe, eles se equiparavam, golpeando, desviando e golpeando novamente.
eu estava paralisado. tudo parecia ter parado. era um duelo entre gigantes e nenhum dos dois parecia vacilar um só segundo.
mas o usurpador era ardiloso. percebendo que não conseguiria vantagem sobre seu adversário, utilizou seus jogos sujos. depois de dar um golpe de cima para baixo, o guerreiro negro girou sobre seu próprio corpo e golpeou novamente, à maneira dos romanos e fez com que o rei usasse de toda a força para bloquear os dois golpes. nesse momento, o bastardo puxou uma faca fina que estava em seu cinto e a enterrou por baixo do braço do rei, que deu dois passos para trás, tentando entender o que acontecera.
depois de alguns segundos os passos do rei se tornaram vacilantes, quase como se ele houvesse ficado bêbado. só podia significar uma coisa. havia veneno na lâmina da faca. ele havia sido envenenado.
naquele momento, eu senti um calafrio percorrer meu corpo, pois o usurpador estava tentando gravar a espada na cabeça do rei. ele aguentou a força do golpe, mas caiu de joelhos. o traidor da bretanha se aproximou, mas o rei se levantou, com os olhos injetados de ódio e golpeou o inimigo três vezes seguidas, com tanta força que o traidor caiu de costas. o rei levantou novamente a espada sagrada e a empurrou com toda a força no peito do príncipe negro. a batalha havia acabado.
mas...
o rei não se movia.
o traidor havia levantado a sua espada no último momento e ela havia penetrado a armadura do rei, atravessando seu peito e saído nas costas.
os dois haviam se chocado por uma última vez. a guerra acabara. não haveria vencedores nesse dia.
e ali, por sobre aquela colina, eu chorei pela última vez...
ali nós perdemos a esperança... a bretanha perdeu seu rei...
e eu perdi um amigo.
20.10.04
orage
mornas e doces, como lembranças de amores antigos.
ouço o sussuro do vento, dizendo que você vem.
aos poucos a luz do sol se empalidece,
perdendo terreno para sua presença.
as nuvens mostram sua grandiosidade,
cobrindo o mundo, cercando-me...
abraçando-me.
os relâmpagos caem ao meu redor,
revelando suas vontades
em forma de som e fúria.
me sinto uma criança que vê o mundo pela primeira vez,
com medo, curiosidade e desejo.
ouço nos uivos dos ventos seus gemidos...
sinto as gotas de chuva escorrendo em meu rosto,
mornas e doces, como o gosto de seu corpo...
19.10.04
dream of icarus
liberto das amarras terrenas que oprimem meu corpo,
flutuo sem peso pelos céus.
alcanço os frutos nos topos das árvores,
acompanho o vôo das aves, que me olham curiosas,
sou seu novo irmão...
ícaro.
vejo barcos percorrerem as águas abaixo,
olho para as montanhas... cada vez menos imponentes,
olho para o sol, senhor da luz,
quero alcança-lo, quero tocá-lo...
mais e mais alto, eu desejo ser o senhor da luz...
eu sonho que estou caindo,
porque ousei sonhar, porque ousei demais,
o solo cada vez mais próximo, não há mais sol,
não há mais montanhas, ou pássaros,
somente eu e a queda,
somente eu
e meu sonho...
17.10.04
dark horizons
vc já se sentou em um lugar alto e olhou para o horizonte, enquanto o vento traz as nuvens de chuva em sua direção e vc sente que há algo no ar... uma expectativa...
é isso que estou sentindo, hoje...
death of a king [part 2]
ao meu lado, um jovem, pouco mais velho que meu próprio filho recebeu o impacto de uma espada que entrara fundo em seu ombro e jogando-o para cima de mim. empurrei o garoto para o chão a tempo de desviar do golpe de uma lança. segurei o cabo da arma e puxei o traidor que a empunhava em direção a mim. com um golpe rápido, cravei a lâmina da espada em sua cabeça. o sangue espirrou em meu rosto, quando puxei a lâmina de volta e agradeci a meus anos de treinamento ao lado do próprio rei.
gritei para que os homens estocassem com as lanças por baixo, para que os inimigos que estivessem na frente caíssem, diminuindo o avanço do exército.
estávamos em menor número e em posição defensiva, mas após anos de lutas ao lado dos maiores campeões da bretanha nos fizeram confiantes. talvez até confiantes demais.
nos esquecemos que a luta não era contra os selvagens saxões e suas turbas descontroladas. o exército inimigo era formado de guerreiros que como nós passaram a vida enfrentando os inimigos da bretanha.
o bastardo usurpador havia seduzido a todos com suas promessas de riquezas, se os chefes das tribos o ajudassem a matar o rei. depois de anos sofrendo contra ataques dos saxões e pictos, os homens precisavam de uma figura que mostrasse que ainda podíamos conquistar. que o ideal de paz era um sonho de um rei louco e fraco.
numa batalha como essa, a confusão toma conta do campo em pouco tempo e os momentos iniciais são sempre os decisivos. havíamos combinado na noite anterior por usar a estratégia que dera certo em outros momentos assim. o rei e os cavaleiros iriam se afastar como se estivessem fugindo do campo de batalha, enquanto na verdade estariam dando a volta para pegar os inimigos pela lateral e criando assim duas frentes de batalha, que iriam dividir a força, dos ataques.
eles já estavam quase chegando ao largo do exército quando perceberam que foram eles mesmos as vítimas de uma emboscada. os traidores mantiveram seus cavaleiros afastados, esperando o ataque de nossa cavalaria para correr ao encontro deles.
o próprio usurpador tomava a frente do grupo inimigo, cavalgando sua montaria negra, com armadura e roupas negras, como um dos próprios filhos de scathach.
comandei meu grupo para tentar correr naquela direção, mas a batalha havia afastado muitos deles. corri sozinho, tropeçando na lama e no corpo de homens caídos, na direção do rei, mas fui interrompido por um golpe pesado em meu ombro esquerdo. o barulho produzido se transformou em uma dor profunda e na certeza de que eu não poderia mais usar aquele braço em um campo de batalha nunca mais. virei-me para encarar meu inimigo, mas um novo golpe me fez cair com a cara na lama. comecei a arrastar-me para longe, pedindo à morrigan que levasse minha vida logo.









